O metal na primeira década do século XXI

Por Maurício Angelo on dez 15, 2009 em Destaques, Melhores Da Década (2000-2009)2 comments

Quem gosta de metal não tem absolutamente nada para reclamar da primeira década dos anos 2000 até agora: além de assistirem o renascimento de bandas clássicas, voltando a lançar ótimos álbuns (Iron Maiden e Metallica, as principais), tivemos o surgimento de boas novas bandas (o Mastodon da foto acima, Sun O)), Mars Volta, etc)  e uma avalanche de obras relevantes em praticamente todos os sub-estilos: death, doom, thrash, prog, melódico, black, etc.

A seguir, escolhi 13 álbuns que definiram a década e explico o motivo de cada um figurar na lista. Clicando sob o nome de cada álbum você abre um link para ouvi-lo e/ou músicas da carreira do grupo. Easy, easy.

Iron Maiden - Brave New World (2000)

Quando “Brave New World” foi lançado, a banda estava decadente, afastada dos fãs, insatisfeitos com o novo vocalista, Blaze Bayley. Há que se dizer que Bayley já entrou num período de baixa do grupo, após dois discos apenas medianos (No Prayer For The Dying, de 90 e Fear Of The Dark, de 92) e estafa entre os membros e Bruce Dickinson. O desdobramento culminou nos piores discos da Donzela, The X Factor, de 95 e Virtual XI, de 98.

A verdade é que ninguém aguentava mais e a sombra de Bruce perseguia a banda a todo custo. Ajudou também o fato da carreira solo do Mr. Air Raid Siren, apesar de boa (fora o duvidoso “Skunkworks”, de 96) não estar gerando tanta grana. Como diz o ditado popular: a fome com a vontade de comer…”Brave New World” foi recebido com entusiasmo poucas vezes visto.

A capa era linda, Bruce, talvez o vocalista mais amado do gênero, de volta e canções revigoradas, recuperando a magia perdida, com um quê de “Seventh Son Of A Seventh Son”. BNW também definiu o que seria o Iron nos anos 2000, menos inspirado nos trabalhos seguintes: ares progressivos, atmosféricos, faixas longas e épicas criadas por Steve Harris e cia.

Após a tradicional abertura com uma música rápida e pesada (”The Wicker Man”), praticamente todas as faixas do álbum se tornaram queridas pelos fãs: Ghost Of The Navigator, a faixa título, The Mercenary, Dream Of Mirrors, Blood Brothers e Out Of The Silent Planet. No total, mais de uma hora de puro metal como há muito os fãs ansiavam.

A consagração do CD também deve-se bastante ao duplo ao vivo gravado no Rock In Rio menos de um ano depois do lançamento. Especialmente para nós, brasileiros, por motivos óbvios. BNW é, de certa forma, o renascimento simbólico do metal na década, de uma banda ícone do estilo, com seu principal vocalista de volta, começando a enterrar a modinha do “new metal” e trazendo consigo um fôlego novo a diversos outros grupos respeitáveis.

Nevermore - Dead Heart In A Dead World (2000)

Warrel Dane. Só este nome já seria motivo suficiente para colocar o Nevermore aqui. O vocalista sem dúvida lidera um dos nomes mais interessantes do metal. Se você lembra da guitarra de Jeff Loomis, o baixo de Jim Sheppard e a bateria de Van Willians, que estão juntos desde 94, a coisa fica bem boa. O Nevermore nunca deixou de ser coeso e experimental ao mesmo tempo. Além desde DHIADW, o grupo lançou “Enemies Of Reality” e “This Godless Endeavor” na década. Como se não bastasse o vocal, Dane é ótimo letrista. Sonoramente, o Nevermore produz uma massa sonora melódica thrash sempre com riffs inspirados e passagens complexas. Ouça apenas a cover de “Sound Of Silence”, do Simon & Garfunkel, presente nesse CD e comece a entender a brincadeira.

Opeth - Blackwater Park (2001)

Dentro do metal, poucos grupos conseguiram fundir tão bem o progressivo, o doom, o thrash e as vertentes mais pesadas e obscuras do metal como o Opeth, ao mesmo tempo em que trazem melodias únicas e ideias incomuns. Blackwater…contou ainda com o auxílio de Steven Wilson, do Porcupine Three, um belo adendo. É considerado, com justiça, a melhor obra do grupo.

Pain Of Salvation - Remedy Lane (2002)

É a obra melhor acabada da banda. A mais bela e equilibrada. Onde Daniel Gildenlow conseguiu atingir um nível de maturidade impressionante, refletido em faixas como “A Trace Of Blood”, “Fandango”, “Undertow” e “This Heart Of Mine (I Pledge)”. A rara capacidade de somar quebradeira instrumental, sentimentos, criatividade e letras bem acima da média. Uma banda prog que não é cópia de Dream Theater. Após RL, Gildenlow atingiria níveis de megalomania extremas com “Be”, onde tentou “apenas” resumir a história e a alma humana, caindo depois no esquizofrênico “Scarsick”. “Remedy Lane”, no entanto, é onde podemos encontrar o melhor da mente de um cara talentoso (maluco?) como ele.

Sunn O))) - Flight Of The Behemoth (2002)

A primeira obra-prima do noise-experimental duo de Seattle. Stephen O’Malley e Greg Anderson conseguiram como poucos produzir um metal de difícil definição, sombrio, agressivo e inteligente. Colaboraram com dezenas de outros artistas e foram saudados pela mídia mainstream.

Krisiun - Works Of Carnage (2003)

Dentre os vários ótimos álbuns de death metal lançados na década, por gente como Cannibal Corpse, Obituary, Nile, etc, o power trio gaúcho merece o posto por carregar a legítima herança do Sepultura. O Krisiun faz música brutal, sem concessões, como poucos no mundo e no Brasil e conquistaram o respeito da imprensa especializada mundial por isso. Ao contrário dos mineiros, aqui não cabem experimentações, modernidades e outras “buscas”. É apenas death puro, insano, no seu estado mais bruto de lapidação, se é que me entendem.

Mars Volta - De-Loused in the Comatorium (2003)

Mesmo não sendo exatamente metal, é justo colocar o Mars Volta no balaio. Saídos do já excelente At The Drive In, Cedric Bixler-Zavala e Omar Rodriguez-Lopez conseguiram a proeza de misturar música pesada com jazz fusion, ritmos latinos, experimental, psicodélico e o diabo a quatro. De-Loused foi produzido por Rick Rubin e conta a história de um viciado em drogas de coma, na primeira pessoa. Pra ouvir chapado em todos os sentidos.

Mastodon - Leviathan (2004)

Quando “Leviathan” foi lançado, o Mastodon foi a unanimidade do ano. Todos ficaram abestalhados com a capacidade técnica e a música pesada intrincada do quarteto. O disco é baseado em “Moby Dick”, de Herman Melville, algo que fala por si só. Além disso (e sem contar o sensacional “Crack The Skye”, deste ano), o Mastodon é, disparado, a melhor banda do que se convencionou colocar no time do “metalcore”. Salva os nossos ouvidos das repetições e da velocidade muitas vezes acéfala de bandas como Killswitch Engage, Dew-Scented, As I Lay Dying e Shadows Fall. Apesar das citadas terem ótimos momentos, aqui vamos além do atletismo e do mesmo riff tocado centenas de vezes. O Mastodon atingiu o nível de respeito que goza em dia com justiça. Os ouvidos agradecem.

Meshuggah - Catch 33 (2005)

Pegue o que falei do Mastodon acima e jogue numa banda antiga, surgida no final dos anos 90, com um nível de insanidade bem maior. É o Meshuggah. Catch 33 é apenas uma música dividida em 13 partes. E é tão singular (esquisito? bizarro? exótico? tsc) que apenas ouvindo pra sacar. Tente a sorte.

Dark Tranquillity - Character (2005)

O chamado “death metal melódico” (ou “Gothemburg Sound”, pela profusão de bandas suecas) foi uma das melhores coisas desenvolvidas (preste atenção: desenvolvidas, não criadas) nesta década, até certo ponto. Chegou um momento em que todo mundo começou a dar seus escorregões, flertar com o new metal, fazer besteira. In Flames, Soilwork, Children Of Bodom, etc. O Dark Tranquillity não. Justamente por ser a pioneira da coisa toda, fundada ainda em 1989. E Mikael Stanne sempre foi meu vocalista favorito do estilo. Na verdade, “Haven” e “Projector” era o DT abusando da boa vontade dos fãs, com leves “modernidades”. “Damage Done”, de 2002, botou ordem na casa e este “Character” intensifica tudo de bom que DD recuperou. Uma pedrada melódica autêntica, para ouvir feliz.

Machine Head - The Blackening (2007)

O que falei sobre “escorregadas” no item anterior serve para o Machine Head. Rob Flynn enveredou por aquele thrash metal esquisito, flertando com o “industrial” (mal feito) e o new metal. Até que tomou vergonha na cara e preparou com calma o que viria a ser um dos mais aclamados álbuns da década, uma pérola do thrash metal que vale o seu tempo. Da abertura com os 10 minutos de “Clash The Fists Of Dissent” até o fim, você verá uma banda no ápice, inspirada como jamais esteve.

Metallica - Death Magnetic (2008)

Se o Iron Maiden viveu um período negro na década de 90, o Metallica foi o desbunde completo. A banda underground deixou de existir com o Black Album, de 1991. O mainstream, milhões e milhões no bolso, hits como “Nothing Else Matters” tocando exaustivamente nas rádios, todas as condições para que o vício em alcool e drogas atingisse níveis inimagináveis antes. E a ressaca durou muito. 17 anos para ser exato. Neste tempo o Metallica fez de tudo: se afundou em “Load” e “Reload”, lançou outro álbum de covers, gravou com orquestra, entrou em guerra com o Napster (e se queimou muito com isso), foi pra clínica de reabilitação, expurgou os demônios no documentário “Some Kind Of Monster”, mandou o baixista Jason Newsted embora, veio num pseudo-renascimento em “St. Anger” (2003), álbum em que conseguiram reunir tudo de pior que o metal vivera nos 5 anos anteriores, já em seu fim, com uma produção inaceitável de Bob Rock.

Tudo bem que havia boas ideias ali. Riffs, solos, músicas longas e com potencial. Mas a espinafrada foi dura e merecida. 5 anos de turnês, cabeça no lugar, um reconhecimento humilde das críticas e entrosamento com Rob Trujillo resultaram no estupendo “Death Magnetic”.

Não há segredo aqui: DM é um “…And Justice For All II”. Da capa em preto e branco a duração (sempre longas) e estilo das músicas até a produção, tudo transpira o clássico de 1988. Algo pra reclamar? Após quase 2 décadas de descrença geral, o grupo todo provou que ainda sabe soar como uma das melhores bandas do mundo, respeitando sua história e produzindo um primor de peso, técnica, feeling e o diabo. As 10 músicas de Death Magnetic conseguem suplantar todas as besteiras que o Metallica fez anteriormente. O que, claro, não é pouca coisa.

Slayer - World Painted Blood (2009)

No mínimo curioso que esta lista termine, por acaso, mas merecido, com as duas bandas pioneiras do thrash metal. O Slayer nunca foi tão longe quanto o Metallica nem sequer alcançou um décimo do sucesso dos colegas, como também jamais fez tantas concessões. O negócio do grupo sempre foi o thrash puro, rápido, pesado, com riffs e solos enlouquecedores, que fizeram escola.

Mesmo os momentos mais “questionáveis” da banda, “Diabolus In Musica” de 98 e “God Hates Us All”, de 01, sempre primaram pela essência, ali, intacta. “Christ Illusion”, de 2006 marcou o retorno do monstro Dave Lombardo na bateria.

Este “World Painted Blood”, ainda fresco, assusta. Não dá pra negar: desde “Season In The Abyss” (1990) a banda não soa tão bem, tão inspirada. Tom Araya, Kerry King, Jeff Hanneman e Lombardo são quatro caras tarimbadíssimos, absolutamente donos de seus instrumentos e do que fazem. Da abertura com a soberba faixa título até o final com “Not Of This God”, a aula de thrash costumeira está muito melhor do que as últimas investidas. Coisa para manter a adoração e fidelidade doentia dos fãs eternamente. Simplesmente não dá para ignorar o que o Slayer faz.

Foram 13. Os que, pra mim, definem, resumem e funcionam como bom guia do que de melhor o metal produziu de 2000 a 2009. Pra tentar não deixar quase nada importante de fora, vamos fechar em 30.

AC/DC - Stiff Upper Lip (2000): apesar de não estar ligado “diretamente” ao metal, o AC/DC é referência pra boa parte da turma e “Stiff” está a altura dos clássicos do grupo.

Queens Of The Stone Age - Rated R (2000): com a verve “stoner” herdada do Kyuss, o QOTSA levou um som calcado no metal para o meio “independente”, arrancando elogios da crítica, construindo carreira sólida e arrebanhando seguidores.

Napalm Death - Enemy Of The Music Business (2000): no grindcore, ninguém faz melhor do que eles. Os anos 2000 marcaram a consagração definitiva do Napalm Death, com diversos álbuns ótimos de música extrema, rápida e inteligente como poucos. É também o último disco do guitarrista Jesse Pintado (apesar de creditado, ele não tocou em “Order Of The Leech”, de 2002). Jesse, que havia voltado para o Terrorizer, viria a falecer em 2006.

Ark - Burn The Sun (2001): representa o melódico europeu na lista. A banda contava com Jorn Lande no vocal, que depois iria para o Masterplan (junto com os ex-Helloween). Além de Lande, vocalista indiscutível, o Ark tinha um time de instrumentistas absurdo: John Macaluso na bateria, Randy Coven no baixo e Tore Ostby na guitarra. É infinitamente superior a tudo que o metal melódico produziu na década, basta ouvir qualquer faixa da bolachinha.

Therion - Secret Of The Runes (2001): singular como sempre, o Therion foi um dos únicos grupos que conseguiu trabalhar vocais masculinos e femininos e “elementos sinfônicos” sem cair no pastiche e ficar insuportável. Além de ser difícil apontar banda que faça um som semelhante ao deles.

Tool - Lateralus (2001): “progressivo” que também abusa da originalidade e não soa como cópia de outros grupos, mal de 95% das bandas prog da década.

System Of A Down - Toxicity (2001): do balaio das bandas colocadas no “new metal”, o System é o que, de longe, se diferencia. Foi um fenômeno especialmente com este “Toxicity” e envelheceu melhor que as outras bandas da época. Metal mainstream com qualidade.

Angra - Rebirth (2001): apesar do Angra ser a banda que hoje em dia muita gente adora odiar, o lançamento de “Rebirth” em 2001 foi ovacionado de forma quase unânime, recolocou o grupo nos eixos, gerou hits em rádios e recuperou o legado de uma das bandas mais importantes do metal brasileiro, inegavelmente.

Kreator - Violent Revolution (2001): além de absurdamente bom, representa o thrash germânico na lista. Os anos 2000 foram o renascimento da escola germânica. Kreator, Sodom, Destruction, Tankard…todos lançaram obras acima da média, que merecem a lembrança.

Iced Earth - Horror Show (2001): mesmo sendo um dos maiores malas do metal, John Schaffer toca o suficiente para alcançar o perdão. Matt Barlow é sempre inspirado e a banda consegue fazer a ponte entre o heavy tradicional e o thrash como poucas.

Lamb Of God - Ashes Of The Wake (2004): ao lado do Mastodon, é outra que se destaca no bolo do “metalcore”. Das novas, seria simplesmente injusto demais deixá-los de fora.

Motorhead - Inferno (2004): precisa justificar?

My Dying Bride - Songs Of Darkness, Words Of Light (2004): representa o doom na lista, como ícone do gênero que seguiu fazendo bons álbuns.

Rammstein - Reise, Reise (2004): é compreensível que muitos torçam o nariz para o Rammstein. Independente das “polêmicas”, taras e infantilidades do grupo, como a letra do último single “pornô”, é inegável que se destacaram na década e fizeram sucesso para além do metal. “Reise, Reise” é meu preferido.

Behemoth - Demigod (2004): de todos os “pecados” que o black metal cometeu de 2000 pra cá, o Behemoth não caiu em nenhum. Sem as frescurices e sonoridades duvidosas de muitos de seus “colegas”, dá para ouvir os poloneses sem risco de se deparar com algo constrangedor.

Nile - Annihilation Of The Wicked (2005): é o death metal estadunidense da lista. Uma escola que produziu tanta coisa boa com Obituary, Cannibal Corpse, Six Feet Under, Morbid Angel, etc. O Nile se diferencia de todas as citadas com sua inspiração oriental e som além do óbvio.

Heaven & Hell - The Devil You Know (2009): o retorno de Tony Iommi e cia num álbum matador. Os pais do estilo. “Apenas” isso.

Contribua com os que você acha que também mereciam a citação.

Stay heavy, always.

  • Share/Bookmark
Tags: Destaques, MDD, Melhores Da Década (2000-2009), metal

Matérias Relacionadas

Tags: ,

2 comments

» Comments RSS Feed
  1. Rapaz!! Muito boa a lista! Particularmente acho que das bandas mais “recentes” o Mastodon realmente vem destruindo cada vez mais, os caras são foda. E das 7 que fecharam você matou a paulada de vez com “Secret of the runes” e “Lateralus”. Isso tudo fora as clássicas que nem necessitam de comentários né…

  2. [...] Slayer - World Painted Blood [...]

Leave a comment

Currently you have JavaScript disabled. In order to post comments, please make sure JavaScript and Cookies are enabled, and reload the page. Click here for instructions on how to enable JavaScript in your browser.