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King Gizzard And The Lizard Wizard: repetição, exploração, decodificação

Sem pretender grandes inovações, 7 malucos de Melbourne, Australia, tem lançado um álbum de estúdio atrás de outro desde 2012 que, basicamente, exploram sonoridades conhecidas, diversas, fluídas e repetitivas. Da base de rock psicodélico de tratados como “Float Along – Fill Your Lungs” (2013), “I’m In Your Mind Fuzz” (2014) e “Nonagon Infinity” (2016), passando pela tentativa de folk de “Paper Mâché Dream Balloon” (2015), esse verdadeiro culto nonsense-porém-bem-ambicioso chamado “King Gizzard And the Lizard Wizard” tem trabalhado bastante.

Daí que chegamos a “Flying Microtonal Banana”, um dos 5 (!) discos previstos para 2017 que, como o nome entrega, pretende ser uma exploração da música microtonal – aquela em que são usados intervalos musicais inferiores ao meio-tom habitual na música ocidental. Ou seja: dá-lhe tons de música indiana aqui, de Oriente Médio acolá e escolas do gênero (sabia que a Movin’ Up tem um blog de música tradicional e folclórica que durou de 2009 a 2015?, pois é, dá uma olhada) de repetições infinitas tendendo a uma espécie de krautrock garageiro, caso da abertura com “Rattlesnake”, na ótima “Open Water” e por aí afora.

Vale quanto pesa? Às vezes sim, às vezes não. O septeto liderado por Stu McKenzie tem seus méritos: seja na ambição, sempre necessária em qualquer artista que se preze, seja na estética, na proposta e na pegada de trabalhar incessantemente sem burilar demais disco X ou Y, além das apresentações ao vivo que, pelo que consta e podemos acompanhar por aí, estão acima da média.

O King Gizzard e sua fome psicodélica-exploratória é uma banda de urgência, um pseudo-fanfarronismo-intelectualizado, uma brincadeira que se pretende séria, um recado sistemático que quer sugar o ouvinte para dentro de uma experiência. Um happening de intenções declaradas que, a despeito de suas falhas e vícios inevitáveis, cumpre muitíssimo bem seu papel.

Na grande ciranda de plagiadores que é a música pop, o rock (e basicamente tudo, afinal), “Flying Microtonal…” consegue colocar o nariz pra fora do lodo habitual e entrega composições bem feitas pra quem gosta da cartilha. Uma premissa que não deve fugir muito nos próximos álbuns que vem por aí. Se é o bastante, pouco importa, o King Gizzard é uma banda que dá gosto em ouvir. Qualidade que, por si só, não encontramos fartamente por aí.

Sou jornalista e desde 2003 escrevo sobre música, cinema, literatura e outros assuntos em diversos veículos digitais e impressos. Fundei a Movin' Up em 2008. Publiquei os livros "11 Rounds" (contos) e "Latitude 19 & Outros Hematomas" (crônicas e poemas).

Published in Reviews de Cds