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Juliana Kehl e a deliciosa desconstrução do samba

Foto: Caroline Bittencourt

Por mais que a música popular brasileira sempre esteve repleta de excelentes cantoras, vivendo inclusive uma “profusão” de novos talentos nos últimos anos, poucas vezes nos deparamos com uma tão completa quanto Juliana Kehl. Compositora, dona de voz não apenas bela, mas de timbre peculiar e raro senso melódico, Juliana também é artista plástica, trazendo naturalmente esta experiência para dentro de sua música. Repleta de influências literárias e poeticamente orgânica, as letras encantam por estarem tão acima da média: “A Música Mais Bonita” e “Diadorim”, por exemplo. “Outras Mulheres”, de Joyce e Paulo César Pinheiro, não poderia ser escolha melhor.

Lançando o primeiro disco, auto-intitulado, Kehl falou sobre todas as influências, o processo de criação, a sonoridade que funde tão bem elementos tradicionais com “modernos”, funcionando como atrativa desconstrução do samba e da MPB sem pedantismo (“A Ciranda e a Moça”, “Rede de Varanda”, “Viação Cometa”). Com participações de nomes como Dominguinhos e Marcelo Jeneci, da mesma geração, Juliana produziu, ao lado de Gustavo Ruiz e Dipa, um disco que ainda começa a ser descoberto, que cresce a cada audição e se coloca como uma das principais obras da música popular brasileira nesta virada de década.

Movin’ Up – Nos últimos anos (talvez décadas), não só na música brasileira mas na sociedade em geral, às vezes a inteligência é vista com preconceito, por mais paradoxal que possa ser. Tratada com desprezo, como mero exercício de arrogância e pedantismo. É motivo de embaraço. A coisa parece começar a mudar. Como é assumir uma postura claramente poética, lírica e reflexiva um tanto acima da média (ao mesmo tempo que popular, claro) ?

Juliana Kehl – Em primeiro lugar, obrigada por me incluir no grupo reflexivo! Acredito que o artista pode (e deve) se apropriar de maneira irrestrita de todo o material poético que circunda seu veículo principal de expressão, no meu caso  a música. Tenho interesse por muitos assuntos e procuro cada vez mais estabelecer essa integração.

Muitos artista foram engajados em diversos movimentos, estéticos e políticos. Aliás, grande parte destes tiveram exatamente a função de estabelecer um intercâmbio entre a arte e o contexto sócio-cultural mas nunca senti que isso tenha sido motivo de embaraço. Não me considero acima da média, tento construir meu trabalho com seriedade, só isso.

Movin’ Up – Engraçado, também, que a música popular, seja aqui ou lá fora, por mais “acessível” que fosse em estrutura, nunca foi tomada como sinônimo de música ruim. Ideia que se tornou comum principalmente do final dos anos 70 em diante. No Brasil, a ideia de que o “povo” aceita qualquer coisa parece-me errada de berço. Como equilibra o pop e a sofisticação no seu trabalho?

Observar a cultura pop é uma maneira interessante de compreender o espírito de uma época, não é? Acho que a cultura popular não é só a vanguarda, nem só o folclore, é a mistura de todos esses elementos. Eu gosto de experimentar, ouvir coisas novas e também tenho referências “clássicas” bem presentes como o jazz, por exemplo.

httpv://www.youtube.com/watch?v=XH9tdNTvdJY

Movin’ Up – Maria Rita Kehl é reconhecidamente uma das maiores psicanalistas (e mentes) do Brasil.  Além dos poemas musicados, retrabalhados por você, como Diadorim, como a influência da irmã mais velha reflete na sua formação de vida, sua cultura? Como foi e como é a relação de vocês?

Nossa  relação foi sempre muito boa mas só adulta me dei conta de quanto temos em comum. Quando musiquei as primeiras poesias da Rita esse processo se intensificou. Minha irmã é uma mulher que admiro muito.

Movin’ Up – Sempre investigo, em meus entrevistados, a mistura de cores, tons, ideias. De todo universo sensorial que nos cerca desde a infância, no fim, que é aquilo que nos alimenta. Pra uma artista plástica isso naturalmente é mais aguçado. Como a experiência em ambas as artes conversam entre si?

Para mim a sensação de criar uma pintura e compor uma música é bastante parecida. São camadas sobrepostas. Acho que se trata da construção de uma imagem seja ela sonora ou pictórica.

Movin’ Up – Ao mesmo tempo que soa predominantemente samba (as três primeiras músicas não deixam mentir), o disco exala uma certa luz natural bem peculiar, seja no instrumental não óbvio, nas letras e pra onde você leva sua voz. Vai além do tradicional com discrição, experimental sem se perder (como em “Viação Cometa”). Essa foi uma preocupação?

Na verdade, não foi uma preocupação consciente. Acho que o disco traz esse clima porque foi gerado num ambiente de amizade e o processo de produção aconteceu de forma criativa,  expontânea. Me refiro sobretudo ao meu trabalho com Dipa e Gustavo Ruiz. Acho que a sonoridade final do disco reúne essas minhas influências que de fato passeiam entre “o tradicional com descrição” e o experimental.

httpv://www.youtube.com/watch?v=sqYe_xvBdmU

Movin’ Up – Você chegou a dizer, em entrevistas, que seu trabalho é essencialmente feminino. O que isto significa exatamente hoje em dia, pra você?

Não sei, é exatamente o que procuro descobrir! Para mim ser mulher é um exercício. O gênero é só um ponto de partida. Esse assunto sempre me cativou.

Movin’ Up – “Rede de Varanda”, por ser a abertura, parece simbólica como abre alas do trabalho: de cara exala a “modernidade” entre o eletrônico e arranjos incomuns com o tradicional, explodindo num refrão típico do samba. Como foi a construção dela?

“Rede de Varanda” é uma música que concentra o espírito do disco, muitas influências setentistas, contemporâneas. Além da bateria genial criada pelo Guilherme Calzavara, o Jeneci  apareceu com um teclado incrível à la The Doors.  O Maurício Alves gravou uma percussão irretocável  e a música ficou tridimensional.

Tive a idéia de fazer uma referência a um trecho da música da Julie Delpy “Je t’aime tant, je t’aime tant, pourtant, comme le temps qui passe et ment, j’attends”, depois mudei de idéia e criei uma introdução em português. Foi o Marcelo Jeneci que me convenceu a voltar atrás e cantar o comecinho em francês, ainda bem.

Foto: Caroline Bittencourt

Movin’ Up – “Diadorim”, feita sob poema de sua irmã, Maria Rita, é também, pra mim, uma das melhores e mais marcantes do álbum. Guimarães Rosa dispensa comentários. Sua obra pode ser fonte quase eterna de boas referências. Como a literatura influencia nas letras e composições? Quais escritores brasileiros você mais aprecia?

Eu gosto muito de Guimarães Rosa. Estava relendo Grande Sertão: Veredas quando escrevi a música. Diadorim é um dos personagens mais fascinantes que eu conheço.

A literatura influência sim o meu trabalho, cada vez mais. Tenho lido Clarice Lispector que é sempre um espanto pra mim. O último foi Perto do Coração Selvagem, senão me engano o primeiro romance dela. Mas não tenho um apego especial à literatura brasileira. Se é um bom livro vai para a cabeceira.

Movin’ Up – Por fim, o que você acha relevante sobre seu trabalho que ninguém ainda te perguntou? Como estão sendo os shows e os planos para 2010?

Eu falo demais, (risos). Espero que as palavras cantadas sejam mais interessantes que as minhas respostas ou perguntas. Meu desejo é que as pessoas escutem o disco, curtam, compartilhem. Isso tem acontecido e me faz muito feliz.

Sobre os shows, vou fazer um pré-lançamento no Grazie a Dio no dia 23 de março e dia 30 de março lançamos oficialmente no Sesc Pompéia. Estão todos convidados!

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Jornalista investigativo, crítico e escritor. Publico sobre música e cultura desde 2003. Fundei a Movin' Up em 2008. Autor de 3 livros de contos, crônicas e poemas. Vencedor do Prêmio de Excelência Jornalística (2019) da Sociedade Interamericana de Imprensa na categoria “Opinião”. Finalista do V Prêmio Petrobras de Jornalismo (2018).

Published in Destaques Entrevistas