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Kamasi Washington, jazz, hip-hop e o fim definitivo dos rótulos

Por Maurício Angelo

Talvez o título dessa matéria seja apocalíptico ou mesmo otimista demais. Talvez. O paradoxo se dá na medida em que, sim, rótulos para estilos musicais são necessários, facilmente identificáveis e nunca morrerão. Ao mesmo tempo em que, cada vez mais, rótulos são limitadores e insuficientes para dar conta de um sem número de sonoridades diferentes que se encontram fundidas de maneira tão profunda em vários artistas que a sua função torna-se questionável. A música pode ou não ser encaixada numa prateleira bem identificável ou pode, também, ultrapassar (e muito) o que se entende dela.

É assim desde sempre. Termos como “avant garde”, “alternativo”, “experimental” e tantos outros, já velhos e que serviam para definir um sem número de possibilidades, deram origem a milhares de novos. Faz sentido, hoje, falar em jazz “puro”? O que seria Washington, o grande nome mais quente da temporada, que voltou a colocar o jazz nos holofotes, tirando-o da prateleira de velhos empolados tomando whisky no balcão decadente para fazer o jazz ser cool novamente?

 

Kamasi e seu disco ambiciosíssimo – não por acaso, “The Epic”, com três horas de duração – é jazz. Bem tradicional até. Mas a forma como ele chega ao mercado e a turma com quem Kamasi anda, não. Steven Ellison, o nome por trás do Flying Lotus e da gravadora “”, que lançou o disco de Kamasi, é um dos responsáveis por essa onda. No Rate Your Music, o Flying Lotus é classificado com os seguintes termos: Wonky, Nu Jazz, Glitch Hop, Jazz Fusion, IDM, Abstract Hip Hop, Instrumental Hip Hop, West Coast Hip Hop, Conscious Hip Hop, Jazz Rap, Electronic.

São muitas as tentativas de dar conta de um ambiente em constante ebulição. Um artista predominantemente de hip-hop e música eletrônica (os dois guarda-chuvas dessa história) pode ser também considerado jazz? Flying Lotus prova que sim, assim como já provaram antes J Dilla e Madlib, dois produtores que trouxeram de volta essa fusão para os anos 2000.

O (melhor) hip-hop sempre sampleou, foi influenciado, baseado e referenciado no jazz. De Gil Scott-Heron (o grande precursor de tudo isso), Run DMC e A Tribe Called Quest a Lamar há toda uma tradição. , que lançou o melhor disco do ano (falei dele aqui), é outro pivô essencial nessa história. “To Pimp a Butterfly” é extremamente jazzístico e nele estão também Kamasi Washington, Flying Lotus e Robert Glasper, para citar alguns.

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Kendrick é “o” nome da música no mundo hoje. Ninguém é mais relevante sonora ou mesmo politicamente. E o que Kendrick faz é, em última instância, música negra. É embebido de toda a história da música negra que Lamar consegue entregar o que entrega. Aqui uma digressão é necessária: a “pureza” pregada por alguns poucos fanáticos, o suposto filtro que um artista precisaria passar para ser considerado “do clube ou não”, além de burro, entrega aquela necessidade escancarada do exclusivismo. Da validação de um certo grupo de pessoas. Acontece no jazz, acontece (muito) no rock, no metal, na mpb e por aí afora. Delírios de grandeza, como se a aceitação no clube fosse sinônimo de qualidade artística. E aqui nos remetemos a pretensões elitistas arraigadas há muito que guardam forte relação com certa eugenia.

Do povo de volta para o povo

O jazz é música do povo. O hip-hop também. O processo de elitização que o primeiro passou (na cabeça tanto de incautos quanto de mal intencionados) e a fase de esvaziamento intelectual do segundo – felizmente – parecem encontrar um fim na turma que Kendrick Lamar, Kamasi Washington, Flying Lotus, Thundercat, Common, Mos Def, Run The Jewels, Cunnynlinguists e tantos outros representam.

É extremamente significativo que “The Epic” seja lançado por um selo que não é de jazz tradicional, resenhado pela mídia musical (e fora dela) não especializada em jazz e ouvido por gente que normalmente não ouve ou estava afastada do gênero. Kamasi tem muitos méritos. Sua ambição desmedida é um testamento para uma geração mimada, acostumada a ter tudo mastigado e a consumir tudo com uma voracidade interminável. Essa matéria é muito competente em mostrar como isso está acontecendo. Recomendo muito a leitura.

Um punhado de caras que cresceram tocando junto, na mesma cena, com as mesmas interseções e várias influências compartilhadas, fazendo sua própria música e, pouco a pouco, saindo de Los Angeles para o mundo num momento em que boa parte do hip-hop e especialmente do jazz estava muito longe de ser considerado interessante, cool ou merecesse atenção para longe dos velhos clichês e paradigmas.

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Não importa o rótulo, importa que você goste do que ouve. Importa que aquilo o motive a sair de casa, numa era em que o jazz torna-se sinônimo de “coisa boa”, de “selo de validação” para qualquer festa, encontro ou evento de food truck. Como toda música, há coisa muito boa e muito ruim sendo feita. Nada é garantia de nada e o maniqueísmo nunca costuma trazer uma discussão sadia. Na música ou fora dela.

 Sem a pretensão de “revolucionar” o que não precisa ser revolucionado – a indústria está sempre tentando vender a “nova grande coisa” – o que esses caras fazem é a música que querem, do jeito que querem, reflexo da sua própria história de vida. Enquadrá-los num curral específico é estúpido e desnecessário.

 Kamasi Washington é ótima notícia. O foco cada vez maior em selos de nicho e iniciativas locais, que conseguem extrapolar as suas próprias limitações, caso da Brainfeeder, também.

Sou jornalista e desde 2003 escrevo sobre música, cinema, literatura e outros assuntos em diversos veículos digitais e impressos. Fundei a Movin' Up em 2008. Publiquei os livros "Meu Mundo é Hoje" e "11 Rounds", de contos e "Latitude 19 & Outros Hematomas" (crônicas e poemas).

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Published in Destaques Especiais