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“Aquarius” e a armadilha da nostalgia

“Aquarius” sofre de um mal terrível: tornar-se um “filme acontecimento” antes de chegar oficialmente às telas. Toda a polêmica envolvendo o protesto em Cannes, depois a comissão brasileira do Minc encarregada de indicar os filmes nacionais ao Oscar, gerando um boicote de outros cineastas, e a classificação indicativa do filme (inicialmente 18 anos, depois revista para 16), em um momento político inflamadíssimo e histórico converteu-se em boa propaganda, devidamente capitalizada pela equipe entre a classe média majoritariamente de esquerda: 54 mil espectadores apenas no fim de semana de estreia com a melhor média por sala (600 pessoas).

Inegável que esse burburinho contribuiu muito para o sucesso do longa que, no entanto, veio escorado por ótimas críticas internacionais e nacionais e a boa recepção que o longa anterior de Kléber Mendonça Filho – “O Som Ao Redor” – teve. Escrevi sobre a carreira de KMF até então e o filme citado aqui mesmo na Movin. Embora a película tenha caído na revisão feita dois anos depois, “O Som Ao Redor” permanece como um belo cartão de visitas das intenções, da estética e do mundo particular do cinema do pernambucano.

É este lastro que “Aquarius” carrega. Desde o prólogo, com imagens da Recife antiga e a cena de Clara jovem na praia e depois no aniversário da tia (influência seja de personalidade, de vida, seja no empoderamento sexual, simbolizada pela penteadeira que permanece ali décadas depois), as músicas e a reconstrução histórica que Kléber oferece é familiar como deve ser. Assim que Sônia Braga entra em cena isso começa a tomar contornos mais profundos e sintomáticos.

É compreensível, portanto, que “Aquarius” desperte a empatia do espectador. Que utilize a nostalgia como trunfo, que tente emplacar a fábula conhecida da “guerreira solitária que enfrenta a grande e má corporação contra tudo e contra todos, levando suas convicções às últimas consequências”. Em um mundo cada vez mais veloz, mais brutal e “líquido”, para utilizar um conceito consagrado por Bauman, em que tudo é descartável e nada tem importância diante da força descomunal do capital – um “tudo que é sólido desmancha no ar” 3.0 – ver uma senhora enfrentar sozinha uma grande construtora que se apresenta inicialmente de maneira cordial e vai sutilmente subindo o tom em ameaças veladas gera um sentimento quase imediato de cumplicidade e mesmo “torcida”.

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“Queremos” que Clara siga em sua teimosia, queremos que ela “vença”, contra a pressão da construtora, dos filhos, dos demais moradores que já venderam seus apartamentos, da sociedade em geral. Queremos que ela coloque o jovem executivo almofadinha de dentes perfeitamente clareados e MBA no exterior em seu “devido lugar”, que a sua cordialidade fake seja desmontada por Clara, que aconteça o confronto decisivo entre esses dois mundos que vivem sob onipresente tensão e que inevitavelmente acabarão se chocando. Assim, “Aquarius” cumpre tudo que se espera dele. Entrega cada perfil e cada clichê de conceitos pré-concebidos pelo espectador, pronto a encaixá-los na próxima cena.

Não é só a repetição de temas e tensões com “O Som Ao Redor” e a “briga” de KMF com a especulação imobiliária em Recife, uma constante nos últimos anos – há um bom resumo sobre isso aqui – mas tudo que lá estava enxuto, aqui excede, perde-se no excesso, nas armadilhas de roteiro que cria para si mesmo. O que lá estava em sintonia fina, aqui ultrapassa em todos os pontos. A nostalgia enquanto força guiadora da teimosia de Clara, representada pelas músicas escolhidas – Altemar Dutra, Reginaldo Rossi, Gilberto Gil, Ave Sangria, Queen, etc – e pela entrevista inicial sobre sua opinião sobre os suportes atuais para a música e sua predileção pelos vinis que podem “contar histórias”, como ela ilustra, sobrando posteriormente uma alfinetada (com razão) para o tipo de jornalismo de cultura que é feito hoje.

A própria Clara é uma personagem menos complexa do que parece: uma senhora com quase 70 anos (Sônia Braga está com 66) que venceu um câncer de mama e passou pela morte do marido, crítica musical, criou os filhos com razoável liberdade, fuma maconha, não se furta a usar os serviços de um michê e mantém vida sexual ativa, fazendo questão de preservar um apartamento em um edifício já vazio que conserva a história da família. Sua luta contra a grande construtora de táticas de intimidação e projetos com nomes ridículos empalidece, no entanto, se considerarmos a condição financeira extremamente favorável em que Clara vive: é fácil preservar reminiscências quando você tem uma gorda aposentadoria para recusar uma oferta de R$ 2 milhões por um apartamento, considerando os outros 5 imóveis que a personagem afirma ter na cidade. A doce nostalgia dos abastados. A pura teimosia revolucionária dos milionários. É de se imaginar que o quadro fosse outro em condições adversas, mas assim o filme não se sustentaria, claro. Da mesma forma com que Clara repete o padrão de tratar os funcionários “como se fossem da família”: das sobras da festa de aniversário que entrega para o porteiro nos anos 80 até a relação com a empregada (da qual não vive sem…), em que faz questão de ir na sua festa de aniversário em Brasília Teimosa, bairro periférico ao lado da bolha de classe alta em que Clara vive. O brasileiro cordial no seu esplendor. O uso das suas relações com a elite da cidade (o diretor do jornal, por exemplo) como ponte para resolver os problemas com a construtora…

Não ajudam também as tensões gratuitas e forçadas, jogadas como mero reforço estilístico – como o “culto” no edifício, a exumação de um cadáver no cemitério, a merda na escada, etc. E se há política nas ações e mentalidade de Clara (e sempre há) – “somos filhos da época e a época é política…” – Aquarius não se presta a ser um panfleto e as reações de boa parte da plateia no fim das sessões Brasil afora demonstram no mínimo uma histeria coletiva que encontra pouco eco em resoluções práticas. É frágil o enredo e é frágil a resolução.

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A sensação é que “Aquarius” sofre pelo caminho prévio trilhado e pela expectativa gerada, desencadeando uma série de reações automáticas de espectadores ávidos em encontrar aqui o grande filme brasileiro do ano com uma atriz consagrada e querida que dê vazão ao que nosso momento histórico coloca na mesa. KMF, no entanto, é obviamente um cineasta talentoso e comeu muita farinha antes de se arriscar em longas.

Porém repito: é compreensível o carinho que a nostalgia nos traz, essa obsessão em olhar para o passado com óculos encantados, o conforto e a identificação diante da resistência em frear a fome insaciável da “pós-modernidade” cretina em sua pior forma, mas nem sempre isso é suficiente para se produzir bom cinema.

Sou jornalista e desde 2003 escrevo sobre música, cinema, literatura e outros assuntos em diversos veículos digitais e impressos. Fundei a Movin' Up em 2008. Publiquei os livros "Meu Mundo é Hoje" e "11 Rounds", de contos e "Latitude 19 & Outros Hematomas" (crônicas e poemas).

Published in Cinema