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Ex-Exus: estranhamento, performance e boa música

O Ex-Exus (impossível relevar a “peculiaridade” do nome”) é um grupo moderno no melhor sentido da palavra: a sonoridade é multiversa, apesar do peso estar evidente no novo disco, “Pau, Brazil!”. Os dois trabalhos, aliás, estão disponíveis para download gratuito no blog da banda. Como a foto indica, a performance visual é um dos aspectos chave dessa banda que vem da sempre prolífica cena de Recife.

As letras fogem do padrão.  A música não deve agradar facilmente à todos. Ao vivo, o grupo busca resgatar a noção de “concerto” tão bem trabalhada nos anos 60, principalmente com os grupos progressivos e transformada e ampliada em um pouco de tudo nas décadas seguintes. Conversamos com Bruno Freire (guitarra/teclado/voz) sobre tudo isso e ligeiramente além.

Movin’ Up – “A pergunta chata e inevitável sobre o nome da banda”: as pessoas estranhas um nome como Ex-Exus? Sendo o orixá da comunicação e movimento (salvo minha ignorância) porque Ex? Qual a provocação aí, afinal?

BRUNO – Sim, é normal o estranhamento no primeiro momento. Teve gente que até já disse que o nome era “ruim”, ou que a gente não devia “brincar” com isso. O ponto positivo é que as pessoas não esquecem com facilidade.

O Ex pode ser encarado como uma provocação e como algo que representa um pouco do nonsense da nossa estética visual e sonora. Afinal, eu não conheço nenhum outro Ex-exu!

Movin’ Up – Quais as mudanças significativas do primeiro disco, “Terroristas Freelancers” (nome excelente, diga-se) para o “Pau, Brazil!!”?

BRUNO – Acho que o som da banda tá mais bem resolvido no Pau, Brazil!. É um disco bem temático também, isso ajuda a ter essa impressão. Escolhemos as faixas mais pesadas da banda e fizemos uma gravação quase completamente ao vivo, dentro da mesma sala. Esperávamos captar a atmosfera da banda ao vivo e o resultado pra gente foi satisfatório. Já estamos gravando, em casa, no estúdio em que a gente ensaia, um monte de coisas, num processo quase oposto ao do Pau, Brazil!. O resultado deve ser bastante diferente e com outras referências. Em breve teremos novidades!

httpv://www.youtube.com/watch?v=OQN6KM_NpfQ&feature=player_embedded

Movin’ Up – Qual a importância do aspecto visual e da performance na banda? Como trabalham isso? Em tempos de sociedade do espetáculo, como isso funciona positivamente na arte e não de forma gratuita?

BRUNO – Desde o início da banda, a gente percebeu que a gente precisava trabalhar a parte visual e da performance no palco. Nossa outra banda, A Comuna (eu, Amaro e Ricardo éramos integrantes), meio que desprezava essa coisa toda da performance e a gente procurou fazer algo que fosse mais interessante pro público, sobretudo ao vivo. E isso se tornou algo fundamental pra nós hoje.

A gente procura trabalhar isso das formas mais variadas possíveis. Basicamente com a preocupação de ter uma boa performance no palco, figurinos, maquiagem, projeções de vídeo, etc. Sem falar dos materiais de foto e vídeo que divulgamos pela internet.

Na minha ótica, acho que a preocupação com a parte visual é sempre positiva pra gente. É como planejar algo mais interessante pro público, algo que completemente e faça entender melhor sua música. Se você tem um palco, é bom utilizá-lo!

Movin’ Up – Boa parte das bandas atuais são difíceis de classificar por misturar sonoridades e influências diversas. Algo natural, na maioria das vezes. Eu definiria o som de vocês como algo entre “post-punk- metal- experimental-art rock-mpb”, com o perdão de rótulos bizarros. É por aí? Como o público recebe o som ao vivo?

BRUNO – Acho que é por aí sim. Ao vivo, o público assimila muito da performance “rock”. Na verdade a gente tenta fazer um show intenso e que ao mesmo tempo consiga passar alguma mensagem das nossas músicas. É sempre um trabalho de conquistar a atenção pra depois se fazer entender.

httpv://www.youtube.com/watch?v=0mtTYr3OUzQ&feature=player_embedded

Movin’ Up – O Recife continua sendo um dos principais pólos de boa música no Brasil. O que não acontece por acaso. Vocês não parecem preocupados em se aproveitar da tradição regional mangue beat, etc. O que é até positivo. A “obrigação” de ser “regional”. Por mais que tenha colocado os holofotes sobre REC, também pode funcionar como uma herança maldita. Como as novas bandas da cena local lidam com isso atualmente? É algo que incomoda?

BRUNO – Olha, eu não saberia dizer como as bandas, de forma geral, lidam com isso. Tem muita gente e muita banda atirando pra tudo que é lado! E isso é bom. A gente não se incomoda com as heranças regionalistas nem negamos isso na nossa música. O que não fazemos é forçar a barra pra fazer parte de um movimento, seja ele estético, político, etc. Acho que o incômodo nessa coisa toda reside muito no campo da política cultural, de incentivos governamentais. Pra quem tem que ir isso ou aquilo. E aí o debate é longo. A gente procura achar nosso espaço no meio disso tudo isso sem depender do governo pra continar produzindo.

Movin’ Up – Pra terminar, gostaria que vocês destrinchassem um pouco mais o “lirismo peculiar” do grupo e a turnê: como a banda vê as tretas recentes e discussões no “mercado independente brasileiro”, Abrafin, Fora do Eixo e etc.

BRUNO – Primeiro, sobre nosso “lirismo peculiar”, acho que a gente canta o que a gente gosta. As letras refletem muita da personalidade do grupo e do que a gente vive ou gostaria de viver!

Quanto ao “mercado independente brasileiro” é outro debate bem complicado pra responder em poucas palavras. Acho que existem muitos grupos, coletivos, bandas e pessoas com idéias interessantes pro mercado, mas a coisa ainda tá longe de se tornar realmente sustentável. O “circuito” ainda é fraco e é difícil pras bandas fazer uma turnê, mesmo que pequena.

O ponto chave, pra mim, é que, como banda, artista ou produtor, você precisa pensar e conseguir soluções pra que as coisas aconteçam. Não adianta culpar a Abrafin, o Fora do Eixo, ou o coletivo da esquina porque você não consegue espaço. Trata-se de um mercado e você precisa competir pra entrar nele. Então, é bom que você apresente algo de qualidade pra começar.

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Jornalista investigativo, crítico e escritor. Publico sobre música e cultura desde 2003. Fundei a Movin' Up em 2008. Autor de 3 livros de contos, crônicas e poemas. Vencedor do Prêmio de Excelência Jornalística (2019) da Sociedade Interamericana de Imprensa na categoria “Opinião”. Finalista do V Prêmio Petrobras de Jornalismo (2018).

Published in Destaques Entrevistas