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Rubem Braga: 100 anos do maior artesão da língua portuguesa

Foram muitos os caminhos naturais que me levaram até Rubem Braga: ambos capixabas e ambos nascidos no interior (ele em Cachoeiro do Itapemirim, no sul do estado, eu em São Gabriel da Palha, no norte) o que na verdade se traduziu numa imensa quantidade de livros de Rubem disponível nas bibliotecas das escolas em que passei.

Para um menino, começar a ler Rubem Braga e crescer com ele é um deleite incomparável. Seu universo aconchegante e íntimo, sua abordagem bucólica e repleta de sentimento, sensibilidade e experiência do cotidiano. Sua linguagem “fácil”. E aqui Rubem se revela um monstro: a aparente “simplicidade” e “facilidade” do seu texto constituem, na verdade, um dos mais profundos, belos e raros usos da língua portuguesa que se tem notícia. Se apropriar da linguagem como Rubem se apropria em suas milhares de crônicas, com o impacto, a segurança e o universo próprio que ele possui é inigualável.

Cresci lendo Rubem e ele foi meu “elemento formador”. Uma espécie de pai. Um dos grandes responsáveis por eu ser o que sou, por ter, ainda que inconscientemente, a princípio, decidido rumar pelo caminho do jornalismo, das letras, etc. Para além do caráter acolhedor das suas crônicas, Rubem viveu intensamente e bem. Cobriu guerras, sendo um dos únicos repórteres brasileiros a acompanhar na linha de frente a segunda guerra mundial, foi embaixador, se relacionou com os maiores intelectuais da sua época, daqui e de fora, sendo ele mesmo um deles, recriou o ambiente interiorano em sua cobertura em Ipanema, ambiente tão raro em seus textos e universo sensitivo.

Poucos escreveram tão bem sobre o cotidiano, a guerra, as mulheres, as cidades, a amizade, saudade, nostalgia e tanto mais.

 A melhor forma de conhecer Rubem é ler a sua imensa obra, que felizmente está ganhando uma série de novos lançamentos ao longo do ano em virtude do centenário.  O jornal O Globo, em que Rubem escreveu boa parte das suas crônicas, fez um excelente especial.  Depois, para quem quiser conhecer a trajetória de Rubem a fundo, é obrigatória a monumental biografia “Um cigano fazendeiro do ar”, de Marco Antonio de Carvalho, que consumiu 10 anos da vida do autor, com centenas de entrevistas (quase 300) e é um mergulho direto na vida de um dos maiores nomes que esse país possui.

Termino com um trecho de uma das crônicas preferidas de Rubem, “O Verão e as Mulheres”:

Sim, as mulheres estão sujeitas a uma grande influência do verão; no bojo do mês de janeiro elas sentem o coração lânguido, e se espreguiçam de um modo especial; seus olhos brilham devagar, elas começam a dizer uma coisa e param no meio, ficam olhando as folhas das amendoeiras como se tivessem acabado de descobrir um estranho passarinho. Seus cabelos tornam-se mais claros e às vezes os olhos também; algumas crescem imperceptivelmente meio centímetro. Estremecem quando de súbito defrontam um gato; são assaltadas por uma remota vontade de miar; e certamente, quando a tarde cai, ronronam para si mesmas.

Sou jornalista e desde 2003 escrevo sobre música, cinema, literatura e outros assuntos em diversos veículos digitais e impressos. Fundei a Movin' Up em 2008. Publiquei os livros "Meu Mundo é Hoje" e "11 Rounds", de contos e "Latitude 19 & Outros Hematomas" (crônicas e poemas).

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Published in Destaques Livros