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Heaven & Hell – Brasília – E Tony Iommi criou o heavy metal…

Se você quer realmente conhecer algo, vá direto à fonte. No caso do , filho bastardo, esta paternidade é fruto direto da mente e das mãos de Tony Iommi. Esqueça este papo de que “heavy ” foi um termo usado pela primeira vez para designar “Born To Be Wild”, do Steppenwolf – e realmente foi. Que Blue Cheer e Iron Butterfly teriam sido os pioneiros. Que o Zeppelin contribuiu com algo. Tudo isto é verdade. Mas qualquer asno é capaz de compreender a brutal diferença entre todas estas bandas e o Black Sabbath. Basta ouvi-las. Não há nenhuma dúvida de que a gênese do estilo, musical, icônica, lírica e esteticamente falando, surgiu do Sabbath.

A banda, o álbum, a música. Número 01 do disco de estreia. Lançado em 1970. Está ali (e em diante) tudo que o metal é e se tornou. E toda a influência na música desde então. De Ministry e Nine Inch Nails a Muse e Queens Of The Stone Age, passando por Faith No More, Nirvana, Pixies e Living Colour, para não citar milhares de outros nomes, todos devem um pouco ao Black Sabbath. Tony Iommi influenciou não só seus descendentes diretos (NWOBHM, thrash, death, etc) como boa parte da cena pop, eletrônica e derivados. Até hoje. Música pesada, ou não, a influência (e reverência) ao Sabbath pode ser sentida nitidamente em dezenas de bandas. Iommi como o principal, por ter definido os timbres, os tons, riffs, solos, harmonia, estrutura, etc. Mas muito do estilo do baixo de Geezer Butler, da bateria de Bill Ward e do vocal de Ozzy reverberam por aí há 40 anos.

Assim sendo, pouco importa se você é um indie hardcore, um mpb freak ou um metido a entendido de jazz. Pouco importa se você simplesmente não gosta ou tem má vontade (e preconceito) com o metal. Se o máximo de opinião que você consegue emitir é cair naquela vala comum, e fácil, de acusá-los de serem 4 velhos se arrastando no palco afim de garantir uma aposentadoria ainda mais gorda. Para tanto, basta que você seja uma besta completa em termos musicais. E que, obviamente, não tenha visto nenhum show deles. Não se trata de nostalgia ou ignorar o presente. Pelo contrário. Há muitos nomes bons e criativos fazendo música que vale a pena ser ouvida em todos os estilos possíveis neste momento. E possivelmente sempre existirá.

Mas, como dito lá em cima, se você quer ter contato com o que realmente importa, vá direto no original. Depois do be-a-bá, você pode gastar tempo com outras coisas.

O Black Sabbath, sob a alcunha de Heaven & Hell, para simbolizar a era Dio (e termos contratuais), fez um show não menos que espetacular em Brasília. Difícil esperar algo menor desses caras. A banda, com Vinnie Appice na bateria (em lugar de Bill Ward) e com, obviamente, Iommi na guitarra e Butler no baixo, toca com a fluidez e a competência de quem tem 4 décadas de carreira nas costas. É assustador constatar como Ronnie James Dio, com seus 1,60 de altura e 67 anos de idade (!!!!), canta absurdamente bem. Límpido, cristalino, com punch e interpretação. Praticamente não falha. Das notas mais altas às mais graves. Literalmente, faz o diabo. Um monstro. Canta tão bem, e até melhor, que em estúdio. Já vi muitos vocalistas consagrados ao vivo. E Dio talvez tenha sido o mais impressionante deles. Repito: com seus quase 70 anos de idade, for christ`s sake! O mínimo que você deve ter é respeito.

E se Iommi criou a essência do que chamamos de heavy metal, é atribuído a Dio a popularização do gesto chamado de “cornuto”, “horns up” ou simplesmente os tradicionais chifrinhos com as mãos que todo mundo já deve ter feito alguma vez na vida.

Com exceção de Heaven & Hell (o álbum), de 1980, uma das mais perfeitas obras da história do metal, nunca fui um grande admirador da “fase Dio” do Sabbath. Eles nunca conseguiram atingir o mesmo nível da estreia. Apesar de muitas músicas excelentes que, pinçadas cuidadosamente, formam o set list de um concerto histórico. E as faixas recém lançadas em “The Devil You Know”, primeiro álbum totalmente inédito em 14 anos , mostraram enorme potencial. “Fear”, “Bible Black” e “Follow The Tears” sinalizam uma obra que, possivelmente, é a melhor da banda desde o próprio “Heaven & Hell”.


Nada mal para um grupo renascer com um álbum do mesmo nível do maior clássico da sua segunda fase 30 anos depois. E sorte de quem assistiu.

O predomínio de Iommi sob o que faz é tão grande que, não satisfeito em definir todo um capítulo da música do século XX com os oito álbuns lançados entre 70 e 78, “H&H” foi, também, a fonte de tudo que se tornaria o heavy metal de 1980 em diante. De bom e de ruim. A estreia de Dio trouxe uma sonoridade basicamente mais melódica e mais veloz. Menos soturna, menos grave. As letras tomaram o rumo mitológico e fantasioso tão adorado pelo baixinho. Daí em diante, de todos aqueles grupos surgidos na “Nova Onda do Heavy Metal Britânico”, como Iron Maiden, Judas Priest, e Saxon até as bandas estadunidenses (e muitas, muitas outras), seguiram a cartilha de “Heaven & Hell”. Tá tudo lá. E alguns fizeram a lição muito bem.

Felizmente, o fiasco de público que se esperava para o show não se confirmou. Os ingressos, de R$ 50 a R$ 300, saíram principalmente na última semana. E algo em torno de 10 mil pessoas compareceram ao Nilson Nelson. Aqui há que se ressaltar uma coisa: ginásio nenhum é lugar adequado para show. Coisas do nosso país, onde muitas cidades não tem um espaço decente, com infra-estrutura, para suportar shows de médio porte. E acaba sobrando para os ginásios. Sempre de acústica medonha, ecos e reverberações infinitas. Nas primeiras músicas era difícil ouvir a guitarra de Iommi e a voz de Dio. Sem contar a cozinha embolada. Com os ajustes, as coisas melhoraram bastante, ficando dentro do máximo de qualidade possível.

Fora isto, o show transcorreu sem maiores problemas. O público se dividiu entre a resposta enérgica e a estupefação. Mesclando faixas de “Mob Rules”, “Dehumanizer”, “The Devil You Know” e “Heaven & Hell”, com óbvio destaque para o último, a banda – na verdade uma instituição – faz tudo que dela se espera. E vai além. Sinceramente, Iommi vale por boa parte dos guitarristas que já vi ao vivo juntos. É ele, afinal, quem todos tentam imitar. E nunca conseguem. Nem irão. Genialidade não se aprende.

O encore final, com “Die Young”, “Heaven & Hell” em sua tradicional versão extendida e o medley de “Country Girl” e “Neon Knights” foi especialmente soberbo – e qualquer hiperlativo que você quiser adicionar aqui.

Poucas vezes uma hora e meia passa tão rápido. Nada que tire o prazer de ver a história acontecendo. E ser parte dela.

Set List:

E5150 (Mob Rules, 1981)

Mob Rules (Mob Rules, 1981)

Children of the Sea (Heaven & Hell, 1980)

I (Dehumanizer, 1992)

Bible Black (The Devil You Know, 2009)

Time Machine (Dehumanizer, 1992)

Drum Solo (Vinnie Appice)

Fear (The Devil You Know, 2009)

Falling off the Edge of the World (Mob Rules, 1981)

Follow the Tears (The Devil You Know, 2009)

Die Young (Heaven & Hell, 1980)

Heaven & Hell – extended – (Heaven & Hell, 1980)

Country Girl / Neon Knights (encore) (Mob Rules, 1981 e Heaven & Hell, 1980)

Fotos da tour retiradas do site oficial da banda.


Galeria de fotos abaixo formada com imagens feitas pelo público, disponibilizadas na comunidade Heaven & Hell BSB no orkut. Agradecimentos aos membros Babi, Renato, Mateus, Gabriel, Alves, Deivid e Rodrigo.


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Avaliação da banda álbum a álbum na fase Dio:

Heaven & Hell (1980) – *****

Mob Rules (1981) – ***1/2

Live Evil (1982) – ***1/2

Dehumanizer (1992) – ***

The Dio Years (2007, coletânea, avaliando só as três faixas inéditas) – **1/2

Live At Hammersmith Odeon (2007) – ****

The Devil You Know (2009) – ****

Show – ****1/2

Podcast especial abordando toda a carreira da banda:

[podcast]http://www.revistamovinup.com/wp-content/uploads/mp3/pod sabbath 2.mp3[/podcast]

Vídeos do show em Brasília por CovaRaza, Claudio Paes, Beto e Vatel.

Outros vídeos do Heaven & Hell:


Sou jornalista e desde 2003 escrevo sobre música, cinema, literatura e outros assuntos em diversos veículos digitais e impressos. Fundei a Movin' Up em 2008. Publiquei os livros "Meu Mundo é Hoje" e "11 Rounds", de contos e "Latitude 19 & Outros Hematomas" (crônicas e poemas).

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