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Apesar do CoMA, há que se enxergar outra Brasília

A capital do país tem dessas coisas: um festival feito pela elite (Tomás Bertoni e Gustavo Bertoni, da Scalene, são filhos de Torquato Jardim, atual ministro da Justiça do governo ilegítimo de Michel Temer e ex-CGU; Diego Marx, produtor da Scalene, é genro do senador Romero Jucá, que dispensa apresentações e André Noblat, da Trampa, é filho de Ricardo Noblat e figurinha conhecida na cidade), com R$ 1,3 milhão de dinheiro público, muitíssimo mal organizado, apesar da escalação. Assim foi o CoMa – Convenção de Música e Arte, realizado no último fim de semana no complexo da Funarte.

A Scalene é, por si só, uma excrescência: além da péssima música, o clichê mais processado possível do rock mais pueril, formatado para tocar em lojas de departamento, ganharam holofotes ao serem apadrinhados pela figura lastimável de Paulo Ricardo em um reality show da Globo, um desses inúmeros realitys que premiam normalmente quem é mais embaladinho, quem grita mais alto, quem agrada mais de acordo com critérios no mínimo duvidosos. Bons bonecos de ventríloquo que raramente conseguem produzir música autoral que preste. Vale para todos os realitys, gringos e locais (cópias dos estrangeiros, quando não filiais). Basta ver quantos artistas, entre centenas (talvez milhares) de programas mundo afora que conseguiram ter uma carreira própria que valha a atenção. Dá pra contar em uma mão e sobra espaço. 

Mas o Scalene é, como demonstra suas filiações, uma jabuticaba brasileira e brasiliense: o velho mérito do compadrio, da oligarquia, da plutocracia, que reserva os holofotes para aqueles bem relacionados nos altos escalões da nossa república de bananas apodrecidas. É a política cultural à boca pequena, a máfia dos escolhidos, o círculo íntimo do poder mais caquético, corrupto e detestável. É o atraso em sua forma plena. Uma realidade em que nada é coincidência e tudo está coligado. 

Os R$ 40 do ingresso em um festival já pago com dinheiro público (repita-se) refletia em uma organização pra lá de questionável, que obrigava o público (cliente) a adquirir um cartão próprio do festival por R$5 e um copo também por R$5, se quisesse tomar um chopp (Skol, diga-se). O cartão poderia ser estornado no fim do festival, enfrentando-se uma nova fila para ter seu dinheiro de volta, com desconto de 10%, além do fato do mesmo cartão só poder ser recarregado nos caixas móveis, de filas recorrentes e não nos bares onde ele foi adquirido pela primeira vez. Coisa de gênio, como se vê. Parece que todos os anos gastos por essa molecadinha do Lago Sul nos MBA’s da vida não serviram para muita coisa, exceto para aborrecer e extrair o máximo de dinheiro possível do consumidor, que é como eles encaram o público de um festival desses.

Todas questões aparentemente irrelevantes para boa parte da mídia que brada, esfuziante, como nem os mais desavergonhados assessores de imprensa seriam capazes. Felizmente, há lufadas de bom senso no texto do combativo, enjoado, exagerado e inconveniente Pedro Alexandre Sanches, que foi a convite da produção, mas tem carreira e cabeça para decretar:

O jornalismo cultural (não só ele) que deveria dar conta de acompanhar e decifrar essa profunda transformação está comendo poeira, por mil razões, entre elas sua própria resistência em abdicar do racismo, da misoginia, da homofobia, do classismo e das mais variadas modalidades de golpismo que se entranham feito DNA à nossa genética. Vitaminado à inanição por versões ~ressignificadas~ de práticas milenares como compadrio, corporativismo, lobby, jabaculê, isolamento, discriminação, truculência, assédio, subserviência e autoritarismo, o jornalismo musical se posiciona como Carolina (mas não a de Jesus cantada magistralmente pela baiana Larissa Luz) na janela vendo a banda passar e não sabe o que dizer a respeito. Isso não é coma, isso é a personificação da morte por assassinato, chacina, massacre, genocídio, psicopatia fascista.

Pedro está absolutamente correto não só sobre o jornalismo, como a cena – diversa, pulsante, viva, transgênero. A insignificância completa a que se enfurnou o jornalismo cultural brasileiro não é por acaso e padece de doenças crônicas e contagiosas, muitíssimas, que merecem análise mais dedicada em outra oportunidade para a quem interessar possa. O diagnóstico, no entanto, está na mesa. E não é de hoje.

Como público, acompanhei boa parte dos shows de sábado. E é razoável dizer que, apesar do CoMa, a escalação (espertíssima, por sinal) refletiu bem o que temos hoje: o ativismo mais-amor-por-favor-com-alguma-violência do bom show do trio do Ventre, do RJ, de fato uma banda que merece ser vista ao vivo, como alertaram antes alguns amigos, apesar de alguns vícios flagrantes no som. Livres dessas ideias preguiçosas e desses atalhos, tem tudo para se tornarem algo ainda mais interessante no futuro próximo. E pude ver o oportunismo do show do Silva cantando Marisa Monte. Se o disco é péssimo e insosso, ao vivo a coisa funciona e flui bem melhor, com os hits inevitáveis e outras boas escolhas, além da homenagem merecida para Luiz Melodia.

O Carne Doce vem no seu caminho de ascensão e prova que são eles, e não o Boogarins, a melhor coisa “””psicodélica””” a sair de Goiânia em tempos recentes. Lideradas pela presença de palco hipnotizante, pelos falsetes e pela postura de Salma Jô, o Carne Doce entrega um caldo muito bem arquitetado, etéreo e fluído na medida, seja com estruturas mais livres, seja no limite do padrão. Fióti, irmão de Emicida, cumpre suas pretensões ao praticar um soul-samba-black na linha de Max de Castro, embora longe da mesma qualidade ou brilhantismo, nos melhores momentos. 

Pra fechar, Rico Dalasam me surpreendeu ao mostrar que não é só lacração. Em um crescendo midiático e de público, Dalasam concretiza, no palco, sua vocação para a provocação, suor, rebolado e ativismo. Se é um rapper no máximo mediano – e realmente é – Dalasam me fez ter a certeza de que, cumprindo as profecias, o mundo é gay, meu bem. Sempre foi e sempre será. E eu, homem branco cisgênero profissional liberal etc, mal caibo no museu. Resumo do que deu errado no planeta e o maior assassino, sequestrador, estuprador e destruidor da história, eu sou o passado. Não importa quão “”””desconstruído””” eu me julgue. Querendo “ouvir a voz da fragilidade macha” e desejando muito fogo no cu em sua turnê “Balanga a Raba”, Dalasam é bom de palco, de discurso e de inflamar a plateia. “Cicatriz de bala”, “tatu de mandala”, Dalasam reafirma que “não deita pra nada”. Se a vida o fez flor, no mesmo corpo fez granada, para delírio geral. Dalasam é uma realidade necessária em um país campeão mundial de assassinatos de homossexuais e que mata um jovem negro a cada 23 minutos. Felizmente, mostrou que tem repertório para segurar o rojão. 

Enquanto ia embora, Emicida emplacava seu bom show (falei dele aqui no último Porão do Rock) e o dia seria encerrado por Jaloo, outro ícone gay que tem crescido musicalmente. Apesar desses acertos – visíveis a qualquer um que acompanhe música para além do óbvio – o CoMa nasce viciado e choca diversos ovos de algumas serpentes familiares, na essência e na organização.

Mais que isso, Brasília tem uma cena riquíssima, sobretudo na periferia e seu rap explosivo, seu hardcore ativista, seu samba rock suingado em tradições nordestinas, seu forró particular e por aí afora. Assim como tem indie classe média de funcionário público com burro na sombra, bom ou ruim. E rock clichê até o tutano, da qual o Scalene é a face mais recente e visível.

Apesar do CoMA, o jornalismo musical, as cenas, Brasília e os festivais há de serem outra coisa. 

Sou jornalista e desde 2003 escrevo sobre música, cinema, literatura e outros assuntos em diversos veículos digitais e impressos. Fundei a Movin' Up em 2008. Publiquei os livros "Meu Mundo é Hoje" e "11 Rounds", de contos e "Latitude 19 & Outros Hematomas" (crônicas e poemas).

Published in Reviews de Shows