Archive for novembro, 2009

17
nov

De Volta a Portugal: O Alentejo.

   Posted by: tiago    in II- Volta por Portugal

violac

Rumemos um pouco ao norte, do Algarve tratemos do Alentejo. O Alentejo que, como podemos deduzir dos mapas aí embaixo, é formado pelos distritos de Beja, Évora e Setúbal. Distritos que são situados, da perspectiva de alguém do norte, “além” do rio Tejo.

Sem mais delongas (creio que aqui a música fale de maneira eloqüente por si mesma) vou postar dois álbuns sobre música tradicional desta região:

O primeiro álbum se trata de uma coleção de canções acompanhadas pela “viola de campaniça” (foto), viola tradicional do distrito de Beja, viola maior do que suas similares em Portugal. Trata-se de um álbum bem gravado, porém bastante tradicional, soando com toda a força inocente que salta da música profundamente enraízada na tradição.

O segundo play contem a música dos tradicionais corais do Alentejo, se trata de música “a capella”. Interessante aqui é compararmos o que ouvimos com o sean-nós irlandês e também com os cantos muçulmanos (a influência muçulmana aqui talvez seja direta, mas com o sean-nós é apenas um interessante acaso). O canto “a capella” muitas vezes soa profundo, ou ‘religioso’,mesmo quando cantam sobre coisas do mundo e da terra (como é o caso aqui), os corais alentejanos não são diferentes. Interessante pensar como a voz é um instrumento que quando,na tradição, está sozinho é usado em um sentido solene, como se desacompanhado estivesse indicando que tem algo mais importante a dizer.

CD Viola de Campaniça

LP Corais Alentejanos

Share/Save/Bookmark

Related posts

Tags: , , ,

rajao

Comecemos pelo Sul e pelos Arquipélagos.

De fato, unimos num mesmo post o Algarve porção bastante turística do extremo Sul de Portugal, região que foi a última em Portugal a ser anexada dos mouros ao reino, a Ilha dos Açores e a Ilha da Madeira, devido ao fato de as regiões estarem incluídas em um mesmo CD de música folclórica lançada por um jornal português.

Temos ((aqui)), então, uma interessante compilação, acompanhado por um guia de audição, comentando cada uma das faixas, indicando sua origem e etc.

O que temos de mais interessante aqui? Primeiro notar o quanto o a música da “flauta travessa”, ou o pífaro do Algarve (faixas 3 e 17, por exemplo), lembra as músicas das nossas “bandas de pife” (aliás um dos melhores shows que vi na vida, foi, sem dúvida, o da ‘Banda de Pífanos de Caruaru’ na virada cultural de 2008!).

Interessante também a primeira ‘moda’ (ou o primeiro ritmo) que aparece no CD: a ‘chamarrita’. Esta moda passou dos Açores para o Brasil (para Santa Catarina, estado que tem muitos imigrantes das ilhas), e daqui para a Argentina!

É bem legal notarmos também, já aqui, a presença das violas. Existem muitos tipos de violas em Portugal, aqui encontramos a viola de arame na ilha da Madeira, e a viola da terra nos Açores. Sempre presente é o som estalado da viola. Aqui está a raiz da música da viola brasileira.

Interessante, e na verdade legal de ouvir e bem gravado (o que nem sempre ocorre com músicas de coleta), é também a faixa oito, ‘Saltinho’, que apresenta instrumentos peculiares da madeira, o rajão (espécie de cavaquinho de 10 cordas – aliás, de onde pensam que veio o “nosso” cavaquinho?Falaremos do cavaquinho, que é um instrumento português, mais para frente) e a braguinha (espécie cavaquinho de quatro, em alguns casos oito, cordas típico da Madeira).

Vejam só os vídeos. O Primeiro o som do Rajão, o segundo da Braguinha e o terceiro da viola da terra (à moda de Yngwie Malmsteen!!! rs.)

Share/Save/Bookmark

Related posts

Tags: , , ,

Caravelas-cronologia

Depois da Irlanda, tomemos um rumo musical distinto. Façamos justiça à música de Portugal. Parece-me que não temos a noção do quanto a música portuguesa nos diz respeito. Acho que se existe aqui no Brasil uma descoberta da música folclórica européia (alavancada pelo sucesso folk-metal) esta descoberta deve passar também pela música de Portugal; música interessante, rica e que nós é bastante próxima tanto pela sonoridade quanto pela língua.

Nós “estamos em casa” na música portuguesa, mas parece que ainda não nos demos conta. (E deixemos Roberto Leal em paz rs.Ele diz pouco respeito ao que iremos tratar aqui, embora, há quem diga que seu último álbum, mais próximo à tradição, é bom).

Vou aproveitar esta introdução para, de início, postar os mapas. O primeiro é um mapa das “Regiões” de Portugal, uma divisão política mais abrangente e que serve também para nós na música. O segundo mapa é um mapa dos distritos, divisão política mais estrita, estou postando ele, sobretudo, para termos idéia da localização das Ilhas dos Açores e da Madeira. O terceiro é para visualizarmos melhor Portugal na Europa.

Aí estão eles:

map_-100

00p

mapa europa2

Share/Save/Bookmark

Related posts

Tags: ,

13
nov

Próximo destino…

   Posted by: tiago    in xSem categoriax

sintra-portugal

c[:o) … em breve.

Share/Save/Bookmark

Related posts

Tags:

Séan_Ó_Riada

O último post desta séria fica reservado a um músico bastante especial dentro da música tradicional irlandesa: O grande Sean Ó Riada, e, por conseguinte, a grande Ceaóltóirí Cualann!

John Reidy, que mais tarde adotaria um nome mais próprio à sua profissional vinculada a tradição irlandesa, nasceu em 1931 (mesmo ano em que nasceu Paddy Maloney) na cidade de Cork, no condado de mesmo nome ao Sul da Irlanda.

Na infância, escreve John Glatt em sua biografia dos Chieftains (sim, nada de citações da wikipedia neste último e importante post! rs.), Reidy nem mesmo se interessava pela música tradicional que a mãe lhe ensinava. De qualquer forma, lá foi o garoto estudar piano e mais tarde completar sua formação clássica na University College Cork.

O jovem John Reidy veio, então, a se interessar pelo jazz e logo tratou de perambular tocando nas noites de Cork. Mais tarde, o jazz o levou a Paris, a um emprego em uma rádio parisiense – isto tudo no período de pleno florescimento do be-bop e do jazz como um todo na capital francesa.

Desiludido com Paris, com vinte e poucos anos, Reidy volta à Irlanda, onde recebe um emprego de diretor musical no famoso teatro Abbey em Dublin (Van Morrison tem um álbum ao vivo gravado no Abbey, para termos uma medida de sua importância).

O emprego como diretor musical do teatro Abbey lhe rendeu seu primeiro grande trabalho: a trilha sonora de Mise Éire um documentário sobre a luta irlandesa pela independência. A  trilha, que levou Reidy a orquestrar temas baseados na tradição, causou grande comoção e vendeu muitos EPs na ocasião da exibição do documentário. Resultado: Muitos abriram os olhos para a possibilidade de vender a música tradicional para um público mais abrangente.

Ainda dentro do teatro Abbey John Reidy – que a partir de então iria utilizar o equivalente gaélico de seu nome Sean Ó Riada – foi comissionado para compor e tocar ,ao vivo, melodias tradicionais para a trilha sonora de uma peça de teatro chamada The Golden Folks. Para tanto, Ó Riada necessitava contratar uma banda, e foi então que Ó Riada conheceu um jovem e talentoso gaiteiro chamado Paddy Maloney, assim como talentoso e igualmente jovem violinista de formação clássica (nascido na cidade de Cabra – sim, Cabra! rs.) chamado Martin Fay.

A peça foi um  grande sucesso assim como foi a banda (contendo futuros membros dos Chieftains). Desta banda contratada surge então a “orquestra tradicional” de Ó Riada, denominada Ceaóltóirí Cualann (ou músicos de ‘Cualann’. Cualann uma das antigas estradas dos tempos gaélicos).

ceolcul2

O maestro Ó Riada fez, então, de uma banda tradicional irlandesa algo como uma banda de jazz, com cada um dos instrumentos possuindo sua voz, isto tudo com um enorme esmero e rigor nos arranjos. A Ceaóltóirí Cualann foi a primeira grande banda da música tradicional irlandesa. E foi dela que mais tarde, em 1963, Paddy Maloney, Martin Fay e o whistler Séan Potts formaram os Chieftains.

Cabe aqui, ainda, um parágrafo sobre a figura bastante curiosa de Sean Ó Riada, famoso por ser, como Groucho Marx, inseparável de seus charutos e cigarros e por sua maneira “exótica” de lidar com o dinheiro. Um trecho da biografia dos Chieftains ilustra bem este seu caráter. Relata um percussionista da Ceaóltóirí Cualann:

“Eu me lembro que certa vez ele me pegou na frente do teatro Abbey em seu Jaguar para me levar à Galloping Horse (N. do T.: Casa de Ó Riada e local de ensaios da banda) (…) “Ele disse, Ronnie, olha este carro, é uma maravilha! Você pode me emprestar uma grana para por gasolina?”

E mais:

“Falta de dinheiro significava que havia somente o essencial em Galloping Horse, já que eles só podiam comprar alguns móveis. Havia furos em todo assoalho de madeira da casa, furos que Ó Riada resolveu fazer de cinzeiros – para o grande espanto de seus amigos”.

Sean+O+Riada

Enfim, Ó Riada era uma figuraça (ele faleceu em 1971) e sua música era algo único – uma abordagem nova, criativa e belíssima da música tradicional. Quem viu o filme Barry Lyndon de Kubrick ouviu os Chieftains (que fazem parte da trilha) tocando em um estilo ‘100% Ó Riada’, com o ‘bodhran’ (Ó Riada tocava o ‘bodhran’ na banda – instrumento que a banda ajudou a popularizar), o cravo, ‘o ar barroco’, típicos dos arranjos da Ceaóltóirí Cualann.

Se você gosta da música tradicional, ou se você gosta de música (!), não deixe de ouvir as gravações de Sean Ó Riada!

Para enfatizar a importância e a beleza da música de Sean Ó Riada e da Ceaóltóirí Cualann vamos aqui de três de seus plays (todos com a participação de membros dos Chieftains): Reacaireacht An Riadaigh de 63,     Sa Gaiety de 64 e      Ceol Na nUasal de 70.

Share/Save/Bookmark

Related posts

Tags: , ,

leorowsome_

Outro ícone da ‘uileann pipe’ Leo Rowsome (1903-1970) é conhecido por seu estilo aberto, brilhante e ‘fantasioso’. De fato, muito do novo ‘insight’ que Rowsome rendeu ao instrumento se deve ao fato de que Leo, assim como seu pai William Rowsome, construíam as ‘uileann pipes’. Leo se tornou, então, um mestre na afinação dos bordões o que rendeu a sua gaita todo uma nova dinâmica. Rowsome trabalha muito bem os timbres, assim como trabalha muito bem os harmônicos que possibilita a ‘uileann pipe’.

Confiram ((aqui)) um play com o som da ‘uileann’ de Rowsome lançado em 1969.

Share/Save/Bookmark

Related posts

Tags: ,

seamus

Uma primeira grande referência das ‘uileann pipes’ é 0 gaiteiro e compilador da tradição Seamus Ennis (1919-1982).

Séamus foi conhecido por compilar gravações de música tradicional das ilhas britânicas para um programa da BBC Radio. Este seu trabalho de pesquisa o levou a trabalhar com o grande nome da etnomusicologia (o cara que mais compilou gravações de música tradicional no mundo, creio eu): Alan Lomax. O trabalho rendeu o LP de Lomax dedicado à Irlanda.

O estilo da gaita de Ennis é reconhecido por estar no meio, entre o estilo rígido da tradição e o estilo mais aberto e ‘fantasioso’ (como, por exemplo, o de nosso próximo gaiteiro). Ennis era um especialista nas ‘slow airs’, nas ‘Arias Lentas’, nos lamentos que soam tão bem nas ‘uileann pipes’.

Confiram um play de Seamus Ennis, de 1977, ((aqui)).

E um belíssimo vídeo aí embaixo:

Share/Save/Bookmark

Related posts

Tags: ,