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Nile Rodgers: linha de montagem de hits, rejeição, drogas e as famílias infelizes a sua própria maneira

Garoto pobre da periferia de Nova York, Nile Rodgers teve que se acostumar rapidamente com a vida dura e peculiar de uma criança do pós-guerra nos anos 50. Os pais, viciados em drogas, transformavam a casa e a rotina de Nile em um verdadeiro rosário de bêbados, drogados, traficantes, prostitutas, criminosos e gente muito própria e muito próxima desde sempre. A mãe e o irmão, em especial, chegaram a traficar grandes quantidades de cocaína por bastante tempo nas décadas em que Nile já era um compositor de sucesso, multimilionário, responsável por fazer todo mundo dançar com o Chic, revitalizar a carreira de Diana Ross e entregar o disco mais vendido de David Bowie, entre outras peripécias. Não por acaso, o próprio vício de Nile em drogas e álcool, uma constante desde que cheirou cola a primeira vez na infância, vai até as experiências de quase morte dos anos 80 e 90 e a morte, de fato, do parceiro inseparável e baixista Bernard Edwards em 1996.

Com um estilo bastante franco e direto, porém digno de um bom contador de histórias com inúmeras referências culturais antes e depois da época que viveu e ajudou a construir, é uma narrativa com seu tom de drama, clichê, excessos, rejeição, vaidade e estrelato que permeia o rock n’ roll que ele entrega em “Le Freak: Autobiografia do maior hitmaker da música pop” OU “Le Freak – An Upside Down Story of Family, Disco and Destiny” no original. Para Rodgers, sempre foi tudo rock n’ roll, essa coisa roubada dos negros pelos brancos que a indústria convenientemente veste a roupa que mais lhe interessa.

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A rejeição que cruza a infância de Nile está presente diretamente na composição do seu maior sucesso: se antes não podia frequentar porque não tinha o dinheiro e a indumentária para tal, é por ser barrado em uma noite de ano novo como convidado de Grace Jones no Studio 54 que Nile escreve “Le Freak”: o “awwww, fuck off – fuck Studio 54 – fuck off” acabou virando o trocadilho esperto e palatável de “awwwww, freak out, le freak, c’est chic”, o arrasa-quarteirão que vendeu mais de 6 milhões de cópias e catapultou o Chic definitivamente como um dos grandes nome do disco, do R&B e do jazz-funk de todos os tempos. Studio 54, a icônica boate, viraria então o quartel-general de Nile Rodgers, o lugar onde frequentava quase todas as noites regadas a muito sexo e cocaína no banheiro feminino, sendo o autêntico VIP do lugar.

Mais que sua banda por excelência, o Chic era uma empresa: a Chic Corporation, que licenciou diversos produtos, de beleza a farmacêuticos, produziu outros grupos e foi a base de recursos de Rodgers além da música. Muito semelhante com a banda que serviu de inspiração estética e conceitual para o Chic: o KISS, sim, o Kiss de Gene Simmons e cia, os maiores marqueteiros do rock. Ao lado do Roxy Music, conta ele:

“Percebemos que a direção de arte do Kiss era tão importante quanto a música deles, assim como era com o Roxy Music. As duas bandas ofereciam ao público experiências teatrais envolventes, embora completamente distintas. Então, Bernard e eu tentamos descobrir como juntar o anonimato do Kiss com a diversidade musical do Roxy Music e as garotas sexy das capas. Esse conceito grudou em nossas cabeças, não importava quantos shows tivéssemos que fazer para sobreviver enquanto isso. (…) Porém, Kiss e Roxy Music eram sem dúvida bandas de rock. Contudo, musicalmente, minha inspiração vinha do jazz. Então nós criamos um novo som que era uma fusão de jazz, soul e grooves funk com melodias e letras de influência mais europeia”.

Depois de encarnar a época de ouro da disco e fazer todo mundo dançar – “Dance, Dance, Dance”, “Everybody Dance”, “Le Freak”, “Good Times”, “We Are Family” – o discaço que fez para o Sister Sledge, “o mais bem acabado do meu conceito”, afirma e fazer outra obra-prima para Diana Ross, Nile viu uma das facetas da indústria mudar com a desgraça que chegou na onda do “Disco Sucks”, na virada dos 70 para os 80, quando tentaram colocar o Chic como oposto do rock, algo que para Rodgers não fazia o menor sentido. 

Até que apareceu David Bowie, primeiro em um encontro fortuito, depois com o convite para produzir um disco para o astro pop que estava em baixa após álbuns não muito bem recebidos. Empolgado com a chance de fazer algo mais experimental, Nile ficou surpreso quando Bowie pediu que “fizesse hits”, mas foi exatamente o que acabou fazendo. Diz ele:

“Na época, a palavra “dance” era muito pesada para mim. O movimento Disco Sucks havia me deixado com uma espécie de estresse pós-traumático, e eu tinha jurado que não escreveria músicas com essa palavra durante um bom tempo. Sentia vergonha de usar uma palavra – “dance” – que representava uma das fontes mais primitivas de alegria em todo o mundo e ao longo de toda a história da humanidade. Isso para não falar que é a palavra mais importante de vários discos que eu mesmo havia criado e que tinham vendido milhões de cópias! (…) Em quase todas as esferas da vida, eu observava o mesmo padrão: a cultura dominante sempre consegue expulsar gente com menos poder de suas bases culturais, financeiras, geográficas e residenciais, aí ocupam esse espaço e o reivindicam para si. Mudam o nome de tudo e, abracadabra, o que acontece é a gentrificação. Assim, achei que talvez fosse uma boa hora para reconquistar essa palavra que era tão minha quanto de qualquer um. O fato de meu nome não aparecer na capa do disco ajudou: sendo um roqueiro branco benquisto por todos, David tinha liberdade para usar a palavra o quanto quisesse. E quando David dizia “vamos dançar”, ninguém corria para as ruas para colocar fogo em discos”.

“Let’s Dance”, o resultado, acabou se tornando o disco de maior sucesso comercial da carreira de Bowie e, não por acaso, gerou alguma mágoa em Rodgers por não receber o reconhecimento devido na época, de Bowie em especial, algo que, com o tempo, foi corrigido, considera. 

Com o fim do Chic, Nile Rodgers de fato tornou-se esse midas da indústria musical, o homem responsável por levantar carreiras, produzir hits estrondosos que vendiam milhões de cópias, devolver aos holofotes quem estava em baixa ou colocar na boca do povo quem estava começando. Foi assim também com Madonna e a produção de “Like a Virgin” e seus 20 milhões de cópias daquela até então iniciante, também a cargo de Nile. Foi assim, em parte, com Duran Duran, INXS e o até o Daft Punk, já em 2013 com “Get Lucky”, disparado o maior hit da carreira do duo eletrônico francês, que ficou de fora do livro, lançado em 2011. De lá pra cá, Nile venceu um câncer e dominou novamente o planeta com o Daft Punk. Seu único deslize, e não irrelevante, foi ter aceitado se associar também ao Jota Quest. Que falta faz o aviso de um amigo. 

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Mas Nile produziu centenas de artistas, consumiu mais drogas e álcool e fez mais sexo do que boa parte dos já excessivos astros pop, influenciou também o rap, já que “Rapper’s Delight”, da Sugarhill Gang, considerado formalmente o primeiro rap da história, deve toda a sua base e muito a “Good Times”, do CHIC. Criado nas ruas e com uma família pra lá de problemática – para dizer o mínimo – que serve de arco de abertura e final do livro, Rodgers não tem medo algum de ir até as entranhas da própria vida e dos seus parentes, dos conflitos raciais, dos abusos da indústria, do estrelato e do fundo do poço para se reerguer.

É um relato cru e interessantíssimo de um dos maiores compositores da música pop que esse mundo já viu, um dos responsáveis por manter a natalidade na Terra em níveis aceitáveis. Esse “meio hippie”, “meio Pantera Negra” – que de fato foi – e que, sem ele, a história da música – e do comportamento – seriam ligeiramente diferentes. 

 

Sou jornalista e desde 2003 escrevo sobre música, cinema, literatura e outros assuntos em diversos veículos digitais e impressos. Fundei a Movin' Up em 2008. Publiquei os livros "Meu Mundo é Hoje" e "11 Rounds", de contos e "Latitude 19 & Outros Hematomas" (crônicas e poemas).

Published in Livros