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Ron Burgundy e o ridículo do jornalismo

É difícil superar os primeiros 30 minutos de “Anchorman 2: the legend continues” – traduzido bisonhamente no Brasil como “Tudo Por Um Furo”. Aquele humor totalmente non-sense que ultrapassa os limites do ridículo, do patético e do idiotia, com situações desconfortáveis e roteiro pouquíssimo inspirado, algo que se tornou o tom do sucesso de gente como Judd Apatow, Steve Carrell, Will Ferrell e tantos outros, todos envolvidos aqui.

Apesar do filme estar mergulhado nisso do início ao fim, carregando bem mais que o original, considerado já “””””””cult”””””””, Anchorman 2 tem seus momentos. Diz muito, mas muito mesmo, do jornalismo atual. O que por si só já é tragédia suficiente. Demitido da TV local onde trabalhava e separado da esposa, promovida a apresentadora principal da rede, Ron Burgundy ganha nova chance na carreira e reúne os amigos da equipe original para uma proposta “surreal” na época (anos 70): uma nova TV com notícias 24 horas.

Relegado ao horário da madrugada, Ron entra numa aposta com o novo-playboy-galã âncora da TV, que tem o horário nobre. Pra superar o desafio, Ron resolve oferecer aos espectadores não o que eles supostamente precisam saber, mas o que eles já sabem, “o que a América tem de bom”. E aí, claro, é que o sucesso acontece.

“Vamos colocar informações na tela!”, “mais legendas, mais gráficos, mais texto”…..e o jornal de Burgundy vira exatamente o que pra nós é tão comum hoje em dia. A fórmula da equipe é simples: matérias curiosas, celebridades, animais, colocar repórter no meio de furacões, temporais e desastres em geral, esportes da maneira mais imbecil possível e algumas “feel-good-america-stories”. Familiar, não?

httpv://www.youtube.com/watch?v=6VdGI5-z_hg

Num dia em que falta pauta, Ron tem uma ideia brilhante: transmitir ao vivo uma perseguição de carros, deliberando sobre o que está acontecendo sem fazer a menor ideia real. A audiência bate recorde. A reação do público, em alguns pontos da cidade, é instantânea: no bar, com todos vidrados, alguém comenta: “quando é que o noticiário ficou tão excitante?”.

Resumidamente, isso é tudo que o jornalismo se tornou. Basta ligar a TV, em canais nacionais ou estrangeiros. Ler qualquer revista semanal. Basta acessar a home de qualquer portal agora. O que se vê é uma saraivada de publicações ridículas, apelativas, rasas, apostando no “”””curioso”””, no bizarro – uma tendência insuportável, inominável – celebridades, “dicas”, “rankings”, “como isso”, “como aquilo”, “10 passos para”, “o que você precisa saber sobre”, amenidades e babaquices em geral. Se você espremer, sobra uns 7% de jornalismo.

Em última instância, “Anchorman 2” é preciso em expor, da maneira mais escrachada e idiota possível, o estado da mídia atual. A “grande cena” do filme é uma versão expandida da embate entre as equipes locais do primeiro. Agora, em nível nacional, surgem equipes representantes de cada segmento – MTV, ESPN, History Channel, Discovery, animais, celebridades, etc, etc – com participações especiais de Jim Carrey, Kanye West, Will Smith, Sasha Baron Cohen, Marion Cotillard, Kirsten Dunst e outros. “É, o mercado está saturado”, comenta Burgundy.

Como comédia non-sense, “Anchorman 2” é um filme ruim com um bom cast e alguns momentos relevantes. Como retrato do jornalismo atual, é certeiro.

Sou jornalista e desde 2003 escrevo sobre música, cinema, literatura e outros assuntos em diversos veículos digitais e impressos. Fundei a Movin' Up em 2008. Publiquei os livros "Meu Mundo é Hoje" e "11 Rounds", de contos e "Latitude 19 & Outros Hematomas" (crônicas e poemas).

Published in Cinema