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O Mestre: a sagração de Joaquin Phoenix

Paul Thomas Anderson foi celebrado precocemente como o “novo Francis Ford Coppola” da sua geração, o diretor a quem é mais comumente comparado. “Boogie Nights”, de fato, não é o tipo de filme que um estreante costuma produzir. Pelo menos não nos últimos 20 anos, com raras exceções.

“The Master”, como se tornou marca do seu “cinema autoral” – termo desgastado e petulante, que já não quer dizer muita coisa – é uma “navalha na carne” da sociedade. Seja “americana”, seja qualquer uma. Ou pelo menos a maioria. Expor o ridículo da cientologia, ainda que indiretamente, é algo que seus próprios seguidores já conseguiram fazer com extrema eficiência. Especialmente John Travolta e o seu “A Reconquista”, certamente um dos piores filmes já realizados e capaz de estragar a reputação de qualquer coisa.

Primeiro, “The Master” é de um brilhantismo técnico impressionante. A fotografia de Mihai Malaimare Jr. é soberba, lembrando os melhores trabalhos de Roger Deakins. Mihai, que é incrivelmente novo no ofício, começou trabalhando justamente com…Francis Ford Coppola. “Velha Juventude”, “Tetro” e “Twixt”, os três últimos filmes de Coppola em sua nova fase independente e com produções de baixo orçamento, todos tiveram a fotografia de Mihai.

A música de Jonny Greenwood, que já se tornou parceiro fixo de PTA, é outra que colabora enormemente para a trama, guardando uma marca bem familiar com o tipo de ambientes e climas que Greenwood se acostumou a criar com o diretor.

A despeito de algumas falhas evidentes e de opções questionáveis no roteiro, “The Master” é evidentemente forte. E, sem esquecer das ótimas atuações de Philip Seymour Hoffman e Amy Adams, o primeiro já um ícone da sua geração e a segunda uma atriz que vem crescendo enormemente nos últimos anos, o filme é de Joaquin Phoenix.

E há aqui um paralelo curioso entre a própria vida de Phoenix e a trajetória do personagem. Depois do sucesso de Johnny & June, a cinebiografia de Johnny Cash que lhe rendeu uma indicação ao Oscar em 2005, Phoenix realizou dois ótimos filmes com o diretor James Gray: Os Donos da Noite e principalmente Amantes, de 2008. E então Phoenix aparentemente surtou.

Decidiu que não iria atuar mais, deixou a barba crescer e esboçou um “projeto de hip-hop”. Ficou famosa a sua participação, em 2009, no programa do David Letterman, totalmente bizarra:

httpv://www.youtube.com/watch?v=RRb_3hCa72Y

Na verdade um “hoax” e uma tiração de sarro com a cara de todo mundo que gerou o questionável “Eu Ainda Estou Aqui”. Fato é que, nessa brincadeira, Phoenix ficou mais de 4 anos “fora” das telas.

Freddie Quell, portanto, não poderia ser mais apropriado para o retorno de Phoenix. Álcoólatra e perturbadíssimo, Quell toma conta da tela e impressiona. A imersão do ator é total. Poucas vezes se viu, no cinema recente, um trabalho de corpo tão intenso e visceral. Com essa atuação, Joaquin Phoenix marca seu nome entre os grandes do seu tempo, fazendo história. Ganhar o Oscar ou não, embora esteja muito além das outras atuações do ano, é pequeno demais para o que ele fez aqui.

Outro fato é que PTA não encontra muitos rivais no cinema americano atual entre diretores da sua geração. “The Master” foi um fracasso de bilheteria até agora. Com 32 milhões de orçamento, lucrou somente 16 milhões nos EUA. Além de ignorado no Oscar em categorias principais como melhor filme, diretor, roteiro e fotografia. Ao que parece, parte da sociedade americana não gostou de se ver retratada na tela dessa maneira. Melhor para o público.

Jornalista investigativo, crítico e escritor. Publico sobre música e cultura desde 2003. Fundei a Movin' Up em 2008. Autor de 3 livros de contos, crônicas e poemas. Vencedor do Prêmio de Excelência Jornalística (2019) da Sociedade Interamericana de Imprensa na categoria “Opinião”. Finalista do V Prêmio Petrobras de Jornalismo (2018).

Published in Cinema Destaques