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“A Cidade Onde Envelheço”: despretensioso e íntimo sem pesar a mão

Grande vencedor da mostra competitiva do 49º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro (melhor filme, direção, atrizes e ator coadjuvante), “A Cidade Onde Envelheço”, de Marília Rocha, é uma grata surpresa por evitar muitas das armadilhas que vem contaminando o cinema nacional recente. Um filme que combina com termos como “singelo”, “simples”, “despretensioso”, “íntimo”, “divertido”, “belo”. Um filme de miudezas. De detalhes. Do cotidiano. Do estranhamento de dois olhares estrangeiros – de Francisca e Teresa, de Portugal – sobre as peculiaridades de uma grande metrópole brasileira com ares de cidade do interior, como é o caso de Belo Horizonte. Da informalidade brasileira: o toque, a “folga”, a interação no bar, no restaurante, na rua, a “falta de jeito”. Do azulejo branco da parede do banheiro fora de lugar em contraste com os demais, azuis. Da saudade de casa. Dos conflitos internos, da juventude que vai vivendo apenas porque é difícil: “é aqui que você quer envelhecer?”, pergunta a amiga, “eu acho que não vou envelhecer nunca”, responde a outra, em tom jocoso e natural.

Numa época em que tantos filmes acabam marcados por serem mais panfleto que cinema (críticas que o próprio Festival de Brasília recebeu em edições recentes), pela histeria coletiva e ânimos inflamados, pela necessidade e desespero em provar uma tese, escancarar uma “ferida” da sociedade brasileira, caso de obras como “Branco sai, Preto fica”, “Que Horas Ela Volta?”, “Aquarius” e tantas outras, “A Cidade Onde Envelheço” passa ao largo do atalho fácil do maniqueísmo. Parte do nada sem querer chegar a lugar algum. Interessa mais o não dito, a rotina, a troca de olhares e provocações, as relações fluídas e frágeis, o pulso da cidade, filmada com naturalidade, não com filtro publicitário.

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No mundo de Francisca e Teresa ninguém mora em cobertura, ninguém tira o SUV da garagem para ir ao restaurante, ninguém sofre de tédio demasiado por ter dinheiro demais sem ter o que fazer, ninguém quer saber quanto o outro ganha ou o que faz ou deixou de fazer normalmente. Morando no Centro de BH, região viva que concentra tudo que a cidade tem a oferecer em cheiros, cores, sabores, suor e imprevisto, as duas vagam entre inferninhos de música alternativa, bares decadentes, sebos (“Soluços”, de Jards Macalé, é uma grande lembrança), bibocas e crocas diversas, flanando sem destino certo, descobrindo a própria existência.

Marília acerta ao filmar a cidade longe dos seus cartões postais e mesmo longe das favelas que sobram em Belo Horizonte, sem incorrer no “favela movie” que, de tão brasileiro e repetitivo, virou um gênero. Há muitas BH’s possíveis e a retratada aqui, essa classe média jovem que mora em apartamentos velhos e pequenos no Centro e busca algo além dos próprios dilemas sem muita convicção, rumo ou preocupação, também é ótimo material.

É um filme feito entre amigos, de momentos compartilhados, de descobertas e impressões dúbias. Sem finais fechados e início, meio e fim bem definidos. Um quê de Lucrecia Martel, a cineasta argentina que de alguma forma me lembrou a abordagem de Marília aqui. Sem classificações desnecessárias, “A Cidade Onde Envelheço” é um filme que vale a pena ser visto.

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Sou jornalista e desde 2003 escrevo sobre música, cinema, literatura e outros assuntos em diversos veículos digitais e impressos. Fundei a Movin' Up em 2008. Publiquei os livros "Meu Mundo é Hoje" e "11 Rounds", de contos e "Latitude 19 & Outros Hematomas" (crônicas e poemas).

Published in Cinema