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BaianaSystem: “temos um vício em buscar caminhos diferentes”

Por Paulo Floro, da Revista O Grito!

O é uma dessas bandas que surgem com relativa raridade, em que as inquietações de uma determinada época servem de combustível para uma música ao mesmo tempo inovadora e contestadora. Esse é o Baiana, revolução pura, amigos.

No mais recente disco, Duas Cidades, temos um debate bem racional sobre exclusão social, o lado nada bonito do capital acabando com a gente, a nossa relação afetiva com as cidades. E fizeram tudo isso misturando ritmos como rap, dub, rock e reggae, sempre orquestrado a partir de um domínio da cultura do soundsystem.

Mas o maior feito do grupo hoje no cenário pop brasileiro são seus shows. Russo Passapusso, o vocalista, tem um carisma que provoca a plateia de uma maneira que não vi igual até hoje. Seja em um palco em movimento, caso do circuito de trios elétricos no Carnaval baiano, até eventos como Lollapalooza e No Ar Coquetel Molotov, a apresentação do BaianaSystem traz um tipo de conexão que só uma banda com uma consciência de seu papel e do alcance de sua música consegue conceber.

O Baiana tem ainda uma preocupação estética bem grande, com uma identidade visual que vai do disco para o palco, o que torna essa conexão mais forte. As máscaras do DuasCidades, criadas por Felipe Cartaxo, já viraram ícones.

baianasystem

Em um contexto político conturbado no Brasil atual, o BaianaSystem é um dos grupos que se posicionam, trazendo bastante transparência para seus fãs em relação ao que acreditam. Mas a política, para eles, se faz também no cotidiano. “Acredito num processo de formação de opinião que vem do micro, da experiência de vida das pessoas. É assim que nosso publico tem nos ensinado nos shows”, disse Russo.

A banda tornou-se um viral no último Carnaval com uma gravação que mostrava uma massa incrível de pessoas gritando “Fora Temer” no circuito de trios de Salvador. O caso causou tanta repercussão que o órgão responsável pela programação da cidade ameaçou vetar o grupo no ano seguinte, o que já foi desmentido. “Foi natural [o Fora Temer] nada de novo, sempre acontece! O mais importante pra mim é que as palavras venham cheias de sentido, tolerância e conhecimento, uma luta difícil e diária pra não se perder em slogans”, diz.

Batemos um papo com a banda sobre o novo disco, os shows, o momento político atual e o que podemos esperar de novidades.

ROBERTO BARRETO (idealizador do BaianaSystem e guitarra baiana)

Como a banda trabalha essa mistura de ritmos, como o rap, dub, rock, música caribenha e reggae. Como tornar uníssona todas essas sonoridades?
Na verdade isso está na essência do BaianaSystem. Se você ouvir o primeiro disco (Baianasystem, 2010) já vai ver elementos de reggae, frevo, música árabe, guitarrada… Isso vem da necessidade de experimentar e criar o tempo todo, usar o conceito de soundsystem como um ponto de partida para usarmos todas as influências de cada um que faz parte diretamente, ou que eventualmente colabore com o BaianaSystem, como produtores, músicos, compositores. Isso sempre é trabalhado de maneira natural, com a música e a energia que conseguimos gerar pra uma ideia, um tema, e isso vai se moldando com a experimentação. Não sei se conseguimos deixar sempre uníssono, rs, mas acredito que isso faz parte dessa experimentação.

A cultura baiana é muito presente na música da banda, ao mesmo tempo em que vocês celebram uma postura global, de experimentar com outras tendências. Como a música baiana aparece no trabalho de vocês?
Acho que a música baiana (e aí acho que vale uma expansão da ideia que se tem de música baiana, levando em conta não só a música de Salvador) aparece em muitos aspectos. Seja na influência da percussão, por exemplo, da comunicação direta com o público e sua influência nesse som, das referências do samba e da música do recôncavo, de entender as festas populares como parte de um movimento sócio cultural que mexe diretamente nessa música, nas cores, na leitura que se faz aqui do reggae e da música da América Central. Enfim, acho que nós somos parte da música que se produziu e se produz na Bahia, e tentamos passar isso de forma natural junto com todas as influências que recebemos o tempo todo da música produzida no mundo.

Na minha opinião temos que tomar muito cuidado com o radicalismo. São momentos instáveis, não acho certo julgar um artista por não ter uma música ou discurso social.

Como surgiram as ideias para este novo disco? Como foi o processo de gravação?
Esse disco aconteceu de uma maneira inversa do que normalmente acontece. Não gravamos um disco e saímos pra tocar ele ao vivo. Vínhamos experimentando há 4 anos o material do primeiro disco, que ao vivo foi se transformando em outras faixas, novos temas/singles que surgiam iam sendo incorporados e sempre deixando em primeiro plano a experimentação e o resultado disso direto com o público. Depois quando nos encontramos com Ganjaman, que foi o produtor do disco, ele traduziu o que vínhamos fazendo ao vivo e fez os recortes necessários para isso ter a forma de um disco. Algumas coisas surgiram durante, como por exemplo o instrumental “Cigano” e “Calamatraca”, que russo tinha a letra e usava em outras bases, mas durante o disco tomou uma forma diferente. Gravamos todas as guitarras, baixos e voz junto com Ganja que construiu as bases e fez todas as programações durante esse processo. Foi uma imersão de um mês que desenhou todo o disco. Depois gravamos em Salvador as percussões, sopros, participações, piano etc. Foi um processo muito prazeroso.

O título do álbum “Duas Cidades” traz uma dualidade bem provocativa que fica mais evidente quando ouvimos o disco. Como chegaram a esse nome e qual a ideia por trás dele?
Fomos chegando no nome também durante esse processo. “Duas Cidades” é uma música de Russo, que ao vivo já era cantada em outra base, mas tinha uma força absurda, e no disco ela teve quase um sentido de oração. Sentimos a força dela e do que ela tratava, questionava “em que cidade você se encaixa” e isso também era algo que estava muito forte em todos os lugares, em todas as cidades, em toda parte do mundo. A questão entre incluídos e excluídos, as dualidades que estamos sempre submetidos, yin yang, forte/fraco, luz e sombras, as divisões, os muros. Começamos a perceber que isso permeava muitas coisas, e trazia um questionamento, muito mais que respostas, para um momento em que nos encontrávamos no mundo.

FILIPE CARTAXO (artes visuais: VJ, designer)

A concepção visual é parte muito importante no BaianaSystem, e isso é incrível. Como chegaram ao resultado final desse trabalho mais recente?
A nossa concepção é modular, mutante. Os símbolos que colocamos, vemos como grandes temas. Não acreditamos no novo, e sim na ressignificação. O invisível é um Ser que apareceu após Duas Cidades. Com certeza, o próximo trabalho será derivado do invisível que mora nas duas cidades. rs. Buscamos o elo de ligação, as pontes entre as criações e inspirações, o fio da meada.

O clipe novo do Kendrick Lamar, “HUMBLE.” traz uma concepção visual – um homem com cordas na cabeça – muito parecida com o que vocês mostraram no clipe e na capa de “Invisível”, que foi lançado antes. O que acharam disso, viram o clipe?
Achamos muito bacana. Acreditamos que as coisas estão no ar. Não criamos nada. Somos cria. Bacana que estamos falando de símbolos universais. E cada local interpreta de uma forma. O clipe dele é muito bom!, ele é fora de série. E seus clipes não passam em branco nunca!

Russo Passapusso, vocalista

O Brasil passa por um dos momentos mais instáveis, democraticamente falando. O Baiana sempre foi uma banda que se posicionou. Para vocês qual a importância dessa resistência por parte dos artistas?
Eu acredito na arte que valoriza e fortalece a cultura, pra mim isso é de importância vital. Não vejo sentido em cobrar radicalmente de quem não se sente bem em se manifestar verdadeiramente. É bom respeitar o amadurecimento que o diálogo oferece. Na minha opinião temos que tomar muito cuidado com o radicalismo. São momentos instáveis, não acho certo julgar um artista por não ter uma música ou discurso social. A arte tem seus caminhos, e muitas vezes expressões, que não estavam diretamente ligadas a temas políticos de resistência e que montam um ambiente perfeito pro nascimento de um comportamento político de quem absorve. Já cantei músicas que não tinha relação política, mas em certas ocasiões foram mais fortes do que gritos de resistência. Também temos que levar em consideração artes que não são compreendidas em seu tempo, por isso evito julgar gratuitamente. Acredito num processo de formação de opinião que vem do micro, da experiência de vida das pessoas. É assim que nosso público tem nos ensinado nos shows.

O Soundsystem é um elemento muito importante na música de vocês. Vocês chegaram a criar o trio elétrico Navio Pirata no Carnaval de Salvador. Como foi a repercussão e a experiência de tocar?
Além de toda a estética sonora e visual SoundSystem pra mim é liberdade. Permissão para reconstruir junto com o público, sem medo de errar. O Navio Pirata tem nos protegido, ele nos afastou dos formatos estereotipados, da poluição sonora, da distância e separação do público. E pra mim o carnaval é o grande laboratório, é onde o sentimentos de todos os piratas se misturam nas ondas sonoras para serem filtrados. Fico feliz quando lembro que conseguimos nos proteger nas ruas com o uso da educação musical.

Como foi tocar em Salvador e ver o público respondendo em uníssono ao “Fora, Temer” e “machistas não passarão”, puxado por vocês?
Foi natural, nada de novo, sempre acontece!! O mais importante pra mim é que as palavras venham cheias de sentido, tolerância e conhecimento, uma luta difícil e diária pra não se perder em slogans.

Houve uma conversa de que a banda poderia ser vetada no próximo Carnaval por conta do “fora Temer”. O que acharam dessa atitude? Houve alguma conversa pós-Carnaval por parte da Comcar ou outro órgão responsável?
Ouvi falar e não dei muita importância, quando parei pra entender a atitude de censura, o navio já estava nas ruas em alto em bom som. Nosso carnaval foi um transe, muita coisa acontecendo muito rápido. Só me lembro que continuamos trabalhando pra que nossas atitudes fossem dignas e pra que nossa musica transparecesse o valor que damos a ela.

Já estão trabalhando no novo álbum, o que podem nos adiantar?
O Baiana System esta em constante mutação, o show do disco Duas Cidades esta abrindo muitos caminhos novos, e dessa vez com referências inesperadas, temos um vício em buscar caminhos diferentes. A musica “Invisível” já é uma boa demonstração desses caminhos, queremos ir mais longe dessa vez.

 

Paulo Floro é jornalista e editor da Revista O Grito!, site de cultura pop sediado em Recife (PE).

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