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Crítica – Linha de Passe

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Há uma espécie de ânsia obsessiva no cinema brasileiro de ricos filmarem pobres. A “brincadeira” se dá, na medida em que o cinema, arte capitalista por excelência, que necessita de vultosos recursos, foca na realidade de seu país de origem, conta estórias perfeitamente verossímeis de gente que pode estar a qualquer esquina. Assim, o “rico” conta a estória do “pobre”, quase sempre com um tom de pena, de solidariedade, de fazer a sua boa obra para ir pro céu. Em geral, o filme não só é produzido por gente de extrato social radicalmente distinto daqueles retratados na tela, como dirige-se a um público igualmente elitizado, que irá pagar até 18 reais para ver a película num multiplex qualquer.

A gente “pobre” e “sofrida” toma ares de extravagância, entretenimento, chama a atenção daqueles que não vivem o cotidiano retratado, mas pagam para ver, como o público que busca o exótico e o diferente no circo. O produto vende, corre festivais de renome mundo afora, é aplaudido por quem está há anos luz do que acabou de ver. Críticos se deleitam com sua qualidade artística, técnica. Grande parte da produção cinematográfica brasileira tem essa característica: diretores abastados retratando estórias de pessoas humildes, violência, favelas, dificuldades, renhidas batalhas de cotidiano. A onipresença do tema chega a incomodar, a acusar uma falta de criatividade e perspectiva.

Linha de Passe, novo filme de Walter Salles, talvez o diretor brasileiro mais reconhecido no mundo, ao lado do emergente Fernando Meirelles, tem todas estas características. É o clichê máximo – mãe solteira de quatro filhos, grávida de mais um, luta para criar seus rebentos na periferia da imensidão caótica de São Paulo – e ao mesmo tempo não tem clichê nenhum. Usa, sim, de pequenos estereótipos – o menino aspirante a jogador de futebol, o motoboy, o evangélico, a criança que desconhece o pai e procura saber quem é no mundo – mas o faz de maneira não apenas bela no aspecto técnico do cinema, mas sem nunca cair na pieguice, no melodrama, na apelação emotiva fácil, no sentimento mastigado de tentar comover e sensibilizar o espectador a qualquer custo.

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Salles tem consciência de que os personagens e a estória são incisivas e tocantes pela própria natureza, não precisam de uma carga extra de emotividade. Ele não se preocupa em tentar fazer o público se envolver com a família da Cidade Líder: isto acontece de forma natural, fluída. Você pode passar o filme inteiro esperando aquele deslize, aquele momento onde o diretor cede à tentação de tentar “chocar” gratuitamente, e ele nunca vem.

O filme é brasileiro, urbano, legítimo, periférico. Talvez o mais brasileiro dos filmes recentes feitos no país, e o mais lúcido, mais equilibrado. O tom documental, de realidade pura e simples, não vem apenas do fato do roteiro ter sido baseado primariamente nos documentários “Futebol” – adivinhe sobre o quê – e “Santa Cruz”, sobre o nascimento de uma igreja evangélica, realizados pelo irmão de Walter, o documentarista João Moreira Salles. As peneiras que Dario, interpretado por Vinícius de Oliveira, passa, são reais, assim como as filmagens de Cleuza na torcida do Corinthians, e as impressionantes cenas no trânsito de São Paulo vividas pelo motoboy Dênis.

Assim, Walter desmistifica não só o futebol, elemento tão fundamental da cultura brasileira, mostrando o lado que não aparece, o mundo longe das principais categorias dos clubes do país, como também nos imerge dentro do trânsito de uma cidade monstro como São Paulo, na pele de um motoboy – consta que são 300 mil somente em SP – figura tão constantemente atacada.

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As locações da Cidade Líder, bairro periférico (mas não uma favela), considerado como “bairro-dormitório”, que abrigou levas de metalúrgicos das montadoras do ABC na década de 80 e – ironia – têm o maior shopping center da América Latina, o Centro Comercial Leste Aricanduva, são um personagem em si. Reserva referências e paradoxos perfeitos para o Brasil 2008.

Linha de Passe, afinal, é um filme que retrata uma típica família de classe média baixa. Estão ali a tensão econômica da mãe que sustenta os filhos sozinha como empregada doméstica sem a ajuda do pai – os meninos, aliás, são filhos de pais diferentes, entregando um contexto nítido de pluralidade social, inclusive na cor. O menino que sonha em ser jogador de futebol e vê a idade o afastar do objetivo. O rapaz motoboy que acaba caindo no crime como via de realizar não apenas seus próprios desejos materiais mas o filho precoce que tem que ajudar a criar (e não consegue porque está pagando a prestação da moto). O frentista recém convertido à religião protestante que enfrenta dúvidas e contradições entre sua vivência na fé e sua vida profissional, sexual e social. E, por fim, a criança irreverente e geniosa que busca conhecer o pai e seguir a profissão de motorista de ônibus de seu progenitor. É de Kaíque dos Santos – que tem 15 anos mas aparenta muito menos – vivendo Reginaldo, os momentos de alívio cômico do longa, onde a família encontra um pouco de provocação, de ajuda ingênua e irmandade tão turbulenta quanto sincera.

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Tendo apenas Sandra Corveloni (vencedora em Cannes do prêmio de melhor atriz) e Vinícius de Oliveira (conhecido por seu trabalho anterior com o próprio Walter em “Central Do Brasil”) como atores mais experientes, Linha de Passe revela o talento inegável de João, José e Kaíque, sendo difícil imaginar escolha melhor para o papel, dada a química natural que a “família” conseguiu trabalhando em conjunto.

A polpa da película não está apenas no espectro amplo que consegue traçar da população brasileira a partir de um único grupo de pessoas, nem na capacidade de retratar a dura realidade social sem apelar para a violência como foco principal nem querer despertar sentimentos de pena no espectador. Os personagens não são pobres coitados, não se portam como vítimas de nada. São, antes de tudo, humanos. E enfrentam conflitos típicos a cada um de nós. Não um “humano” no sentido universal, mas sim como o povo que sustenta este país vive em sua intimidade, sua guerra interminável pela sobrevivência.

“Linha de Passe” é esperançoso. Mas não é conivente com o pensamento de que “trabalhando tudo dá certo”, de que “basta correr atrás que tudo acontece”. Ao contrário, permanece lúcido o suficiente para reconhecer os perversos mecanismos de exclusão, preconceito, exploração e realidade social que os personagens vivem. Entrega uma esperança amarga, incerta, cambaleante. Não é o “sou brasileiro e não desisto nunca”, mas o cidadão insatisfeito que luta sem falsas perspectivas, sem alívios fáceis – e quando tentam, seja nas drogas, no crime ou na religião, encontram apenas mais dor, incertezas e perturbações.

O aniversário de Dario é uma cena chave. O rapaz permanece ausente de sua própria festa até perto do fim. No acender das velas do bolo, a luz apagada, apenas a chama iluminando seu rosto com um sorriso amarelo, constrangido, incerto, preocupado com a idade que o impede de participar das peneiras e entrar na tão desejada carreira de jogador de futebol. O som ambiente é cortado e substituído pelo silêncio, ruídos, notas de tensão, dúvida. A pia entupida, também, é uma alegoria que fala por si só.

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Dinho permanece em conflito com sua fé até o fim. E encontra paralelo no simbólico ato de Reginaldo, que entra no coletivo e sai dirigindo o ônibus sem rumo, sem rota, não mais em círculos, mas pra frente, prum horizonte que ninguém sabe qual é. Salles não está interessado em entregar um final mastigado ou feliz, em dar desfecho positivo ou negativo no que retratou. Seria trair sua própria intenção, a própria essência de uma linha de passe. O final é aberto, não dá pra definir o que acontecerá com a vida de cada um, nem com as cenas derradeiras em si: se a bola entrou ou não, como o menino nascerá (e se nascerá), as conseqüências do ato de Dênis, o futuro de Dinho, o que vai ser de Reginaldo com o ônibus.

Salles dá o último toque para o espectador. Completa sua intenção, suas metáforas, seus anseios e questionamentos. Nunca se sabe se o passe irá chegar ao seu destino. Mas ele foi dado. Não há desculpas. Escapatórias. Como o próprio filme diz: a vida é aquilo que fazemos dela.

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Jornalista investigativo, crítico e escritor. Publico sobre música e cultura desde 2003. Fundei a Movin' Up em 2008. Autor de 3 livros de contos, crônicas e poemas. Vencedor do Prêmio de Excelência Jornalística (2019) da Sociedade Interamericana de Imprensa na categoria “Opinião”. Finalista do V Prêmio Petrobras de Jornalismo (2018).

Published in Cinema