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Stevie Wonder: a lenda e o resto

Por Maurício Angelo

Depois de passar por Salvador, Curitiba, Belo Horizonte e Rio de Janeiro, mesclando grandes nomes da música mundial com artistas de porte médio e atrações locais, o Circuito Banco do Brasil chegou a Brasília com a escalação de um dos maiores nomes da história da música e que passou (ainda bem) a frequentar o Brasil nos últimos anos: Stevie Wonder.

Para chegar até Stevie, no entanto, o público precisaria passar pelo (bom) Baile do Simonal, que vem circulando o Brasil nos últimos anos celebrando o legado de Wilson Simonal – que passou a ser “revisitado” historicamente, com os lançamentos da ótima biografia por Ricardo Alexandre e do documentário “Ninguém Sabe o Duro Que Dei” – pelo rapper Criolo, que prepara disco novo após o “aclamado” “Nó na Orelha” e pelo inevitável Capital Inicial.

Primeira atração internacional da noite, Jason Mraz carregava a simpatia da mulherada e veio escorado numa banda completa, com naipe de metais e tudo que tinha direito para disfarçar a fragilidade da sua música. Para um sub-Jack Johnson, que já não é lá grandes coisas, longe de um Ben Harper, para não citar as referências óbvias, Jason até que faz esse pop-reggae-surf comercial bem ajeitadinho, inofensivo, com refrães bonitinhos e alguns hits do que podemos chamar de “bacana” no currículo. Música pra tu ouvir no carro com a namorada indo pra cachoeira.

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“Freedom” engata aquele discurso típico, “Remedy”, o primeiro sucesso de Mraz, ainda de 2002, não faz feio. “Lucky” empolga a multidão, que tem lá bons motivos para não ficar muito dispersa, incluindo “Only Human”, “I Won’t Give Up”, “Make It Mine”, o cover de “Three Little Birds” (Bob Marley, claro) e o final com a aguardada (e estendida) “I’m Yours”. Mraz parece o típico boa praça, que vive o que canta e é engajado à sua própria maneira.

Mas aí, para chegar até Stevie, o público tinha que passar por duas torturas: Ask2Quit, do “super-sacadinho-bordão-do-cinema-espertão” “Pede pra Sair”, uma maçaroca genérica de batidas sem nenhum talento usando trechos de músicas famosas como “Smells Like Teen Spirit”, “Psycho Killer” e outras. Uma espécie de Bonda da Stronda da música eletrônica, uma das coisas mais lamentáveis do estilo que já vi.

E aí chegamos a Ivete Sangalo. O sucesso monstruoso de Ivete não chega a ser incompreensível, pelo contrário. Uma máquina incessante de jabás por trás desde o início da carreira solo, comprando espaço nas rádios, “amiga da galera”, naquela típica forçada de barra entre os famosos, passe livre na Globo, simpatia baiana, persona midiática, um par de pernas e, vá lá, uma voz aceitável.

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Mas é incrível como Ivete Sangalo tem uma das piores coleções de hits do axé. As músicas vão se enfileirando ao vivo e você percebe o quanto falta tudo ali. O mínimo de esmero, o mínimo de diferença, o mínimo de capacidade de conseguir extrair talento do imenso séquito de pessoas que poderiam te municiar com boas composições. Chiclete Com Banana, É o Tchan, Asa de Águia, Jammil, a própria banda Eva com o Saulo, pra não falar em gente nova como o Filhos de Jorge, todos tem um repertório bem melhor que o de Ivete.

Sobre a estrutura do evento em si, pouco o que se reclamar: exceto pela pane nas máquinas de cartão, pegando de surpresa quem não levou dinheiro suficiente para o estacionamento do Mané Garrincha, havia vários pontos de venda de bebida (porém poucas opções de comida) e especialmente uma quantidade excelente de banheiros químicos, fazendo com que a fila fosse zero em todo o evento, que contou com mais de 20 mil pessoas. Algo que deveria ser regra, mas é uma raridade. A mudança de local, do gramado do Centro Cultural Banco do Brasil para a área externa do Mané Garrincha também foi muito acertada, tanto em termos de acesso para o público – o estádio fica numa área central de Brasília – quanto de estrutura.

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 Enfim, Stevie

Com atraso de meia hora e aos 63 anos, “novo” para quem começou a gravar tão cedo, lançando os primeiros registros em 62, Wonder chegou ao palco com o status de lenda que de fato é, vindo ao Brasil pelo terceiro ano seguido.

Generoso, começou o show com um dos primeiros sucessos de Marvin Gaye, “How Sweet It Is (To Be Loved By You)”. Os outros covers da noite seriam “The Way You Make Me Feel”, de Michael Jackson, “Day Tripper”, dos Beatles e uma lindíssima versão de “Redemption Song”, de Bob Marley, logo após “Keep Your Love Alive”, dentro da homenagem a Nelson Mandela.

Com seu longo histórico de ativismo por causas sociais e de igualdade racial, Stevie fez questão de preparar uma longa homenagem a Mandela no primeiro show que fez após sua morte. Com imagens de Madiba no telão e Stevie ressaltando a perda que um dos maiores líderes da história significa, Wonder falou sobre as vezes que o encontrou, reproduzindo fotos desse encontro e chamando dezenas de pessoas para o palco, que entraram segurando bandeiras da África do Sul. Foi bonito e verdadeiro, de um artista que tem história com Mandela e as causas que defendem.

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Em formato curto, com apenas 1 hora e meia de set, os hits mais óbvios foram privilegiados. Não que ninguém tenha coragem de reclamar de ouvir “Higher Ground”, “Sir Duke”, “Don’t You Worry ‘bout a Thing” – perfeita pra dançar – “Overjoyed”, “Signed, Sealed, Delivered” e “Master Blaster”.

Pessoalmente, não acharia nada mal se tivéssemos mais de 2 horas de show e entrassem no set faixas como “You Are the Sunshine of My Life”, “Living for the City”, “Golden Lady”, “You Haven’t Done Nothin'”,  “Boogie On Reggae Woman”, “Heaven Is 10 Zillion Light Years Away”, “Bird Of Beauty”, “I Wish”, “Pastime Paradise”, “Black Man”, “I Ain’t Gonna Stand for It” e outras.

Ao mesmo tempo, o set mais curto que o show na Praia de Copacabana, em dezembro de 2012, ficou bem menos prejudicado por escolhas não tão felizes daquela vez. Mesmo a participação de Ivete Sangalo em “Garota de Ipanema” foi aceitável. O show no Rock In Rio de 2011, no entanto, permanece imbatível em termos de set-list.

Pra encerrar, o maior sucesso comercial com “I Just Called To Say I Love You”, seguida da definitiva “Superstition” e “Another Star” em versão mais breve.

Fica o clichê de “uma noite histórica para Brasília” e a certeza do privilégio.

update: Stevie parou pra dar “uma palhinha” no meio de uma quadra comercial de Brasília com um saxofonista de rua. Que homem.

Sou jornalista e desde 2003 escrevo sobre música, cinema, literatura e outros assuntos em diversos veículos digitais e impressos. Fundei a Movin' Up em 2008. Publiquei os livros "Meu Mundo é Hoje" e "11 Rounds", de contos e "Latitude 19 & Outros Hematomas" (crônicas e poemas).

Published in Destaques Reviews de Shows