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Dj Dolores: o som do cinema pernambucano

Por Paulo Floro, da Revista O Grito!

Foto: Iuri Rubim

DJ Dolores, um dos nomes mais conhecidos da música eletrônica no Brasil, também é nome recorrente no cinema nacional. Seus achados estão presentes em filmes da safra recente do cinema nacional, como O Som Ao Redor, de Kléber Mendonça Filho,Tatuagem, de Hilton Lacerda e Amor, Plástico e Barulho, de Renata Pinheiro. Agora, ele reúne toda essa sua produção para as telonas em um disco de vinil, Banda Sonora, que sai pelo selo Assustado Discos este mês.

Dolores começou sua carreira ainda na fase pré-mangue beat, quando as bandas Nação Zumbi e Mundo Livre S/A não tinham sido formadas. Naquele período existia uma cena forte de DJs que acabou impulsionando e servindo de instigação para a explosão que viveria a cidade logo depois. Com os projetos Aparelhagem e Santa Massa, Helder Aragão (alter-ego de Dolores) se destacou como produtor e despontou também no exterior.

Seu trabalho em trilhas para filmes é bem mais antigo do que pode parecer e se confunde com seus primeiros passos como artista de música eletrônica. Ele compôs para “Enjaulado”, primeiro curta de Kléber Mendonça Filho. Mais tarde, a faixa “Setúbal”, com uma atmosfera sombria e tensa, seria um dos destaques de O Som Ao Redor. Hoje, Dolores é nome importante dentro do contexto de prestígio do cinema pernambucano. Com Tatuagem, ele venceu o Kikito de melhor trilha sonora no Festival de Gramado deste ano. “Esses filmes são muito ‘redondos’, claros em suas intenções estéticas”, diz Helder.

A entrada é gratuita. Leia entrevista que fizemos com ele.

Como foi selecionar as músicas para o Banda Sonora? Você teve algum parâmetro ou foi algo baseado na memória afetiva em relação aos filmes?
Esse é um disco de canções que foram inspiradas por imagens das mais diferentes procedências, de documentários a filmes de natureza fantástica. Escolhi um ou outro tema movido por razões igualmente diversas: uma lembrança pessoal relacionada, um achado musical, uma letra engraçada ou até porque havia uma boa história a ser contada por de trás da música. Enfim, são pedaços soltos da minha memória no trabalho com cinema. Nunca havia pensado sobre o assunto até que Rafael Cortes me propôs inscrever essa compilação no edital da Natura [N.E: Natura Musical, que apoia a gravação de discos e circulação de turnês].

Você participou da trilha de filmes recentes e bastante elogiados como O Som ao RedorEstradeirosAmor Plástico e BarulhoTatuagem e Rio Doce-CDU. Acha que as trilhas também são responsáveis pro esse destaque que o cinema pernambucano vem recebendo nos últimos anos?
Espero que a musica tenha contribuído para que esses filmes se destacassem. Esses filmes são muito “redondos”, claros em suas intenções estéticas. Talvez exista algo em comum entre eles: trata-se de diretores com idades muito próximas (seriam da mesma geração?) e produzindo a partir do mesmo lugar, o Recife, que também é inspiração e local onde se passam as narrativas. Como estou nas mesmas condições deles, com referências parecidas, talvez tenha uma forte e espontânea conexão com suas intenções.

Depois de ver Tatuagem percebemos como ele é um filme muito sonoro. A trilha ajudou a contar a história dos personagens. O que te inspirou e motivou para criar a trilha para esse longa?

Hilton [Lacerda], o diretor, é um ser humano generoso e estimulante e um grande amigo. Deu-me muita liberdade de criação, além do que, todo o ambiente do filme é muito inspirador e cheio de entusiasmo. A gente tinha conversado sobre o Tatuagemdesde anos antes dele existir, portanto eu estava familiarizado sobre o que ele queria mesmo antes de começarem as filmagens.

“Setúbal” é um dos destaques da trilha de O Som ao Redor, mas ela também esteve em “Enjaulado”, primeiro curta de Kleber Mendonça Filho. Como é sua relação com ele e o que achou de O Som Ao Redor, que agora tem chances de vencer o Oscar?
Kleber é um sujeito muito especial. Ele é um dos poucos que domina cada detalhe do processo. Diferentemente de outros diretores, eu mando uns temas para ele e ele usa como bem quer. Não me meto na montagem, onde ele vai encaixar, etc. É o método de trabalho dele e funciona muito bem. Sobre o Oscar: a única coisa que me faz torcer pelo filme é o tanto de visibilidade que um prêmio desses traz. Com ou sem Oscar, O Som Ao Redor vai continuar sendo um filme poderoso que não precisa do aval da indústria.

E em Amor, Plástico e Barulho temos a presença do brega, que é um gênero que faz parte da estética da periferia que você sempre curtiu, certo? Como foi compor a trilha para o filme?
Foi a segunda experiência com Renata Pinheiro. Ela me deixou livre e compus, ao lado de Yuri Queiroga, meu parceiro nesse projeto, alguns temas diretamente conectados ao brega pernambucano. Não foi nossa intenção mimetizar o gênero, portanto nos demos uma enorme liberdade de fazer musicas que fossem mais “dentro do espírito”. Há momento de experimentalismo explícito, há ecos de musica concreta, dubs e o tema de abertura é um reggaeton bem esquisito.

Leia a entrevista completa.

Sou jornalista e desde 2003 escrevo sobre música, cinema, literatura e outros assuntos em diversos veículos digitais e impressos. Fundei a Movin' Up em 2008. Publiquei os livros "11 Rounds" (contos) e "Latitude 19 & Outros Hematomas" (crônicas e poemas).

Published in Entrevistas