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Godspeed You! Black Emperor no ATP Londres

Erick Cruxen, guitarrista do Labirinto e dono da casa Dissenso em São Paulo, esteve no All Tomorrow’s Parties – também conhecido como um dos melhores festivais do mundo – para ver nada menos que o mastodonte Godspeed You! Black Emperor, uma das bandas chave dos últimos 15 anos, após um longo período fora dos palcos. E relatou pra gente a experiência de ver 4 shows da banda em 1 semana. (MGA)

ATP – Londres – Godspeed You! Black Emperor – 3 a 5 de dezembro / Manchester – 7 de dezembro.

O dia em que paramos de sonhar

Texto e foto: Erick Cruxen

Toda pessoa apaixonada e dependente de música sonha em ver seu artista favorito tocando em um show de verdade. Quantos fãs dos Beatles, espalhados pelo mundo, não se imaginaram cantando com o quarteto de Liverpool em uma apresentação hipotética. E admiradores do Led Zeppelin, vendo os solos do Page, e tocando junto com o Bohan. Quantos não se imaginaram junto aos protagonistas das mais prazerosas viagens oníricas? Pois é, esse também era um dos nossos maiores sonhos.

Desde que escutamos Yanqui U.X.O. pela primeira vez, no fim de 2002, sabíamos que nossa percepção musical nunca mais seria a mesma, e não foi.

Da forma mais precisa possível, uma banda canadense nos mostrou como se poderia engendrar músicas belíssimas, ricas em informações (instrumentais, harmonias, dinâmicas) e ao mesmo tempo, contestatórias e amplamente revolucionárias. Há 8 anos e, posteriormente, quando a banda se aposentou, sonhávamos em assistir a uma apresentação do Godspeed You! Black Emperor.

E o sonho ganhou contornos verídicos, quando o Festival “All  Tomorrow Parties” (ATP), que acontece em diversas cidades dos EUA e Europa, convidou nossos amigos canadenses para tocar e selecionar todas as bandas que se apresentariam no evento. O GY!BE não só faria um show, mas organizaria toda a curadoria do festival. Perfeito.

Sem pestanejar, e com outras obrigações a serem executadas no Reino Unido, partimos para Minehead, uma cidade litorânea, a 3 horas de Londres.  Com o inverno europeu não dando trégua, as paisagens e o clima deixavam as expectativas dos 3 dias de festival, mais bucólicas e surreais.

O local onde foi organizado o festival, digno de menção, era um imenso resort costeiro, onde o público ficava alojado, assim como as bandas. Um gigantesco pavilhão central abrigava 4 palcos, restaurantes, lanchonetes, banheiros,  fliperamas, banca de cervejas, e merchandise das bandas. Toda estrutura e organização muito bem pensada e executada. Não existiam áreas vips; e público, artistas, fotógrafos, jornalistas e gravadoras conviviam harmonicamente nos mesmo espaços. Uma sensação completamente diferente de qualquer festival que frequentamos no Brasil.

Chegamos no dia 3 de Dezembro, sexta-feira, pela manhã. A partir das 16h começaram as apresentações. Após assistirmos a alguns shows medianos como  Black Dice e Growing, conhecemos o The Berg Sans Nipple, um excelente duo que mescla sintetizadores analógicos à bateria, e a diversos outros instrumentos de percussão. Muito bom.

Se aproximava a hora da atração principal da noite. Uma fila se formou no saguão central, em direção a entrada da escadaria que levava ao palco superior, onde o GY!BE se apresentaria. Pessoas de diversos países começavam a preencher os espaços físicos do local, diversos idiomas se misturavam. Os palcos funcionavam simultaneamente sem nenhuma intromissão sonora. Mais de 1 hora e começamos a subir. Todos na fila pareciam estar nervosos, ansiosos, prestes a ter um grande sonho realizado.

Quando adentramos ao salão, a banda já estava construindo ambiências.  A violinista Sophie e os guitarristas Efrim e David em cima do palco, iniciavam, o que viria ser, para gente, o maior espetáculo da terra. Ficamos em frente ao palco, que era baixo e próximo ao público, “colados” na banda. Perplexos, não acreditávamos que já estávamos assistindo a nossa banda predileta. E o restante do grupo foi entrado ao poucos, cada um assumindo seu instrumento. Ao som dos primeiros arpejos executados pelo excepcional David Byrant, a emoção nos contaminou, fazendo-nos cantarolar todas as melodias até o final do show. Foi algo inacreditável, além da atuação magistral da banda, o som e as projeções de imagens no palco eram impecáveis. Entre arpejos, explosões e linhas de violinos magníficas, nós os sonhadores, entreolhávamos em uma solidariedade, que só sentimentos tão nobres como os produzidos pela música, podem provocar. Era êxtase, catarse a cada melodia, desferida pelo octeto (três guitarras, duas baterias, dois contrabaixos e um violino)

As belíssimas ambiências e turbilhões sonoros eram intercalados aos spoken words (falas, poesias e discursos pré gravados) que interagiam perfeitamente com as imagens Avant Garde projetadas atrás da banda. Aliás, no circuito de televisão dos quartos, existia um canal “Godspeed” com filmes experimentais selecionados pela banda, funcionando ininterruptamente. Além do canal de televisão, a banda organizou uma mostra de cinema, e um clube  de leitura com debates sobre livros sugeridos por eles. Genial.

Esse trânsito do GY!BE por outras esferas culturais, além da música, demonstra a temeridade de quem enxerga no grupo, apenas o aspecto artístico/estético, negligenciando os pontos políticos e multicuturais. Um “pecado” semelhante, ao de rotulá-los, apenas, com definições insípidas  e simplistas, como rock.

Em duas horas de show, o GY!BE nos presenteou  e ensinou muitas coisas. Ao vivo a banda é magistral.  As músicas soam mais intensas, pesadas e belas. As baterias ganham muito mais força e destaque, uma deficiência (ou escolha?) nas gravações da banda. Os dois contrabaixos alternam momentos de delicadeza e potência grave, oscilando entre o eletrônico e o acústico. O violino de Sophie é digno de uma apreciação a parte; linhas espetaculares, que nos comovem, executadas sublimemente. Em certos momentos, ele se mescla às guitarras e a infinidade de pedais de efeitos, que comandam as ambiências, e as estruturas das músicas.

Pudemos verificar mais um costumeiro erro dos ouvintes do GY!BE. Quase todos os créditos da banda são atribuídos ao excelente guitarrista Efrim Menuck. Contudo, verificamos que um dos “grandes destaques” do Godspeed, atende-se por David Bryant. São dele os riffs , os arpejos, as linhas de guitarras mais belas e marcantes,  que comandam toda estrutura da música; aliadas ao violino de Sophie. Essa confusão, em grande parte, se manifesta, pela proibição de fotógrafos oficiais em seus shows, e a distância que a banda mantém da imprensa formal. David produz trilhas sonoras para peças de teatro, filmes e exposições.

Presenciamos mais dois shows do GY!BE no ATP, e mais um em Manchester.  Foram semelhantes, alterando algumas músicas, como a inclusão de Dead Flag Blues/East Hasting (nossa predileta) no segundo dia do festival.

Em todos, existia uma histeria coletiva, onde o público gritava e pedia mais músicas no final, apesar das duas horas e pouco de apresentação da banda. Mas, um show do GY!BE, antes de mais nada, é uma sinfonia, que termina como começou, sem direito a repetecos.

Conversamos com os três guitarristas da banda (David, Efrim e Moya). Extremamente solícitos, nos questionavam se realmente gostamos dos shows. Se surpreenderam por virmos de tão longe para assisti-los, e manifestaram um sincero desejo em tocar no Brasil.

Além do GY!BE, contemplamos dois magníficos e épicos shows do quinteto de metal sludge, Neurosis, com músicas extremamente densas e pesadas, sem pausas entre elas; e uma esfuziante, e aclamada apresentação do The Ex, com direito, a presenciar o pessoal do GY!BE dançando no palco, e levando os caras de volta para o bis.

Tocaram também no festival Daniel Higgs, No Means No, Weird Al Yankovic, Mike Watt & The Missingmen, Cluster, Emeralds, Wolves in the throne room, Oneida, Philip Jeck, Josephine Foster, Tim Hecker, entre outros menos marcantes (ao total foram 46 bandas/projetos).

Enfim, nem em nossos mais perfeitos sonhos, imaginávamos  tamanha realidade de prazer e satisfação. Não precisávamos mais sonhar, o real fora muito melhor.

Setlist

Godspeed You! Black Emperor

Dia 3/12  ATP-Minehead – Gathering Storm- Monheim – Albanian – Dead Metheny – World Police – Rockets Fall on Rocket Falls – Motherfucker = Redeemer – BBF3

Dia 4/12  ATP-Minehead Albanian – Gathering Storm,-Moya,-Static,-Rockets Fall on Rocket Falls, Dead Flag Blues-East Hastings-The Cowboy – The Sad Mafioso

Dia 5/12 ATP Minehead: Dead Flag Blues – Dead Metheny – Chart #3 – World Police – Albanian – She Dreamt She Was a Bulldozer, She Dreamt She Was Alone in an Empty Field – Moya – BBF3

Dia 7/12 Manchester Academy 1 Hope Drone- Gathering Storm-Monheim-Albanian-World Police and Friendly Police-Chart3-Dead Metheny- Rockets Fall on Rocket –Falls-BBF3

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