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Séan_Ó_Riada

O último post desta séria fica reservado a um músico bastante especial dentro da música tradicional irlandesa: O grande Sean Ó Riada, e, por conseguinte, a grande Ceaóltóirí Cualann!

John Reidy, que mais tarde adotaria um nome mais próprio à sua profissional vinculada a tradição irlandesa, nasceu em 1931 (mesmo ano em que nasceu Paddy Maloney) na cidade de Cork, no condado de mesmo nome ao Sul da Irlanda.

Na infância, escreve John Glatt em sua biografia dos Chieftains (sim, nada de citações da wikipedia neste último e importante post! rs.), Reidy nem mesmo se interessava pela música tradicional que a mãe lhe ensinava. De qualquer forma, lá foi o garoto estudar piano e mais tarde completar sua formação clássica na University College Cork.

O jovem John Reidy veio, então, a se interessar pelo jazz e logo tratou de perambular tocando nas noites de Cork. Mais tarde, o jazz o levou a Paris, a um emprego em uma rádio parisiense – isto tudo no período de pleno florescimento do be-bop e do jazz como um todo na capital francesa.

Desiludido com Paris, com vinte e poucos anos, Reidy volta à Irlanda, onde recebe um emprego de diretor musical no famoso teatro Abbey em Dublin (Van Morrison tem um álbum ao vivo gravado no Abbey, para termos uma medida de sua importância).

O emprego como diretor musical do teatro Abbey lhe rendeu seu primeiro grande trabalho: a trilha sonora de Mise Éire um documentário sobre a luta irlandesa pela independência. A  trilha, que levou Reidy a orquestrar temas baseados na tradição, causou grande comoção e vendeu muitos EPs na ocasião da exibição do documentário. Resultado: Muitos abriram os olhos para a possibilidade de vender a música tradicional para um público mais abrangente.

Ainda dentro do teatro Abbey John Reidy – que a partir de então iria utilizar o equivalente gaélico de seu nome Sean Ó Riada – foi comissionado para compor e tocar ,ao vivo, melodias tradicionais para a trilha sonora de uma peça de teatro chamada The Golden Folks. Para tanto, Ó Riada necessitava contratar uma banda, e foi então que Ó Riada conheceu um jovem e talentoso gaiteiro chamado Paddy Maloney, assim como talentoso e igualmente jovem violinista de formação clássica (nascido na cidade de Cabra – sim, Cabra! rs.) chamado Martin Fay.

A peça foi um  grande sucesso assim como foi a banda (contendo futuros membros dos Chieftains). Desta banda contratada surge então a “orquestra tradicional” de Ó Riada, denominada Ceaóltóirí Cualann (ou músicos de ‘Cualann’. Cualann uma das antigas estradas dos tempos gaélicos).

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O maestro Ó Riada fez, então, de uma banda tradicional irlandesa algo como uma banda de jazz, com cada um dos instrumentos possuindo sua voz, isto tudo com um enorme esmero e rigor nos arranjos. A Ceaóltóirí Cualann foi a primeira grande banda da música tradicional irlandesa. E foi dela que mais tarde, em 1963, Paddy Maloney, Martin Fay e o whistler Séan Potts formaram os Chieftains.

Cabe aqui, ainda, um parágrafo sobre a figura bastante curiosa de Sean Ó Riada, famoso por ser, como Groucho Marx, inseparável de seus charutos e cigarros e por sua maneira “exótica” de lidar com o dinheiro. Um trecho da biografia dos Chieftains ilustra bem este seu caráter. Relata um percussionista da Ceaóltóirí Cualann:

“Eu me lembro que certa vez ele me pegou na frente do teatro Abbey em seu Jaguar para me levar à Galloping Horse (N. do T.: Casa de Ó Riada e local de ensaios da banda) (…) “Ele disse, Ronnie, olha este carro, é uma maravilha! Você pode me emprestar uma grana para por gasolina?”

E mais:

“Falta de dinheiro significava que havia somente o essencial em Galloping Horse, já que eles só podiam comprar alguns móveis. Havia furos em todo assoalho de madeira da casa, furos que Ó Riada resolveu fazer de cinzeiros – para o grande espanto de seus amigos”.

Sean+O+Riada

Enfim, Ó Riada era uma figuraça (ele faleceu em 1971) e sua música era algo único – uma abordagem nova, criativa e belíssima da música tradicional. Quem viu o filme Barry Lyndon de Kubrick ouviu os Chieftains (que fazem parte da trilha) tocando em um estilo ‘100% Ó Riada’, com o ‘bodhran’ (Ó Riada tocava o ‘bodhran’ na banda – instrumento que a banda ajudou a popularizar), o cravo, ‘o ar barroco’, típicos dos arranjos da Ceaóltóirí Cualann.

Se você gosta da música tradicional, ou se você gosta de música (!), não deixe de ouvir as gravações de Sean Ó Riada!

Para enfatizar a importância e a beleza da música de Sean Ó Riada e da Ceaóltóirí Cualann vamos aqui de três de seus plays (todos com a participação de membros dos Chieftains): Reacaireacht An Riadaigh de 63,     Sa Gaiety de 64 e      Ceol Na nUasal de 70.

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