Skip to content →

BaianaSystem: sincretismo musical

Grata surpresa o show do BaianaSystem em Brasília, durante a Feira Brasil Rural Contemporâneo (diga-se, um dos eventos do tipo com melhor estrutura que já vi na vida). O som do grupo soteropolitano se beneficiou também do local: a revitalizada Concha Acústica, a beira do Lago Paranoá, um dos mais bacanas espaços para shows de Brasília, praticamente abandonada nos últimos anos.

O palco, amplo e com dois telões de alta definição igualmente privilegiaram as intervenções artísticas de Felipe Cartaxo, fundamentais na identidade visual do grupo. Ao vivo, o que se viu foi a boa combinação da guitarra baiana (instrumento criado e adaptado por Dodô e Osmar, que se tornou símbolo do carnaval baiano) com o “soundsystem” do dub, o hip-hop, a percussão, o berimbau, muita influência da música negra africana e o que mais puder contribuir.

Entram no caldo o kuduro, dancehall, ragga, a guitarrada paraense, o som do recôncavo baiano e certo improviso. O resultado é uma massa sonora dançante, envolvente, única e por vezes até psicodélica. “BembaStyle”, como os próprios dizem. Com disco de estreia quente na praça, a trupe de Robertinho Barreto faz o diabo no palco. “SystemaFobica.ubaranamaralina” reúne tudo o que foi dito acima e ainda conta a boa participação de BNegão nos vocais, também presente em Brasília. BN, aliás, sempre escolhe bem suas participações (Curumin, etc) e consegue acrescentar algo no projeto dos parceiros. “Da calçada pro Lobato” é deliciosamente regional, que exala tempero próprio, fazendo carnaval fora de época em qualquer lugar.

Robertinho, ex-Lampirônicos, se juntou a comparsas como Lucas (outro nome de destaque na cena), Marcelo Seco, Mamá Soares, Kaboduca e Russo Passapusso. É o resgate das melhores tradições da música baiana subvertida e banhada com cores e tons “atuais”, de influências diversas, sem receio de assumir o popular. “Oxe, Como Era Doce”, não à toa, foi escolhida como primeiro videoclipe:

Ali, naquele ambiente, o som do Baiana reverberava forte, conquistando os incautos e convertendo os mais céticos. É absolutamente animador ver um grupo desse gabarito e com essa qualidade processar a música brasileira, africana (separação praticamente desnecessária), latina e um sem número de vertentes com enorme propriedade. A autêntica vanguarda popular que merece ser acompanhada de perto.

Fotos: Tamires Kopp/MDA

Sou jornalista e desde 2003 escrevo sobre música, cinema, literatura e outros assuntos em diversos veículos digitais e impressos. Fundei a Movin' Up em 2008. Publiquei os livros "Meu Mundo é Hoje" e "11 Rounds", de contos e "Latitude 19 & Outros Hematomas" (crônicas e poemas).

Matérias Relacionadas

Published in Destaques Reviews de Shows