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Nebraska: a cultura automotiva e a América senil

“Todas as famílias felizes são iguais. As infelizes o são cada uma à sua maneira” (Tolstoi, Anna Karenina)

Por mais que Nebraska seja americano até o tutano – e isso define a própria essência da película em todos os níveis – há, aqui, bons sinais do que estamos nos tornando, de maneira geral. Uma sociedade senil, com a economia fragilizada, as relações sociais e familiares em frangalhos, perdidos na busca de uma ilusão de sucesso e felicidade proporcionadas pelo dinheiro.

Uma sociedade que, como mostra o filme de Alexander Payne, celebra a cultura automotiva de maneira profunda e irrestrita, fazendo com que os carros e tudo que os cerca definam o que somos, como vivemos e quem somos. Bruce Dern, um dos muitos atores “marginais” de Hollywood, que nunca encontrou sucesso algum, tem o grande papel da sua vida aos 77 anos. Will Forte, por sua vez, eternamente confinado a produções infantis ou para adolescentes, consegue ser uma boa sombra para Dern. Bob Odenkirk também está ótimo como coadjuvante, embora seja definitivamente difícil dissociá-lo da imagem de Saul Goodman de Breaking Bad.

Payne, que surgiu especialmente com o agradável “Sideways”, talvez uma das melhores “comédias românticas” dos últimos anos, nasceu em Omaha, Nebraska. É natural, portanto, que o roteiro do estreante Bob Nelson traga muito das próprias experiências pessoais e da visão de Payne sobre a região em que nasceu.

June Squibb, na pele de Kate Grant, faz o papel de “persona non grata”, sempre com comentários ácidos, maldosos e sobretudo inconvenientes. A cena no cemitério é sintomática: lápide a lápide, Kate lembra o quanto a prima de Woody era uma piranha, o quanto o outro a assediava na época, mas Woody não fazia nada e, por fim, levantando a saia na frente da última lápide, afirmando que fulano a queria e podia ter tido.

Em Nebraska, não há o que fazer, exceto falar sobre carros, resmungar rancores antigos e encher a cara. Os primos de David, retrato da decadência da juventude local, se limitam a perguntar quanto tempo David gastou para chegar até a cidade –e ridicularizá-lo por ser “lento”. Invadidos pelo tédio absoluto, só conseguem perguntar que tipo de carro ele dirige, se tem mais um, especificações do motor. Que David desconhece. “Assustados” com o fato dos parentes dirigirem “carros japoneses”, algo que vai contra toda a cultura americana – lembram de Gran Torino, de Clint Eastwood?.

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Uma cena, em especial, resume a depressão da economia e a falência mental generalizada: sentados em frente a TV, paralisados, sem sequer olhar um para os outros, os irmãos conversam sobre os carros que cada um tinha:

– Ei, você tinha um Chevy, não era?

– Não, nunca tive um. Eu tinha um Buick.

– Então é isso. Que, ano 78?

– 79.

– Não se fazem mais carros como aquele. Esses carros irão funcionar para sempre. O que aconteceu com ele?

– Parou de funcionar.

-Bem, isso acontece.

Apocalipse à parte, o sonho americano vem sofrendo duros golpes nos últimos anos. Detroit está falida. A General Motors, um dos maiores símbolos dessa história toda, precisou de um empréstimo de 12 bilhões do governo para não falir totalmente. Claro, com uma tonelada de dívidas da crise de 2008 até hoje – o governo americano esteve à beira de um calote, a Europa está igualmente falida – a economia “se recupera”.

Como lembra Marshall Berman, o pós-modernista americano por excelência, em “Tudo Que É Sólido Desmancha no Ar”:

Nossas vidas são controladas por uma classe dominante de interesses bem definidos não só na mudança, mas na crise e no caos. “Ininterrupta perturbação, interminável incerteza e agitação”, em vez de subverter esta sociedade, resultam de fato no seu fortalecimento. Catástrofes são transformadas em lucrativas oportunidades para o redesenvolvimento e a renovação; a desintegração trabalha como força mobilizadora e, portanto, integradora. O único espectro que realmente amedronta a moderna classe dominante e que realmente põe em perigo o mundo criado por ela à sua imagem é aquilo por que as elites tradicionais (e, por extensão, as massas tradicionais) suspiravam: uma estabilidade sólida e prolongada. Neste mundo, estabilidade significa tão somente entropia, morte lenta, uma vez que nosso sentido de progresso e crescimento é o único meio que dispomos, para saber, com certeza, que estamos vivos. Dizer que nossa sociedade está caindo aos pedaços é apenas dizer que ela está viva e em forma.

O sonho de Woody, uma nova pick-up e um compressor, não poderia ser mais americano e mais senil. Já que, lembrem-se, além de tudo, não teria nenhuma utilidade pra ele. E os SUV’s são uma das maiores marcas do atraso, com a indústria sendo obrigada a repensar todos os seus padrões.

Lá, como cá, estamos senis, cegos e enclausurados em nossos carros e nossa mediocridade. Nós somos Woody e seu patético lampejo de vitória pessoal ao passar na frente dos velhos conhecidos com sua nova pick-up. Por baixo do seu verniz de “feel good story of the year”, pelo menos no final, Nebraska não poderia ser mais cruel ao retratar isso.

Sou jornalista e desde 2003 escrevo sobre música, cinema, literatura e outros assuntos em diversos veículos digitais e impressos. Fundei a Movin' Up em 2008. Publiquei os livros "Meu Mundo é Hoje" e "11 Rounds", de contos e "Latitude 19 & Outros Hematomas" (crônicas e poemas).

Published in Cinema Destaques