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Imitação de música

Não sei se depois do título e dessa foto acima ainda realmente preciso explicar a teoria. Mas essa onipresença de bandas “indies” no Brasil atualmente, principalmente em função do Planeta Terra e Eletronika, faz pensar. Empire Of The Sun (pobre Austrália), Tanlines (Brooklyn oba-oba), Of Montreal, Mika, Phoenix, Passion Pit, Hot Chip, Yeasayer, etc. Cada um pode ter lá seus momentos para não espinafrar gratuitamente todos, mas o que essa geração faz – incluindo aí dezenas de outras bandas que qualquer um que acompanhe o “alternativo” e a mídia indie sabem – pra mim é só uma coisa: imitação de música.

Uma boa comparação é o iogurte. Aquele de prateleira. Como quase todos os produtos vendidos no supermercado são imitação de comida (algo facilmente perceptível, mas há textos que explicam bem isso, se interessar), um exemplo da composição desse iogurte industrial é: leite desnatado, preparado de fruta morango (água, morango, frutose, corante natural carmim de cochonilha, amido modificado, acidulante ácido cítrico, edulcorantes artificiais aspartame, ciclamato de sódio, acessulfame de potássio, espessantes goma guar, goma alfarroba, aromatizante, conservador sorbato de potássio), amido de milho modificado, fermento lácteo, estabilizantes gelatina, pectina e fenilalanina. Isso aí é o que chamamos de “iogurte”. E ainda é vendido como “saudável”: 0% de gordura e sem açúcar. Olha que maravilha.

Algo soa familiar? Pois é. A provocação é mais válida do que eu gostaria. A imitação de música que 95% das bandecas infladas atualmente fazem é bem parecido com o “iogurte” do mercado. Todas fazem uma “mistura original” de “pop, eletro, rock, indie, afro-beat (a nova moda), dance, new wave, post-punk, neo-psicodelia, lo-fi, experimental”. Todas. Que geração sensacional.

O show dessa turma é classificado como “divertido, animado, curioso”. No máximo. E assim é. Fazem um bom barulho às vezes, tem uma ou outra musiquinha grudenta, levantam a galera do gargarejo. Ponto. É assustador a falta de talento, de criatividade, da capacidade em produzir algo que mereça ser ouvido mais que uma vez, se você ir até o fim. Dá pra citar uma infinidade de casos aqui. Aí você olha para o blablabla da mídia e se pergunta: será que esses caras realmente gostam disso e acreditam no que estão falando ou é só a eterna necessidade de levantar algo novo, com carimbo de “descolado” e artificialmente elogiável ao extremo?

Não raro sinto minha inteligência agredida com algumas bandas que tentam elevar. Minha capacidade de discernimento, de lucidez, de parâmetro, de ouvido, etc. E de boa parte do público. Assim como a imitação de comida que temos hoje, plástica, recheada de porcaria e vendida como saudável, que faz bem, vale a pena (…) boa parte das bandecas são só imitação de música vendidas como algo decente.

É bom ficar atento.

Sou jornalista e desde 2003 escrevo sobre música, cinema, literatura e outros assuntos em diversos veículos digitais e impressos. Fundei a Movin' Up em 2008. Publiquei os livros "Meu Mundo é Hoje" e "11 Rounds", de contos e "Latitude 19 & Outros Hematomas" (crônicas e poemas).

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Published in Destaques Mundo