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Michael, a eterna sombra

Minha geração não viveu o auge de Jackson. Quem cresceu no final dos anos 80/início dos 90 mal deve conseguir lembrar do (ainda) sucesso de “Dangerous”. Felizmente, não é preciso ter vivido o ápice dos anos 80 para entender e respeitar o legado de . Este é um presente que ele mesmo ajudou a solidificar: a importância da imagem, da mídia, do show. “A partir de agora é assim que as coisas funcionam”. Criou um universo só para ele. E o público comprou. Estava feito o estrago.

Presente maldito, sim. A mídia, claro, se manifesta ao sabor dos acontecimentos. Dos interesses. E se Michael passou do maior ídolo de uma geração ao mais falado freak show da Terra em poucos anos, culpa do que ele sedimentou.

Na morte, o revisionismo é quase sempre positivo. Os vexames e deslizes desaparecem. Os álbuns ruins. Perdoa-se quase tudo. O morto, agora, goza de ovação e prestígio praticamente esquecidos há muito antes da tragédia. Rever Jackson não é consequencia da morte. É obrigação. O ruim dele (“Invincible”, de 2001) ainda é melhor que o máximo que muita gente consegue produzir.

O “bizarro”, o “incomum”, os distúrbios. São coisa menores. Se ele mudou totalmente de cor por doença, por não se achar belo – decorrência de problemas psicológicos que ninguém, absolutamente ninguém pode saber ao certo – pouco importa. Michael nunca deixou de ser negro. Sua música é, e sempre foi, deliciosamente negra.

Os números assustam. E não batem. “Thriller” vendeu 65 ou 120 milhões de cópias? A soma de toda a discografia chega aos 750 milhões de álbuns vendidos? Sua fortuna bateu nos 8 bilhões de dólares? Qual era, de fato, a real situação financeira de Jackson? Sua dívida estava nos 500 milhões de dólares como afirmou o Wall Street Journal?

Fato é que ninguém jamais baterá seus recordes de venda. Com a indústria fonográfica agonizando, a partida de Jackson pode ser vista como um sinistro apagar de luzes.

Agora, quando escrevo (21 horas de 26 de junho de 2009), seu nome já atinge 78 milhões de resultados no Google. Metade disto desde que o anúncio da sua morte chegou ao mundo. Só um pequeno exemplo.

Da minha parte, nunca vi comoção maior. Canais de notícias, do Brasil e exterior, se dedicaram 24 horas à morte de Michael. Jornais e revistas de todo o mundo estamparam na manhã de hoje o rosto de Jackson na capa. Em alguns casos, com toda a capa se resumindo à ele. Especiais explodiram em sites mundo afora. Redes sociais congestionadas. Líderes de estado se pronunciaram. Aglomerações de fãs. E na rua, com quem quer que se encontrasse, onde quer que fosse, só tinha um assunto: Michael Jackson morreu.

O assombro coletivo. A estupefação compartilhada. Inesperado. Cedo demais. Fazia tempo que um ídolo pop não morria com tão pouca idade. Nenhum do tamanho de Jackson. E, na música, talvez nenhum seja capaz de causar tanta resposta. Paul McCartney incluído.

Sua aparição no Brasil, reproduzida incansavelmente, parece fresca. Como se tivesse acontecido mês passado. Pensando hoje, que artista, no mundo, teria (sim) os colhões para parar uma favela do Rio de Janeiro e gravar um clip de proporções hollywoodianas dentro dela? Com a autorização dos traficantes? A equipe, liderada por Spike Lee, teve que pagar uma quantia à “chefia” do morro. Jeitinho brasileiro. Mesmo assim, é impensável que qualquer ícone do pop seja capaz disso. Bono Vox? Coitado do irlandês.

Esta mentalidade competitiva, industrial e limitada é parte comum de todos nós. Saber quem vendeu mais, quem é “o melhor”, “o mais isso”, “mais aquilo”. Padrões de comparação baseados em números difíceis de escapar.

Jackson não foi só o maior combustível de prensas da história da indústria fonográfica. “Off The Wall”, “Thriller”, “Bad” e “Dangerous”, uns mais, outros menos, são 4 peças mais do que suficientes para torná-lo imortal. E explicam a influência que ele causou. “You Rock My World”, por exemplo, é infinitamente superior a tudo que o hip-hop, o R&B e a música negra pop tenta ser nos Estados Unidos há alguns anos. Como música e como clip, destrói o que toda leva de chupinhadores tentam emular, sem sucesso (apenas comercial). O som, a dança, o estilo, a voz, o arranjo, a estrutura. Tudo.

Qualquer programa de clips de canais musicais que mostrem os “hits” de agora (e de muitos anos anteriores) são exemplos fartos do quanto Jackson é incansavelmente imitado. E por gente sem 1/10 do seu talento.

Por quanto tempo viveremos sob sua sombra? Ao que parece, para sempre.

Como exemplo, e se confirmado realmente os valores (da fortuna e depois da dívida), Michael também deixa uma e-pop-éia clássica. O trocadilho infame inevitável. O pleonasmo trágico. Os superlativos. Todos eles. A grande história repleta de reviravoltas, dor, glórias, mistérios, abusos, superação, drama familiar, loucura (?), genialidade, extremos. Nada ao acaso. Partes de todo mundo.

Se você pensar bem, há poucas coisas tão populares como Michael Jackson.

Sou jornalista e desde 2003 escrevo sobre música, cinema, literatura e outros assuntos em diversos veículos digitais e impressos. Fundei a Movin' Up em 2008. Publiquei os livros "11 Rounds" (contos) e "Latitude 19 & Outros Hematomas" (crônicas e poemas).

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Published in Clássicos