Sobre o senso incomum

Por Tiago L. Garcia on dez 5, 2008 em Grandes NinhariasNo comments

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Não há duvida que o senso comum (como podem atestar Aristóteles e Oswaldo Porchat) é, em muitas ocasiões, um guia bastante útil. Não há, certamente, cão-guia mais confiável para nossos dias de cegueira intelectual. No entanto, não raro, o senso comum se mostra bastante incomum, ou, se podemos assim dizer, a dóxa se mostra, por vezes, paradoxal.

Um caso bastante curioso em que o uso comum da linguagem se torna incomum é, a meu ver, quando esta associa as noções de simplicidade e facilidade à felicidade e ao prazer; assim como associa as noções de dificuldade e a complexidade à dor e à tristeza.

Uma situação “complexa” é frequentemente compreendida, no uso comum da linguagem, como uma situação dolorosa; da mesma forma, algo difícil de compreender é sempre tomado como algo que nos aborrece. Já “as coisas simples da vida” são sempre coisas a serem desfrutadas; o bon vivant dos franceses os anglofônicos denominam, frequentemente, easy going (aquele que “vai fácil”). Ou seja, a situação se dá, como frequentemente ouvimos por aí, como se tudo aquilo que é irredutível e inexplicável fosse ruim e aborrecido – e tudo aquilo que é claramente inteligível fosse bom, algo que contribui para a felicidade. Associação curiosa e incomum esta!

Primeiramente, fica implícito nesta paradoxal associação do senso comum a noção de que o conhecimento sempre contribui para o felicidade. O que não é sempre verificável. Se somos intelectualmente prósperos e generosos o suficiente para preocuparmo-nos com o destino de nossos companheiros de circunavegação em torno do sol, por exemplo, nós sabemos que observar em suas entranhas o mundo em que vivemos não é, definitivamente, algo que contribui para nossa “pontuação” na escala Bentham de felicidade.

Da mesma forma, não é nada seguro inferir que tudo que causa dor, toda situação infeliz, é complexa ou difícil. Tomemos, por exemplo, a maior das tristezas: a morte. A morte (para aqueles que vivem, é evidente) é dolorosa, simplesmente. Neste sentido, não é (somente…) por ser irritante e ausente de imaginação que o corvo do poema homônimo de Edgar A. Poe, diante do peso da morte, insiste em martelar nosso poeta com uma única lacônica sentença: “Nevermore!”.

De fato, o que é doloroso na morte é sua absurda simplicidade. As pessoas morrem e é isto, nada de dúvidas, nenhuma questão… ninguém é mais easy going (ou easy went) que um morto.

Agora, olhando a situação pelo avesso, me parece igualmente claro que nem tudo que é “complexo” e de difícil compreensão é doloroso ou aborrecido. Se considerarmos, por exemplo, um truque de ilusionismo, nesta ocasião é justamente a complexidade e a dificuldade em compreender que torna o truque “mágico”. A grande “mágica” do mágico é fazer-nos gozar de nossa própria ignorância, nos tornando estupidamente felizes em conhecer que não conhecemos.

Ainda a respeito do enorme prazer que é não conhecer, podemos apontar o prazer da ignorância em relação aos desfechos das narrativas, seja as do teatro, da literatura ou do cinema. O conhecimento e a ruína do prazer estão aqui intimamente relacionados. O axioma de Aristóteles “todos os homens desejam por natureza conhecer” é - ao menos enquanto estamos em um teatro, ou lendo um romance moderno - a mais absoluta das falácias. Enquanto seguimos a narrativa, o prazer depende em muito, justamente, de nossa consentida dificuldade em reconhecer o destino inalienável marcado no papel, na película ou na memória dos atores.

É evidente, devemos por fim considerar, que existem ocasiões complexas e dolorosas, assim como existem as simples e prazerosas (de fato, neste sentido, todas as permutações são possíveis). Meu ponto aqui é somente fazer notar que a causalidade que envolve os termos não é, em absoluto, certa e segura. Irônica conclusão: às vezes o senso comum é por demais (para horror de seus amantes de longa data, os ingleses) cartesiano!

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