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Rodrigo Campos, Juçara Marçal e cia: a mitologia do inconsciente Brasil-Japão

Com seus três discos de estúdio, o ótimo “São Mateus Não É um Lugar Assim Tão Longe”, o excelente “Bahia Fantástica” – que ainda deverá ser reconhecido como um dos melhores da década – e o mediano “Conversas com Toshiro”, Rodrigo Campos fincou seu nome na música brasileira como compositor talentoso, capaz de arrancar narrativas menos óbvias e criar arranjos acima da média, participando do coletivo de músicos de SP que gosto de chamar de “think thank” do alternativo nacional mais ou menos amigável para as massas. E é essa turma que acompanhou Rodrigo nos três shows que fez em Brasília, na Caixa Cultural, divulgando seu álbum mais recente: Thiago França e Juçara Marçal, do Metá Metá, Ná Ozetti, Curumin, Dustan Gallas e Marcelo Cabral, nomes sólidos em seus trabalhos próprios, em conjunto ou nas dezenas de participações que tiveram na construção de vários dos melhores discos que esse país produziu nos últimos 10 anos: caso dos próprios discos de Rodrigo Campos, do Metá Metá, da Juçara solo, do Curumin, do Passo Torto, Cidadão Instigado, Rômulo Fróes, Elza Soares, Otto, Céu, Lucas Santtana e por aí afora. Uma trupe de respeito conquistado por trabalho e talento.

Ainda assim, é de se lamentar o pouco público no dois dias que pude ver, em especial na sexta-feira e, menos, no sábado. Com ingresso a preço simbólico de R$ 10 inteira (R$5 para quem é cliente Caixa), essa turma citada tocou para pouco mais de 30 pessoas na sexta e para menos de 50 no sábado. Divulgação falha? Talvez. Mas fato é que o público acumulado por tantos discos diferentes deveria se converter em mais ação, fato é que o apoio estatal para a cultura é fundamental aqui e em todo país do mundo (são muitos os eventos realizados na Caixa e no CCBB em Brasília a preços módicos que não o seriam de jeito algum) e e fato também que o público brasiliense é algo acomodado, acostumado a shows gratuitos mas que também não vê problema em pagar R$40 para conferir show de banda cover nas baladinhas da vida, uma praga de toda metrópole.

Observação feita, há que se dizer que Rodrigo e trupe seguiram firme sem se importar com isso. Começando o show com o repertório de “Conversas com Toshiro”, que traz a tal “mitologia do inconsciente” citada por Campos, ao misturar personagens fictícios que povoam o imaginário do que é o Japão na visão brasileira, e uma referência que serve para muito do lastro lírico produzido por ele e por todos ali no palco. Se o último disco se manifesta nas aparições de “Funatso”, “Katsumi”, “Chihiro”, “Takeshi e Asayo”, “Wong Kar Wai”, uma brincadeira com o cineasta e a ótima “Mar do Japão”, “Fim da Cidade”, cantada por Ná Ozetti, tem um quê de João Antônio, o cronista da malandragem e das ruas, o jornalista-escritor que permeia muito do que eles escrevem, a exemplo de “Sem Estrela”, a única cantada por Curumin,música de “São Mateus…” que caberia perfeitamente em qualquer um dos seus discos. Assim como Jorge Amado é eminência parda em “Velho Amarelo”, “Ribeirão” e “Mangue e Fogo”.

Ná e Juçara, a primeira caracterizada como gueixa japonesa e a segunda toda de preto, como a entidade que realmente é, funcionam numa espécie de yin/yang nas composições tocadas, mesclando a doçura lúdica da voz da primeira com a veemência e o poder vocal e de interpretação da segunda. Juçara seguramente é a voz mais forte e mais necessária que flana por aí encarnando no Metá Metá, no material solo e em participações variadas. “Velho Amarelo” é sempre uma porrada, enquanto Juçara canta “não diga que estamos morrendo, hoje não, pois tenho essa chaga comendo a razão / um velho amarelo / com três guerras no peito / mirando o parabelo diz assim: vai”. 

E o show segue com um repertório mesclando com bastante competência esse imaginário híbrido, por vezes duro, cruel, erótico ou etéreo, Brasil, Japão, Bahia, periferia, filosofia de boteco, a margem longa do rio, uma pororoca sonora e lírica no sax e na flauta de Thiago França, nas narrativas de Rodrigo, nas provocações de Juçara, na leveza de Ozetti, na precisão da banda inteira, no samba, no jazz, no pop, na negritude urbana, na música para além das classificações.

Sou jornalista e desde 2003 escrevo sobre música, cinema, literatura e outros assuntos em diversos veículos digitais e impressos. Fundei a Movin' Up em 2008. Publiquei os livros "Meu Mundo é Hoje" e "11 Rounds", de contos e "Latitude 19 & Outros Hematomas" (crônicas e poemas).

Published in Reviews de Shows