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Eletronika 1º dia: moda, hype e cult. Música depois.

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O Festival Eletronika começou ontem em Belo Horizonte com o clima “muderno-neo-cool-descolado” que se esperava. O lounge do Grande Teatro do Palácio das Artes (palco mais “chic” da cidade por excelência), mais parecia um desfile de moda indie com toques orientais que qualquer outra coisa. Música? Se sobrasse tempo. Assim parecia pensar a maioria dos presentes.

Exagero. O público, composto metade por convidados, 40% de parentes e amigos da Fernanda Takai e o restante pelo mini-fã clube local do Vanguart (ou seria um ônibus que teria vindo do Mato Grosso?) também prestou atenção aos shows além de desfilar.

O clima talvez tenha sido influenciado pela presença de Maki Nomyia, ex-vocalista da banda cult japonesa Pizzicato Five – o tipo de banda que ninguém conhece mas que é bacana dizer que sim, fazendo coro com a presunção/blasé-hipócrita que costuma acompanhar este tipo de coisa. Engraçado ver como um grupo desconhecido logo toma ares de “clássico alternativo” quando o “conhecimento acerca de” passa ser necessário para público e imprensa. Afinal, com uma busca no google qualquer um se torna especialista e passa a falar como se tivesse vivido intensamente a vida noturna de Tokyo nos anos 90, considerando o P5 um daqueles “melhores grupos injustiçados” e/ou naquela coisa de “eu sou mais cult que você”. Não acredite no hype. Ou faça o seu próprio. Ou esqueça de vez essa bobagem. A crítica musical se resume muito mais a pesquisa e blefe que por leitura, vida e audição.

Fernanda abriu o evento com o jogo ganho: o CD é bom, estava tocando em casa e a platéia totalmente favorável. Não decepcionou. Sua persona “wannabe Nara Leão” na verdade serviu apenas para mudar o repertório. Mesmo assim, as releituras de músicas símbolo da MPB entregam tanto de Takai quanto o Pato Fu. Com a diferença de que, solo, Fernanda pode brincar com outras referências que não ganham tanto destaque na banda.

Todos devidamente sentados, luzes apagadas, a intro deu o tom: ecos nítidos de Air (aquele duo eletrônico francês) em arranjos mais acelerados, teclados etéreos e equilíbrio na medida entre o grau de exotismo moderno e a brasilidade da bossa, chorinho, baião e MPB. Pretensioso às vezes – como em “Luz Negra”, de Nelson Cavaquinho, “Odeon”, de Vinícius de Moraes e “Seja O Meu Céu”, de Robertinho de Recife – e deliciosamente acertado quando consegue atingir o ponto, caso de “Diz Que Fui Por Aí”, de Zé Keti, “Insensatez”, de Tom Jobim e “Debaixo Dos Caracóis Dos Seus Cabelos”, de Roberto Carlos. Mas, mesmo quando exagera, tudo com um inegável bom gosto.

Com tempo tranqüilo para que todas as músicas de “Onde Brilhem Os Olhos Seus” fossem executadas, o set-list trouxe a improvável inclusão de dois hits da new wave: “There Must Be An Angel”, do Eurythmics e “Ordinary World”, do Duran Duran, duas das mais grudentas músicas da época. E se eram improváveis pelo repertório calcado na MPB, não o são pelo estilo de Fernanda, totalmente oriundo do estilo, cortado os exageros anormais da década.

Maki entrou com um modelito típico do que se vê na moda japonesa e cantou, claro, “Made In Japan”, do Pato Fu, “Sweet Soul Revue” e “Twiggy Twiggy” (com suas coreografias engraçadinhas) do Pizzicato Five e a versão para “O Barquinho”, de Roberto Menescal, que virou “Kobune”. Bacana e divertido, mas nada de mais.

Fernanda reassumiu o espetáculo sozinha e seguiu com as versões até encerrar, obviamente ovacionada. Sim, a menina é boa, canta bem e tem estilo. Mas Takai sempre me soou como demasiadamente sem sal, tão boazinha e forçosamente cômica, que às vezes irrita. Compromete, mas não estraga um talento e dedicação que não dá pra negar.

No intervalo para o show do Vanguart, dois terços do público voltou para casa e restou o ônibus do Mato Grosso, poucos curiosos e parte da imprensa. Na verdade prefiro acreditar que a internet, o MySpace e congêneres conseguem, de fato, criar algo que se possa chamar de “público”, ainda que reduzido, que vai aos shows, cantam as músicas e curtem a banda. E os rapazes provaram que não são só “Semáforo” e “Cachaça”, conseguindo levar um concerto com decência até o fim. Mas não o suficiente, contudo.

É o folk de boteco tupiniquim querendo ser britânico. Muito esforço e pouco tempero próprio.

Hoje, 29, o festival promete atrações mais experimentais e a aguardada interpretação do coletivo Instituto para a obra “Racional”, do Tim Maia.

Jornalista investigativo, crítico e escritor. Publico sobre música e cultura desde 2003. Fundei a Movin' Up em 2008. Autor de 3 livros de contos, crônicas e poemas. Vencedor do Prêmio de Excelência Jornalística (2019) da Sociedade Interamericana de Imprensa na categoria “Opinião”. Finalista do V Prêmio Petrobras de Jornalismo (2018).

Published in Reviews de Shows