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Frank Sinatra: tradicional e inovador

Ninguém arriscaria dizer que Frank , sonoramente, representa uma grande quebra de paradigmas ou qualquer ruptura considerável com o estilo da sua época (anos 30-60, em especial), ainda que, óbvio, certa ousadia pontual esteja presente aqui e ali.

No entanto, Sinatra, um ítalo-americano nascido no bairro de Hoboken, Nova Jersey, em 1915, simboliza  duas contribuições relevantes para a história da música. Além, claro, de ter sido um dos maiores artistas do século XX. O fato de ter sido um dos primeiros a investir em álbuns conceituais e também um pioneiro ao tomar controle artístico total da sua obra, fundando a própria gravadora, a Reprise Records, em 1960. Algo relativamente comum no fim dos anos 80/90, geralmente em selos independentes, Sinatra antecipou em quase 30 anos a “tendência”, ainda que tenha durado pouco (apenas 3 anos), vendida depois para a Warner Brothers.

O documentário “Sinatra – All Or Nothing At All”, disponível no Netflix, conta em 4 horas divididas em 2 partes toda a vida e obra de Sinatra, singular pelo que é e pelas décadas que atravessou. Passando pela Grande Depressão que começou com a crise de 1929, saindo de uma família pobre, a Segunda Guerra Mundial (da qual foi dispensado por ter um tímpano perfurado), sua contribuição para a luta contra o racismo e a segregação (nos palcos e no cinema, mesmo que, paradoxalmente, tenha tardiamente aderido à piadas racistas), sua vasta atuação no cinema (pela qual levou o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante em 1953 por “From Here To Eternity”, que reergueu sua carreira), sua profunda ligação com a máfia italiana (digamos que o personagem de Johnny Fontane em “O Poderoso Chefão” foi 100% inspirado em Sinatra), sua relação com diversos presidentes americanos, em especial John F. Kennedy, a relação e o casamento conturbado com Ava Gardner e Mia Farrow, o surgimento do rock e as revoluções sociais e comportamentais dos anos 60 que ele, por ser da velha guarda, relutou em aceitar e por aí afora.

Quatro horas ainda são insuficientes para dar conta da complexidade, da importância e de tantos momentos históricos decisivos que Sinatra, direta ou indiretamente, fez parte. Ainda que ótimo, o documentário falha no excesso de voice-over e em algumas lacunas importantes ou mal explicadas.

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No entanto, o marco representado por “In The Wee Small Hours”, seu nono disco de estúdio, lançado em 1955, um dos primeiros discos conceituais da história, abordando temas como solidão, relacionamentos fracassados, introspecção e vida noturna, entre outros, não pode ser desprezado. Conceitos que Sinatra desenvolveria também em álbuns como “Songs For Swingin’ Lovers”, “Only the Lonely”, “Como Fly With Me”, “Nice n’ Easy”, “Point Of No Return” e o derradeiro, “Watertown”, para citar alguns.

A ideia de “álbum conceitual” foi muito marcante no jazz e, principalmente, no rock nos anos 60 e 70. Seja nos grupos de rock progressivo (Pink Floyd, King Crimson, Yes, Genesis, etc), praticamente uma regra, seja em bandas como Beatles, The Kinks, The Who, Moody Blues, etc. Compartilhando temas em comum (típico dos álbuns de Sinatra) ou criando um mundo próprio com um enredo em particular.

O caso da Reprise Records é ainda mais emblemático. Fundada em 1960 por Frank para ter domínio completo sobre sua obra e tendo como preceito que cada artista tivesse não só plena liberdade de criação como muito mais direitos sobre a própria obra que a imensa maioria das gravadoras oferecia, a Reprise é um símbolo de tudo que seria desejado e buscado muitas décadas depois e ainda hoje. Afinal, quanto foi discutido e posto em perspectiva das práticas predatórias da indústria musical e a busca por sobrevivência de selos independentes antes, durante e atualmente, com a internet mais do que consolidada?

Inicialmente reunindo Sinatra e amigos próximos, como Dean Martin e Sammy Davis Jr. (membros da turba conhecida como “Rat Pack”, que aprontava o diabo em Las Vegas nos palcos e fora deles), a Reprise foi vendida para a Warner Brothers em 63, tornando-se a casa de grupos como The Kinks, Jimi Hendrix, Neil Young, Captain Beefheart, Frank Zappa, Beach Boys, T. Rex, John Cale e muitos outros. Peça chave, portanto, no surgimento e desenvolvimento do rock e da música em geral nos anos 60 e 70, na ativa até hoje.

Mais que o posto de figura controversa, polêmica, sinônimo de boa vida e dono de alguns dos maiores standards do século, o crooner dos crooners, a história e a contribuição de Sinatra vai muito além da primeira camada, com todas suas imperfeições, questionamentos e fissuras, típicas dos grandes gênios.

Sou jornalista e desde 2003 escrevo sobre música, cinema, literatura e outros assuntos em diversos veículos digitais e impressos. Fundei a Movin' Up em 2008. Publiquei os livros "Meu Mundo é Hoje" e "11 Rounds", de contos e "Latitude 19 & Outros Hematomas" (crônicas e poemas).

Published in Especiais