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“Whiplash”: armadilha cool para desavisados

Alguns filmes ganham certo tipo de espectador já na largada. É o caso de “Whiplash”, do diretor Damien Chazelle, “improvável” presença de destaque no Oscar este ano, concorrendo em 5 categorias (incluindo melhor filme e roteiro), além de já ter levado o prêmio do público e do júri no prestigiado festival de Sundance.

Típico filme “independente” com armadilha “cool”, “Whiplash” parece ter ganhado a admiração imediata de todo mundo que gosta de música e jazz em especial. Como não gostar de um filme que conta a história de um baterista – baterista! – no início da carreira tentando se destacar no “conservatório de música mais respeitado” dos Estados Unidos, em rota de colisão com o “severo e respeitadíssimo” professor, enfrentando a desconfiança da família enquanto tenta conquistar o coração de uma “gatinha” e vencer os próprios medos e angústias, extremamente obcecado com o seu ofício e carreira?

O argumento é bom, assim como as atuações de J.K. Simmons, conseguindo elevar o nível após dezenas e dezenas de participações nunca exatamente memoráveis em todo tipo de filme possível, e o novato Miles Teller. O problema é que o roteiro do igualmente novato Damien Chazelle, responsável pelo “argumento semelhante” de “Grand Piano” e pela direção do caça-níquel “O Último Exorcismo – Parte II” é extremamente esquemático, clichê, previsível e forçado para muito além do limite.

O professor ultra fodão que faz todo aluno mijar nas calças apenas com o olhar e não permite 1 segundo de ‘erro’, apelando instantaneamente para toda sorte de agressão física, verbal e moral, constrangendo, humilhando e abusando de todos que ele julga necessário, promovendo competição implacável “para tirar o melhor” dos seus músicos, dos quais os três bateristas são o eixo principal, ultrapassa o patético desde o início. Assim como os momentos em que demonstra o mínimo de “humanidade” são usados na verdade para mais cinismo e abuso.

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A obsessão de Andrew, culminando na explosão física, tocando até sangrar por diversos momentos e indo participar de uma competição após ser atropelado (!) por um caminhão (!), o estopim do seu relacionamento com Fletcher, é ridículo demais para ser aceitável. A anedota da vida de Charlie Parker, usada por Fletcher para justificar seus atos, é igualmente distorcida e também questionável.

O mito de que a prática extrema leva à perfeição é facilmente destruído se lembrarmos que o refinamento da “técnica”, apesar de naturalmente servir para explorar meandros da composição que gente sem recursos não consegue, é também frágil já que há um abismo entre técnica e execução pura e simples e capacidade de compor.

Mas este é apenas um detalhe do roteiro e da direção de Chazelle, muito mais preocupado em criar um ambiente de tensão e disputa insuportável entre aluno-professor e os próprios integrantes da banda. A historinha de amor entra apenas como alívio temporário e a relação com o pai e a família segue um padrão conhecido.

Em suma, “Whiplash” naufraga na pretensão de ser bom cinema, jogando clichês potencializados o tempo inteiro na sua cara e naufraga novamente no seu argumento, estragado pela necessidade desesperada de causar impacto.

Sou jornalista e desde 2003 escrevo sobre música, cinema, literatura e outros assuntos em diversos veículos digitais e impressos. Fundei a Movin' Up em 2008. Publiquei os livros "Meu Mundo é Hoje" e "11 Rounds", de contos e "Latitude 19 & Outros Hematomas" (crônicas e poemas).

Published in Cinema Destaques