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Como o Deafheaven salvou o black metal da insignificância

Por Maurício Angelo

O final dos anos 90 e início dos anos 00 foram anos terríveis para o black metal. Coisas como Cradle of Filth, Dimmu Borgir e seu (sic) “black metal sinfônico” dominavam o estilo, tudo na velhíssima cartilha de muito corpse paint, spikes pra todo lado, letras com a qualidade de um adolescente de 12 anos, pose de mau e som mais genérico que qualquer coisa. O resgate das tradições, do estilo e do som de um Bathory, mais atmosférico e folk, ficava a cargo do excelente Agalloch, que lentamente cravou seu nome entre os melhores da história do black metal. Era, no entanto, coisa de nicho, para aficionados. E se os créditos para iniciar essa mistura de black metal com shoegaze, post-rock e outras coisas seja dos franceses do Alcest (e os vários projetos de Neige), foi o Deafheaven que levou tudo a outro patamar e mudou o jogo.

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O responsável por isso foi “Sunbather”, o disco de 2013 que revelou a banda ao mundo, expandindo e aperfeiçoando a fórmula do primeiro álbum, o também ótimo “Roads to Judah”. Sai a indumentária ridícula pra assustar mãe de moleque, as capas sombrias e de fontes indefiníveis, os acessórios de palco, enfim, todo o circo do black metal para focar no que importa: a música. Cinco caras normais de San Francisco tocando o que gostam de tocar, com suas angústias existenciais, sua postura “normcore”, tão agressivo quanto qualquer outra coisa e muito mais belo e mais inteligente que a média.

Em um meio tão retrógrado e refém dos seus delírios de “verdade” e “tradição” quanto o metal, ainda que, paradoxalmente, seja um dos estilos mais polivalentes que existem, fundindo-se com dezenas de outras possibilidades, a mera capa rosa e cool de “Sunbather” é motivo suficiente para celeuma. O Deafheaven logo tornou-se a banda que os “headbangers tradicionais” adoram odiar e, também, a banda que levou o black metal para muito além do seu mundinho.

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Quebrando as barreiras, a banda atingiu todo um novo público e uma nova mídia. Convidada para festivais alternativos e tocando para uma audiência longe do esperado no metal, recebendo atenção de sites e veículos que davam pouco ou nenhum espaço para a música mais pesada, o Deafheaven salvou o black metal da insignificância absoluta, da condenação de ficar restrito ao que sempre foi. Adicionou cor, vida e musicalidade a um estilo cansado, quase incapaz de apresentar novidades. Um ótimo exemplo é este show no Pitchfork Music Festival aí acima. Entre banda e público, quase nada se assemelha ao que se espera do black metal. Que bom.

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“New Bermuda”, o novíssimo disco, é outro testamento do que de melhor a música extrema pode oferecer em 2015. Pouquíssimas bandas são capazes de escrever uma faixa de abertura como “Brought To The Water” e seus riffs magníficos, mudanças de andamento, “wall of sound” de melodia, solos em crescendo, cozinha afinada e os vocais rasgadíssimos de George Clarke. O Deafheaven mudou pouco. E não poderia ser diferente.

As 5 músicas do disco, todas entre 8 e 10 minutos, vão fundo na fórmula que os consagrou. Ora mais cadenciada e melodiosa, como a espetacular “Baby Blue” e seu slowcore, explodindo em tensão e riffs “gordos” pela metade, seja em “Luna”, “Come Back” e “Gifts For The Earth”. Mais conciso, “New Bermuda” mostra uma banda chegando ao ápice. Cinco caras que saíram de uma vida de merda em San Francisco para o “mainstream” do máximo que uma música tão pesada quanto a deles pode proporcionar. Recomendo fortemente essa matéria.

Claro, o Deafheaven não reinventou a roda. Mas usa muitíssimo bem os clichês de todos os estilos, influências e ambições diversas para criar algo genuíno e excelente. É bem mais do que normalmente se tem.

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Sou jornalista e desde 2003 escrevo sobre música, cinema, literatura e outros assuntos em diversos veículos digitais e impressos. Fundei a Movin' Up em 2008. Publiquei os livros "Meu Mundo é Hoje" e "11 Rounds", de contos e "Latitude 19 & Outros Hematomas" (crônicas e poemas).

Published in Destaques Reviews de Cds