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Sérgio Sampaio – Eu Quero é Botar Meu Bloco na Rua

Um dos eternos “malditos” da MPB, o capixaba Sérgio Sampaio é nome pouquíssimo conhecido e, nos últimos anos, diga-se, começou a ser resgatado pela turma indie-hipster-circuito-baixo-augusta-novos-paulistas-etc-e-tal. Daí aquela impressão de que “todo mundo que você conhece” sabe da existência do cara. O problema é que esse “todo mundo”, normalmente, costuma ser restrito a aquela dúzia de pessoas que frequentam o mesmo círculo. De vendagem pífia na época (aproximadamente 5 mil cópias), “Eu Quero é Botar Meu Bloco na Rua” é a obra-prima de Sampaio, que teve a produção de Raul Seixas – com quem foi um dos idealizadores da ~ópera rock~ “Krig-Ha, Bandolo!” – e contou com nada menos que o Azymuth no instrumental do disco.

Além da faixa título, música mais famosa de Sérgio, há vários destaques: “Leros e Leros e Boleros”, que abre o disco, é o literal cartão de visitas de Sampaio, em clima de vaudeville. “Filme de Terror” começa com um típico andamento progressivo da época, de excelente qualidade, diga-se, num momento em que o progressivo brasileiro ainda engatinhava, a despeito do estilo viver o auge fora daqui.

Com pleno domínio de tempo, das pausas e harmonias, Sampaio faz ótimo trabalho em caprichar no seu talento para explorar territórios distintos com o exímio instrumental do Azymuth, já citado, uma das maiores referências do país na área. O samba “Cala a Boca Zebedeu”, outro clássico desse disco, é um deleite, consagrando a composição do seu pai, Raul Gonçalves Sampaio.

“Por trás dos edifícios da cidade moderna, os labirintos negros prendem os que lhe esperam, a condução, ou não, a confusão, eu não, eu não, algo estranho esconde a sombra sob os nossos pés descalços” canta Sampaio em “Labirintos Negros”, mescla de composição para filme, numa pegada “Meteorango Kid” e um samba incomum. “Eu Sou Aquele Que Disse” mostra a influência óbvia da parceria com Raul Seixas, homenageado diretamente na última faixa.

O disco alterna sempre entre climas melancólicos, soturnos e progressivos, em andamentos mais arrastados e suaves – “Eu Viajei de Trem” e o arranjo espetacular de “Dona Maria de Lourdes”, por exemplo – e a vontade de Sérgio em “celebrar a vida”, nos seus sambas tortos (a irresistível “Odete”), que na verdade vão fundo na MPB que Sérgio admirava. “Não Tenha Medo, Não!” é outro momento altíssimo da obra. A letra é igualmente brilhante: “As pessoas são uns lindos problemas, eu posso até acreditar, eu acho tudo isso uma grande piada ou então eu posso não achar, não me espera pra beber seu veneno, e nem pra ver você chorar, demoro o tempo que for necessário, eu moro longe, posso nem chegar”. 

Pequeno exemplo de sua fama em ser “anti”, Sérgio deixa a faixa-título, seu maior sucesso, não só para o lado B como a coloca na penúltima faixa do trabalho.

Em época de “resgate” do carnaval de rua de muitas cidades – Belo Horizonte e , para citar só duas – “Eu Quero É Botar Meu Bloco Na Rua” soa como o casamento perfeito não só de um disco que integra o panteão da história da música brasileira como a possibilidade de um artista considerado “de vanguarda” reatar sua conexão natural com o povo. SS também lançaria outros três discos excelentes: “Tem Que Acontecer” em 1976 e “Sinceramente” em 1983, além do póstumo “Cruel”, de 2006.

Sérgio Sampaio, que nunca experimentou grande sucesso em vida e sem dúvida é um dos melhores letristas de todos os tempos (repare bem em cada letra desse disco, cada frase, cada métrica), merece ser ouvido e reverenciado sempre.

Sérgio Sampaio

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Sou jornalista e desde 2003 escrevo sobre música, cinema, literatura e outros assuntos em diversos veículos digitais e impressos. Fundei a Movin' Up em 2008. Publiquei os livros "Meu Mundo é Hoje" e "11 Rounds", de contos e "Latitude 19 & Outros Hematomas" (crônicas e poemas).

Published in Clássicos Destaques