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Propaganda anticomunista clichê, “Chernobyl” tem gosto de Guerra Fria requentada

“Fome? Você não sabe o que é a fome. Fome é quando você precisa cozinhar o próprio filho para comer”.

A frase acima, pescada de memória da minha leitura de “O Fim do Homem Soviético”, é de uma das personagens reais de Svetlana Alexiévich no livro citado. Não li “Vozes de Tchernobil”, mas li esse, sua maior (e mais recente) empreitada, um relato oral construído através da costura de centenas de depoimentos sobre a queda do regime soviético e o início do capitalismo na URSS na virada dos anos 80 para os 90.

Svetlana, jornalista e escritora que venceu o Nobel de Literatura em 2015 pelo conjunto da obra, vem justamente do país mais afetado pelo desastre de Tchernóbil, a Bielorrússia, que faz fronteira com a Ucrânia. 70% da radiação que vazou da usina atingiu a Bielorrússia. O livro de Svetlana sobre Tchernóbil é “uma das fontes” utilizadas pela minissérie da HBO, uma produção conjunta entre Estados Unidos e Inglaterra.

Na pluralidade de depoimentos presente em “O Fim do Homem Soviético”, entre o encanto com a derrama de mercadorias com o capitalismo e os saudosos de Stalin, uma infinidade de leituras pode ser feitas. O tom geral das escolhas de Svetlana e seu próprio histórico – como nessa entrevista para o Guardian, em que ela diz que “nós pensávamos que deixaríamos o comunismo e tudo ficaria bem, mas a verdade é que as pessoas aqui não entendem a liberdade” – mostra que, se você quer uma crítica ferrenha do comunismo com lastro e autoridade intelectual que o selo do Nobel traz, é seguro apostar em Svetlana.

Infelizmente, “Chernobyl” deixa muito mais um gosto de Guerra Fria requentada.

Longe da complexidade monstruosa que a história da Rússia, da revolução de 1917, da União Soviética, do próprio desastre nuclear, do fim da URSS e das relações intricadas – geopolíticas, linguísticas, sociais, culturais, etc – que esse verdadeiro continente traz, a série aposta muito mais em clichês prontos, em caricaturas forçadíssimas e um tom professoral insuportável de “defender a verdade”.

O histórico também não ajuda muito: a produção foi criada e escrita por Craig Mazin, conhecido por ser roteirista de “Se Beber, Não Case”, seu maior destaque, e dirigida por Johan Renck, diretor sueco que passou a carreira produzindo videoclips de gosto duvidoso até assumir alguns episódios de “Breaking Bad” e “Walking Dead”.

A despeito de ser impossível para qualquer série ou filme dar conta desse universo bastante próprio, traumático e dissonante, as escolhas de “Chernobyl” resvalam em uma propaganda anticomunista rasteira, que em muitos momentos soa como se tivessem sido escritas por um roteirista de 10 anos com a mente lavada pelas distorções de sempre, que ainda “assombram” o idiota americano padrão (e brasileiro também).

No quarto episódio, “The Happiness of All Mankind”, um dos personagens-chave diz: “não conseguimos colocar um homem na lua, mas talvez conseguimos colocar alguns no telhado da usina”. Mais significativo da desonestidade intelectual em reviver os anos de Guerra Fria e da corrida espacial – liderada pela URSS – não poderia ser. O episódio em si também diz muito: em uma minissérie de apenas 5 episódios, um deles é dedicado a retratar a tarefa de executar animais domésticos contaminados pela radiação. Cachorro é isca certa para fisgar o espectador. Um dos encarregados pelas execuções, coincidência, lembra bastante um sósia de Trotsky.

Essas “piscadelas para o público” se repetem a todo instante, como no fim do primeiro episódio, quando um líder octogenário profere um discurso “tipicamente soviético” – “fechem a cidade, ninguém sai” – ou no tom sempre de “sacrifício pela causa” – de “fazer o que tem o que ser feito porque temos o sofrimento no sangue”. Caso dos “voluntários” para entrar na usina e dos mineiros usados para cavar de forma inumana e “evitar o pior” (outra “adaptação” da realidade). Isso faz par com algumas críticas que Svetlana recebe, mas se torna bem mais grosseiro pelo tom geral adotado.

Estereótipos onipresentes, história falsificada

Esse texto na New Yorker é bem detalhista em relatar as escolhas caricaturais da série: personagens sempre ameaçados de morte ou punição severa pelos motivos mais fúteis (uma mentira histórica pura e simples para o regime soviético dos anos 80); cientistas heroicos confrontando o tempo todo a tomada de decisões de burocratas do regime, quase todos estúpidos; a fantasia de Hollywood explícita no personagem de Khomyuk, uma criação para “homenagear todos os cientistas que participaram do caso”, sempre onisciente desde o primeiro minuto, adivinhando questões técnicas e o tamanho do problema há quilômetros de distância enquanto quem estava no olho do furacão demonstrava notória dificuldade; a sanha interrogatória de “busca pela verdade” a qualquer preço e de precisar ser “resgatada” por manobras políticas, entre outros.

Também não dá para ignorar o retrato de um dos responsáveis pela usina – Anatoly Dyatlov – técnico experiente com mais de 20 anos de serviço passando por cima dos mais elementares protocolos de segurança e obrigando seus subordinados a ações estúpidas simplesmente para “completar um teste” que já havia sido cancelado outras vezes e “atender aos burocratas”, esse último um dos casos mais flagrantes da caricatura infantil que parece ser a obsessão dos criadores. Coloque também na conta o clima de “vigilância constante” pela KGB, inclusive do alto escalão. Em suma, poderíamos dedicar algumas páginas a destrinchar essa visão limitada e falaciosa da realidade.

Não há dúvidas de que o desastre de Tchernóbil foi causado por negligências em série, que as consequências foram (e são) muito mais terríveis do que uma encenação pode mostrar, que a burocracia e o sistema soviético de tomada de decisão não são exatamente os melhores do mundo, que a tensão, o medo e a perseguição eram permanentes, que medidas extremas e inéditas precisaram ser postas em prática diante de algo que nunca havia acontecido antes. Neste cenário, tudo é possível para além da “normalidade” de um estado de exceção. Lembra até o Brasil de hoje em dia.

Daí surge o sempre “sagaz” argumento de que é besteira exigir “fidelidade aos fatos” de uma série de ficção. Realmente, costuma ser. Não fosse o problema de que “Chernobyl”, além de ser “baseada em fatos reais”, se vende exatamente como um retrato bastante fiel da “realidade” na época, que tenta “caracterizar os pormenores” para criar a sua “atmosfera” e que a série tem sido elogiada por isso, apesar das “liberdades criativas” que, claro, são muitas. Quase todas resvalam na visão ocidental estereotipada.

Nesse caso, há que se arcar com o ônus de tamanha pretensão. Como não raro acontece, a produção de ponta e multimilionária da HBO & parceiros costuma servir de pretexto para ignorar todas as falhas de roteiro e direção. A produção em si é mesmo impressionante. Para o usuário médio, isso é mais do que suficiente. As notas do IMDB não me deixam mentir. O usuário médio é o mesmo que, tomado pela “febre” de uma série, paga algumas centenas de dólares para visitar as cidades abandonadas e posa estrategicamente para fotos que irão decorar o seu instagram.

No fim do dia, o que temos aqui é a eterna retórica clichê e encomendada da Guerra Fria, do “sistema engessado dos soviéticos”, da “vigilância permanente”, do clima de medo, ameaças, perseguição e censura intransponível, da “cortina de ferro” e por aí afora.

O mais grave e cômico de tudo é uma produção dos EUA e Inglaterra adotarem esse tom cretino de “busca incansável pela verdade”, vindo dos dois países mais interventores, assassinos, mentirosos e golpistas da história contemporânea. Das literalmente dezenas de intervenções americanas em países da América Latina, financiando, treinando pessoas, impondo modelos econômicos via regimes ditatoriais até a invasão do Iraque, justificada exatamente por Bush e Tony Blair por uma mentira grosseira que de que o país possuía “armas de destruição em massa”, o histórico é infinito.

Craig Mazin disse que o interesse em criar a série surgiu por endereçar “a guerra contra a verdade que vemos em todo o mundo hoje”. Indiretamente, o produtor e roteirista escolheu “Chernobyl” para abordar também o governo de Donald Trump, levantando um debate sobre isso nos EUA. As escolhas dizem muito.

Como entretenimento de suspense, a série cumpre seu papel. Como visão anglo-americana da URSS e libelo político para 2019, “Chernobyl” é uma baita perda de tempo. Para longe do frisson acéfalo do “acontecimento pop”, convém ir mais fundo do que uma série com viés tão escancarado pretende mostrar.

Jornalista investigativo, crítico e escritor. Publico sobre música e cultura desde 2003. Fundei a Movin' Up em 2008. Autor de 3 livros de contos, crônicas e poemas. Vencedor do Prêmio de Excelência Jornalística (2019) da Sociedade Interamericana de Imprensa na categoria “Opinião”. Finalista do V Prêmio Petrobras de Jornalismo (2018).

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