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Descobertas: Ryo Fukui, “Scenery”, Japão, 1976

O tornou-se um dos maiores mercados para o não é de hoje. É bastante comum que discos recebam edições especiais lançadas especificamente para o público japonês, com faixas bônus e outros mimos. Com a presença massiva nas vitrolas do cidadão, em um processo lento pós-segunda guerra mundial e que explodiu nos anos 70, o produzido no país tem seu lastro, especialmente no experimentalismo contemporâneo, geralmente mesclado a outros estilos e na influência que exerce nas trilhas sonoras, nos animes, nos games, no cinema.

“Scenery” é o primeiro – de dois – álbuns lançados por Ryo Fukui nos anos 70, relativamente obscuros, trazendo sua interpretação de vários standards. Logo em “It Could Happen To You” (Crosby/Sinatra) fica evidente a qualidade do post-bop/modal jazz, fiel à linhagem, mas também acima da média.  Mas é em “I Want To Talk About You” (Coltrane) e principalmente os 10 minutos de “Early Summer” (do material da Blue Note do início dos 60’s), que fecham o lado A, que Fukui se destaca. Alternando tempos distintos entre construções velocíssimas, quebras e passagens atmosféricas, equilibra muito bem o virtuosismo com melodias belíssimas e harmonias que não parecem saídas no automático mas, pelo contrário, crescem a cada audição, jamais soando forçadas ou apressadas.

Há, claro, muito de Bill Evans aqui. E Herbie Hancock, Eric Dolphy, Miles Davis e companhia.  Difícil não se render ao clima noturno e irresistível de “Willow Weep For Me”, a introdução absurda de “Autumn Leaves” e a faixa título, que encerram a segunda metade sem deixar cair o nível em nenhum momento.

Ryo Fukui ainda lançaria um segundo disco, “Mellow Dream”, em 77, antes de cair em décadas de real obscurantismo e depois permanecer tocando em seu próprio clube, “Slowboat”, localizado em Sapporo. Ryo faleceu em março deste ano e tem sido redescoberto por novos ouvintes, seja pelo refinamento do algoritmo do YouTube, muito mais efetivo e confiável do que era anos atrás, seja pelos serviços de streaming. Nada mais justo.

Ps: existe um anime japonês chamado “Kids On The Slope” (Sakamichi no Apollon no original), do qual assisti alguns bons episódios, focados justamente na amizade entre dois estudantes e músicos de jazz, tendo o estilo como plano central da trama, usando como base obras de Art Blakey, Bill Evans, Horace Silver, Charlie Parker e outros como referência. Nos games e nos animes, as trilhas sonoras japonesas são fortemente influenciadas pelo jazz. Talvez o exemplo mais bem acabado seja a fantástica trilha de Cowboy Bebop, de Yoko Kanno, que vale um post em particular.

Sou jornalista e desde 2003 escrevo sobre música, cinema, literatura e outros assuntos em diversos veículos digitais e impressos. Fundei a Movin' Up em 2008. Publiquei os livros "11 Rounds" (contos) e "Latitude 19 & Outros Hematomas" (crônicas e poemas).

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Published in Descobertas