Skip to content →

Run The Jewels: na dianteira da inovação do hip hop

Por Paulo Floro, da Revista O Grito!

O rapper Killer Mike (nome artístico de Michael Render) e o produtor e rapperEl-P (Jaime Meline) estão sendo celebrados como os nomes mais inovadores do hip hop dos últimos anos. Caminhando por um atalho trilhado à margem dos magnatas da indústria, que parecem caminhar para uma estagnação, eles desenvolveram um rap que foge às convenções e traz novas proposições ao gênero.

Depois de trabalharem juntos em discos solo, eles lançam a continuação do projeto que mantém em conjunto, o Run The Jewels. Este novo álbum traz participações de Travis Barker, do Blink-182, Diane Coffee e Zac de la Rocha, ex-Rage Against The Machina. Só por esse time de convidados já podemos perceber que a dupla está bem afastada da patotinha que vemos se repetir em diferentes nomes do hip hop blockbuster.

A proposta dos dois segue intacta e se fundamenta na química que existe entre o mix poderoso de rima e vocais de Mike e o desejo de El-P de propor batidas e uma produção sem indulgências. Tudo parece ser feito para forçar a barreira criada dentro do hip hop para fazê-lo palatável às grandes audiências. O Run The Jewels quer tornar o gênero novamente controverso na forma e na linguagem, além de apontar novos caminhos.

Mas a dupla está longe de ser disruptiva. Em todo o disco pululam referências a nomes importantes do hip hop, como Nas, 2Pac, MF DOOM, entre outros. O interesse da dupla é menos ser iconoclasta e mais de se distanciar em um posto ainda pouco explorado do hip hop, como a experimentação sonora. Podemos colocá-lo ao lado de nomes como Shabazz Palaces, o grupo Black Hippy (em alguns trabalhos), Kendrick Lamar e até algumas experiências de Kanye West. Mas com o Run The Jewels vemos um projeto mais bem consolidado de mudança.

Na temática, o Run The Jewels seguiu a mesma proposta do disco anterior, mas desta vez abrindo espaço para um tom ainda mais violento. No primeiro álbum (etambém no ótimo R.A.P. Music, de Kille Mike, que El-P produziu em 2012) vimos um discurso político que denunciava o sentimento de paranoia, racismo e ameaças à privacidade da sociedade americana. Neste segundo volume o grupo traz temas parecidos, mas agora parecem mais interessados em celebrar uma desobediência civil, um chamado à vingança dos excluídos.

É um desvio de discurso interessante dentro do hip hop norte-americano feito nos últimos 20 anos. Se no passado, os rappers se insurgiam contra o panorama estabelecido através dos milhões de dólares conquistados, o Run The Jewels se rebela contra essa falácia propondo um choque de realidade. Essa busca por adequação através da força do consumo e do dinheiro foi o mantra que inspirou diversos nomes do gangsta rap e fez muito sentido dentro do preconceito racial dos EUA. Killer Mike e El-P parecem mostrar que não estão em busca de uma legitimação, apesar de ainda buscarem mudanças.

Um anarquismo permeia boa parte das letras, como mostra o hit “Close Your Eyes (And Count To Fuck)”, que soa como um manifesto do trabalho da dupla. Violentos e apaixonados a dupla cita black blocks, revoltas em prisões e a união de negros contra a violência policial.

O Run The Jewels subverte até mesmo a linha limítrofe da misoginia que muitos rappers caminham. Na incrivelmente explícita letra de “Love Again”, com uma batida monótona e pesada, temos Killer Mike e El-P descrevendo em detalhes o que gostariam de fazer com seus pênis no corpo de uma determinada mulher. Dizem tudo sem rodeios com a delicadeza de um filme pornô. Na metade final da música temos pela primeira vez o ponto de vista feminino cantado pela rapper Gangsta Boo, que faz parte do grupo feminino Three 6 Mafia. Gangsta e seu grupo são conhecidas por suas letras proibidonas sobre sexo e drogas e sua participação aqui fez todo o sentido. Ela simplesmente diz que está no comando e faz um espelho da suposta violência descritiva do início da faixa, agora visto pelo lado dela.

A última faixa, “Angel Dust” é uma mensagem da dupla para reafirmar suas intenções. Coube aqui todos os interesses conceituais do grupo dentro de uma melodia que oscila entre o melancólico e o incisivo. A faixa começa com “um brinde para os ninguéns (“a little toast to the no ones”) e discorre sobre a velha dominação do homem branco ocidental através do capital. Como fizeram no disco anterior, o Run The Jewels quer bem mais do que cuspir impropérios travestidos de rimas como forma de protesto. É um trabalho sofisticado de problematizar um panorama dentro de uma busca por um rap original na forma. Demorou para o gênero chegar até aqui.

Leia mais do especial “O melhor do Hip Hop em 2014” da Movin’ Up e O Grito!

O ocaso do Racionais MC’s

Os 15 anos de “Rap é Compromisso”, testamento do rap nacional

Ana Tijoux é voz feminista do hip hop

Criolo toma rumo irreversível ao pop

Freddie Gibbs e Madlib propõem a desconstrução do rap em Piñata

O experimental como norma em Shabazz Palaces

Paulo Floro é jornalista e editor da Revista O Grito!, site de cultura pop sediado em Recife (PE).

Matérias Relacionadas

Published in Reviews de Cds