Posts Tagged ‘irlanda’

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Eu acho que dentre todas as vantagens que motivam alguém a escrever um blog a mais legal delas e’ o potencial que este site pode ter de nos aproximar de pessoas com quem partilhamos gostos, valores e etc.

Quando, faz por volta de um ano meio, comecei a escrever este blog, jamais imaginei que iria encontrar os adoráveis ‘folks’ que conheci por aqui pessoalmente. Tanto menos na Irlanda! Tanto menos tocando musica irlandesa na Irlanda!

Contudo, foi o que ocorreu (jolly world!) e no Brasil Celtic Festival, dia 3/11 de 2011, pude conferir a musica dos colegas do Café Irlanda, assim como a musica do excelente grupo Agua Negra (em que toca o amigo Tabhair Rios, ou Vitor Dom Lamh?), sem contar a apresentação do grande virtuose do bandolim, Armandinho Macedo!

Foi excelente cantar na plateia os standarts do cancioneiro irlandês (como Wild Rover ou Whiskey In Jar) em conjunto com os compatriotas do Café Irlanda! Eles certamente (sem deixarem de ser brasileiros) fizeram justiça ‘a musica irlandesa na terra natal ”da musica”.


Igualmente bom foi o show do Agua Negra (foto). Grupo que contou nesta apresentação em Dublim (aguardem as novidades!) com o fiddler, alemão-irlandês-brasileiro, Martin Kraut, Vitor Rios no bouzouki e bandolim, Humberto Monteiro Fernandez na bateria e percussão e um tocador de bodhran que não tenho o nome em mãos (N. do. B.: Kevin Larkin) – mas que e’ muito competente, como são os demais integrantes do grupo!

O Agua Negra, ao contrario do Café Irlanda, não investe no cancioneiro, mas exclusivamente nos sets instrumentais, em que eles mesclam, muito bem, elementos brasileiros (sobretudo do Nordeste, visto que o grupo e’ de Salvador) com a tradição irlandesa. E no que fazem eles não estão, de forma alguma, abaixo do que se ouve nas melhores praças dublinenses! Ouçam o grupo, contando com a participacao de Armandinho, e comprovem!



E então a Inglaterra! Escrevi bastante sobre a musica folk inglesa por aqui e continuarei escrevendo o quanto puder, pois e’ uma tradição belíssima, que esta se renovando como poucas, mas que e’ pouco exportada.

No final de Novembro tomei um voo (que me custou por volta de 40 euros ida e volta; e’ bastante barato viajar pela Europa) para o aeroporto de Leeds/Bradford a fim de conferir o festival Raise Your Banners que ocorre a cada dois anos na cidade de Bradford. Trata-se de um festival voltado a compositores, interpretes e palestrantes engajados politicamente. E dentro do espectro politico trata-se de um festival SOCIALISTA (com letras maiúsculas, como escreve no programa do festival seu patrono, nosso conhecido, Roy Bailey).

Como uma espécie de introdução ao festival pude conferir em um clube de folk da região (o Topic Club) um dos gigantes da musica inglesa: Martin Carthy. Apenas voz e violão e diversas (e belíssimas!) baladas!


No intervalo entres as duas partes da apresentação (entre uma ale e outra! E eu adoro as cask ales inglesas!) pude trocar algumas palavras com Martin Carthy! Ele não entendeu nada do que eu disse!  E acho que também não entendi o que ele disse, visto que ele disse (pelo que entendi!) que ele jamais havia tocado no Steeleye Span (e ele tocou!). Ainda assim foi uma experiência memorável, como foi o show integralmente (que contou também com a participação de ótimos compositores locais – incluindo um Sr. que tocou uma ótima canção baseada em um poema de Heinrich Heine!).

O fato e’ que quando escrevia para o Whiplash sobre folk-rock inglês (faz já uma década!) jamais imaginei que veria figuras como Martin Carthy em carne e osso (no caso de Martin, e’ verdade, mais ossos…)!

E então, no dia seguinte, o festival propriamente dito.  No dia anterior, no Topic Club, a organização do Raise Your Banners havia requisitado a contribuição de alguns voluntários para ajudar na organização do festival. Então lá fui eu! Ate que vi as deliciosas cask ales a venda no saguão… perderam um voluntario! Não que, os bastante amáveis, organizadores tivessem se importado com a ausência do improvável brasileiro.

E no saguão do Kala Sangan Hall (Carl Sagan Hall em indiano?), onde ocorreu o festival, encontrei novamente Roy Bailey, correndo feito o coelho de Lewis Carrol! E novamente tive o prazer de assistir a apresentação do grande sujeito! Além de, antes de sua apresentação, manter o tipo de conversações improváveis que adoro manter: Como aquela que mantive com um casal de idosos de Birmingham a respeito das bandas desta cidade que cresci ouvindo: Black Sabbath, Judas Priest, Deep Purple!

No festival ouvi também os competentes Hall Brothers com a participação da (interessante!) cantora Michelle Plum.


Por fim, pude ouvir outros dos gigantes da musica inglesa: John Tams (ex-Muckram Wakes e Albion Band), acompanhado do, não menos competente, Barry Coope.


No final da apresentação vi alguns CDs à venda e, seguindo a recomendação de um dos adoráveis organizadores, adquiri um disco chamado Alright Jack da banda Home Service, em que tocou, e ainda toca, John Tams. Menciono o fato pois quando cheguei em casa (isto e’, do outro lado do mar da Irlanda…) fiquei de queixo caído! Excelente disco! A banda conta com uma seção de metais fixa e estende, muitas vezes e sem soar ‘pedante’, a estrutura das canções tradicionais para muito além do obvio! Um dos melhores discos do folk-rock inglês, sem duvida alguma! Confiram esta faixa abaixo e tentem manter suas mandibulas grudadas ao cranio!



Esperem por mais desventuras soporíferas (?) e, logo mais, um novo ”ciclo” como nos ‘good ol’ times’.

Cheers!

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O último post desta séria fica reservado a um músico bastante especial dentro da música tradicional irlandesa: O grande Sean Ó Riada, e, por conseguinte, a grande Ceaóltóirí Cualann!

John Reidy, que mais tarde adotaria um nome mais próprio à sua profissional vinculada a tradição irlandesa, nasceu em 1931 (mesmo ano em que nasceu Paddy Maloney) na cidade de Cork, no condado de mesmo nome ao Sul da Irlanda.

Na infância, escreve John Glatt em sua biografia dos Chieftains (sim, nada de citações da wikipedia neste último e importante post! rs.), Reidy nem mesmo se interessava pela música tradicional que a mãe lhe ensinava. De qualquer forma, lá foi o garoto estudar piano e mais tarde completar sua formação clássica na University College Cork.

O jovem John Reidy veio, então, a se interessar pelo jazz e logo tratou de perambular tocando nas noites de Cork. Mais tarde, o jazz o levou a Paris, a um emprego em uma rádio parisiense – isto tudo no período de pleno florescimento do be-bop e do jazz como um todo na capital francesa.

Desiludido com Paris, com vinte e poucos anos, Reidy volta à Irlanda, onde recebe um emprego de diretor musical no famoso teatro Abbey em Dublin (Van Morrison tem um álbum ao vivo gravado no Abbey, para termos uma medida de sua importância).

O emprego como diretor musical do teatro Abbey lhe rendeu seu primeiro grande trabalho: a trilha sonora de Mise Éire um documentário sobre a luta irlandesa pela independência. A  trilha, que levou Reidy a orquestrar temas baseados na tradição, causou grande comoção e vendeu muitos EPs na ocasião da exibição do documentário. Resultado: Muitos abriram os olhos para a possibilidade de vender a música tradicional para um público mais abrangente.

Ainda dentro do teatro Abbey John Reidy – que a partir de então iria utilizar o equivalente gaélico de seu nome Sean Ó Riada – foi comissionado para compor e tocar ,ao vivo, melodias tradicionais para a trilha sonora de uma peça de teatro chamada The Golden Folks. Para tanto, Ó Riada necessitava contratar uma banda, e foi então que Ó Riada conheceu um jovem e talentoso gaiteiro chamado Paddy Maloney, assim como talentoso e igualmente jovem violinista de formação clássica (nascido na cidade de Cabra – sim, Cabra! rs.) chamado Martin Fay.

A peça foi um  grande sucesso assim como foi a banda (contendo futuros membros dos Chieftains). Desta banda contratada surge então a “orquestra tradicional” de Ó Riada, denominada Ceaóltóirí Cualann (ou músicos de ‘Cualann’. Cualann uma das antigas estradas dos tempos gaélicos).

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O maestro Ó Riada fez, então, de uma banda tradicional irlandesa algo como uma banda de jazz, com cada um dos instrumentos possuindo sua voz, isto tudo com um enorme esmero e rigor nos arranjos. A Ceaóltóirí Cualann foi a primeira grande banda da música tradicional irlandesa. E foi dela que mais tarde, em 1963, Paddy Maloney, Martin Fay e o whistler Séan Potts formaram os Chieftains.

Cabe aqui, ainda, um parágrafo sobre a figura bastante curiosa de Sean Ó Riada, famoso por ser, como Groucho Marx, inseparável de seus charutos e cigarros e por sua maneira “exótica” de lidar com o dinheiro. Um trecho da biografia dos Chieftains ilustra bem este seu caráter. Relata um percussionista da Ceaóltóirí Cualann:

“Eu me lembro que certa vez ele me pegou na frente do teatro Abbey em seu Jaguar para me levar à Galloping Horse (N. do T.: Casa de Ó Riada e local de ensaios da banda) (…) “Ele disse, Ronnie, olha este carro, é uma maravilha! Você pode me emprestar uma grana para por gasolina?”

E mais:

“Falta de dinheiro significava que havia somente o essencial em Galloping Horse, já que eles só podiam comprar alguns móveis. Havia furos em todo assoalho de madeira da casa, furos que Ó Riada resolveu fazer de cinzeiros – para o grande espanto de seus amigos”.

Sean+O+Riada

Enfim, Ó Riada era uma figuraça (ele faleceu em 1971) e sua música era algo único – uma abordagem nova, criativa e belíssima da música tradicional. Quem viu o filme Barry Lyndon de Kubrick ouviu os Chieftains (que fazem parte da trilha) tocando em um estilo ‘100% Ó Riada’, com o ‘bodhran’ (Ó Riada tocava o ‘bodhran’ na banda – instrumento que a banda ajudou a popularizar), o cravo, ‘o ar barroco’, típicos dos arranjos da Ceaóltóirí Cualann.

Se você gosta da música tradicional, ou se você gosta de música (!), não deixe de ouvir as gravações de Sean Ó Riada!

Para enfatizar a importância e a beleza da música de Sean Ó Riada e da Ceaóltóirí Cualann vamos aqui de três de seus plays (todos com a participação de membros dos Chieftains): Reacaireacht An Riadaigh de 63,     Sa Gaiety de 64 e      Ceol Na nUasal de 70.

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Outro ícone da ‘uileann pipe’ Leo Rowsome (1903-1970) é conhecido por seu estilo aberto, brilhante e ‘fantasioso’. De fato, muito do novo ‘insight’ que Rowsome rendeu ao instrumento se deve ao fato de que Leo, assim como seu pai William Rowsome, construíam as ‘uileann pipes’. Leo se tornou, então, um mestre na afinação dos bordões o que rendeu a sua gaita todo uma nova dinâmica. Rowsome trabalha muito bem os timbres, assim como trabalha muito bem os harmônicos que possibilita a ‘uileann pipe’.

Confiram ((aqui)) um play com o som da ‘uileann’ de Rowsome lançado em 1969.

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Uma primeira grande referência das ‘uileann pipes’ é 0 gaiteiro e compilador da tradição Seamus Ennis (1919-1982).

Séamus foi conhecido por compilar gravações de música tradicional das ilhas britânicas para um programa da BBC Radio. Este seu trabalho de pesquisa o levou a trabalhar com o grande nome da etnomusicologia (o cara que mais compilou gravações de música tradicional no mundo, creio eu): Alan Lomax. O trabalho rendeu o LP de Lomax dedicado à Irlanda.

O estilo da gaita de Ennis é reconhecido por estar no meio, entre o estilo rígido da tradição e o estilo mais aberto e ‘fantasioso’ (como, por exemplo, o de nosso próximo gaiteiro). Ennis era um especialista nas ‘slow airs’, nas ‘Arias Lentas’, nos lamentos que soam tão bem nas ‘uileann pipes’.

Confiram um play de Seamus Ennis, de 1977, ((aqui)).

E um belíssimo vídeo aí embaixo:

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10
nov

Passeio Pela Irlanda: Uilleann Pipe

   Posted by: tiago    in I- Passeio pela Irlanda

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Já havia publicado, no antigo endereço deste blog transportado para os primeiros posts desse novo endereço, algo sobre ‘uilleann pipe’ ou gaita-de-foles irlandesa. Havia postado sobre Patsy Touhey, um dos maiores gaiteiros irlandeses da “primeira onda” da música tradicional irlandesa, que ocorreu, de fato, nos EUA das décadas de 20,30 e 40.

Acho, no entanto, que a gaita irlandesa merece um pouco mais de atenção.

A ‘uilleann pipe’ é de longe a mais complexa das gaitas-de-foles, a começar por sua própria construção que acopla a cantadeira (o ‘chanter’, onde há as teclas que manipula o gaiteiro) os bordões (os canos que complementam a cantadeira) e fole (que o gaiteiro manipula com o braço a fim de bombear o ar para a ‘bolsa’ da gaita). Nos bordões da ‘uilleann pipe’, o que é bastante interessante, existem chaves de metal que quando acionadas produzem harmônicos (percebam no vídeo abaixo).

Vejam algumas das peças que compõem a ‘uillean pipe’  neste endereço.

Outro fator importante na ‘uilleann pipe’ é que ela é uma gaita de maior alcance, ela possui duas oitavas completas, como nos diz a wikipédia, o que somado a sua sonoridade mais doce e seu volume mais baixo faz dela uma gaita excelente para ser tocada em grupos (como faz, por exemplo, Paddy Maloney nos Cheiftains).

Tocar a ‘uilleann’ não é certamente tarefa das mais fáceis. Há diversos estágios, utilizando partes distintas da gaita para treinamento, antes que se permita ao aluno utilizar o ‘full set’, a ‘uillean’ completa.

Há certamente muitos aspectos da ‘uilleann’ e de sua técnica que desconheço (há, de qualquer forma, os artigos mais completos na wikipedia), mas creio que estas informações básicas já se encarreguem de nosso propósito introdutório (lembrando que este blog nada mais é do que um espelho das minhas pesquisas atuais – de meu “passeio” a fim de conhecer um pouco mais a fundo, mas sem maiores pretensões, a música tradicional irlandesa).

Então, este post se encerra com o video abaixo que mostra de maneira clara o manejo da ‘uilleann’, do fole que bombeia o ar à bolsa, do ‘chanter’ e dos bordões que produzem os harmônicos. Continuo a escrever sobre a ‘uilleann’, sobre os gaiteiros irlandeses, nos posts seguintes.

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Um adendo sobre a harpa irlandesa: Há uma entrada na wikipedia (repleta de notas de rodapé com as fontes utilizadas o que a torna bastante confiável) sobre a ‘clàrsach’ ou ‘cláirseach’ nome gaélico (gaélico escocês e gaélico irlandês medieval, respectivamente) para a “harpa celta”. Lá eles apontam ao fato da harpa antiga, com as cordas de metal, ser utilizada na Irlanda até o século XIX. A partir do século XIX foram introduzidas às harpas utilizadas na música irlandesa pedais para atingir os semitons, assim como as cordas feitas de tripa.

Vale, ao ouvirmos o álbum do harpista Derek Bell, notar o som metalizado da harpa antiga (que Derek, na esteira de Sean ó Riada, resgata) em contraste com o som aveludado da harpa irlandesa moderna (Derek Bell, creio, não utiliza no álbum a harpa de concerto, mas sim a harpa irlandesa antiga e a moderna).

Confiram a entrada na wikipedia aqui.

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Um instrumento importante na música irlandesa que ainda nos falta tratar é o ‘bodhran’. O ‘bodhran’ é um instrumento de percussão construído com pele de cabra esticada sobre uma armação da madeira. Ele é tocado comumente com baquetas – baquetas cuja forma e tamanho depende do som que o músico pretende tirar dele.

Particularmente, gosto muito do som do ‘bodhran’, instrumento que rende um bom “kick” às melodias tradicionais. Os músicos de sessions, no entanto, são um pouco desconfiados com o ‘bodhran’ devido ao fato de ele, em certas ocasiões, encobrir o som dos outros instrumentos – e ao que parece, segundo o engraçado “Field Guide to Irish Music Sessions” de Barry Fox, é comum aparecer em pubs músicos de ‘bodhran’ tecnicamente desqualificados.

Mais uma vez, tomo emprestado ((aqui)) um play da comunidade música celta e folk downloads no orkut , uma excelente (!!!) coletânea voltada ao bodhran – não se trata de uma coletânea somente com os sons do bodhran, mas uma coletânea de excelentes performances do instrumento inserido na música tradicional.

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