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“Moonlight”: um filme de olhares sufocados

Não há nada mais significativo em “Moonlight” que o olhar: é ele que expressa os diferentes momentos da vida de Chiron em seus conflitos, suas angústias, seus desejos. A hesitação, o receio, a raiva, o interesse. É que ele que traça a linha narrativa entre as fases do personagem, do olhar desconfiado e traumatizado de Little (Alex R. Hibbert), da cumplicidade buscada e das tensões sexuais, físicas e de personalidade do adolescente Chiron (Ashton Sanders) até a maturidade frágil travestida de dureza de Black (Trevante Rhodes).

Os olhos fixos do menino quase mudo, a insegurança do jovem e a defesa do adulto. Felizmente, o diretor Barry Jenkins sabe trabalhar muitíssimo bem essas sutilezas, caindo em alguns atalhos narrativos, é verdade, mas fugindo do padrão esquemático da média. “Moonlight” é um filme de formação e é também sobre o amor gay, sobre a realidade da América negra ontem e hoje, algo mais em voga do que nunca com todas as tensões recentes (Black Lives Matter, Eric Garner, Ferguson, Dallas, Louisiana, etc) e nas telas com os ótimos documentários “ A 13ª Emenda”, “Eu Não Sou Seu Negro” e “OJ: Made In America”.

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É o EUA periférico e consciente de Kendrick Lamar, da volta politizada e incisiva de D’Angelo como “o messias negro”, de Beyoncé metendo o pé na porta via mainstream. O filme, aliás, começa com a música “Every Nigger Is a Star” (1973), de Boris Gardiner…exatamente a mesma abertura do monumento que é “To Pimp a Butterfly” (2015) de Lamar. Algo longe de mera coincidência e Jenkins sabe bem.

“I have walked the streets alone / twenty years I’ve been on my own / to be hated and despised (poor nigga) / no one to sympathize / but there’s one great thing I know / you can say, “I told you so” / they’ve got a right place in the sun / where there’s love for everyone, and / every nigga’s a star”, diz a letra. Familiar? Quanto mais negro o fruto, mais doce o sumo.

Aí entra o Juan de Mahershala Ali, o “traficante esclarecido”, o “déspota iluminado” que vai rapidamente assumir o papel de pai de Chiron e oferecer uma família junto com a Teresa de Janelle Monáe, vai oferecer acolhimento, compreensão, conselhos, por mais dúbia que a sua posição seja: o traficante que passa a protegê-lo e ensiná-lo ao mesmo tempo que vende crack para a mãe viciada do menino. Juan é exatamente o arquétipo que Chiron assumirá na vida adulta, quando Ali já saiu de cena.

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E é o mar, em uma das cenas mais belas do filme, que vai sempre simbolizar uma vida plena para Chiron. Que representa o “aprender a nadar”, literal e metaforicamente, com a câmera mantida sempre baixa por Jenkins na primeira parte do filme, sempre na visão do mundo infantil, frágil e ameaçador de Little. É na beira do mar que ele consegue um momento de cumplicidade com o seu amigo e amor, fuma um baseado, tem a primeira experiência homossexual, permite se abrir. É para o mar (Miami) que ele volta, como homem, para reencontrar a pessoa decisiva em sua vida (e, novamente, os olhares que trocam, como que tateando um território conhecido porém minado, são fundamentais).

Miami que, assim como Kevin (André Holland) assinala, é a cidade mais desigual dos Estados Unidos (deve ser por isso que a elite brasileira se sente tão em casa lá). Se vemos Chiron sempre fugindo e se escondendo, da perseguição dos amigos, do bullying, das ameaças de violência física, do lar conturbado, dos próprios desejos, tentando entender quem é, ao finalmente reagir é que a sua vida toma consequências severas e temos o gancho para o arco final da película.

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Sempre com delicadeza, Jenkins e todo o cast (brilhante) conseguem criar um retrato convincente do mundo interno dos personagens e da sociedade em que estão inseridos, oferecendo incertezas, poesia, ameaças e paixões sinceras, conflitivas, íntimas, sem soluções fáceis.

É bom que uma obra como essa receba o selo de “melhor filme” do Oscar, o que aumenta instantaneamente o seu alcance e seu lugar na história, gostemos ou não do que a indústria representa. E o que esse filme significa para um país tão racista (um jovem negro é assassinado a cada 23 minutos), homofóbico (campeão mundial em assassinato de homossexuais), desigual e violento quanto o Brasil? Talvez nada, talvez algo. Sem ser panfletário de causa alguma, “Moonlight” triunfa como cinema. E isso, sobretudo, é o que engrandece ainda mais.

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Sou jornalista e desde 2003 escrevo sobre música, cinema, literatura e outros assuntos em diversos veículos digitais e impressos. Fundei a Movin' Up em 2008. Publiquei os livros "Meu Mundo é Hoje" e "11 Rounds", de contos e "Latitude 19 & Outros Hematomas" (crônicas e poemas).

Published in Cinema