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Hallogallo: show histórico em BH

Criado em 1999, o sempre foi a “reserva alternativa” de Belo Horizonte. Focado em “apostar tendências”, criar “pontes culturais” com outros países, etc, o festival se caracterizou por ser “moderno” e por trazer à cidade bandas que não teriam a oportunidade de normalmente pisar aqui. Apesar da maioria disso se resumir a grupos suspeitos do hype mundial com muito mais oba-oba que música (caso do Tanlines) em 2010, não raro shows históricos acontecem: como o Mogwai em 2002 e o Hallogallo desta feita.

Para os amantes do progressivo, o Neu! foi uma das mais significativas bandas dos anos 70, lançando pelo menos 3 álbuns clássicos entre 72 e 75. Michael Rother e Klaus Dinger saíram do Kraftwerk em 71 e acabaram influenciando o som do próprio grupo, como visto em “Autobahn”, de 74. Dinger faleceu em 2008, deixando Rother como o único remanescente. Para quem não é fã de , basta dizer que o Neu! influenciou dezenas de ícones: David Bowie, Iggy Pop, Hankwind, DEVO, Sonic Youth, Stereolab, Radiohead, U2, Wilco, Primal Scream e vários outros. O Hallogallo 2010 é a personificação do legado do Neu!. Rother recrutou o baterista Steve Shelley, do Sonic Youth e o baixista Aaron Mullan do Tall Firs para a empreitada, incluindo faixas da sua carreira solo.

Difícil crer que o comumente forte público progressivo de BH tenha sido informado deste show, para além da barreira alternativa que o evento carrega. Fato é que o Espaço 104 (belo casarão antigo com boa estrutura) recebeu pouca gente no domingo. 200 pessoas devem ter assistido um concerto que marcou história e é, fácil, o melhor do ano na capital mineira.

“Hallogallo”, a música, que abre o primeiro disco do Neu!, não vinha sendo executada desde 1975. Com o trio já tendo se apresentado na Europa e Estados Unidos, o entrosamento e o punch exibidos são únicos, adicionando ainda mais texturas nos 10 minutos originais da composição.

Shelley, naturalmente, adiciona uma pegada absurda. E é nítida sua satisfação por estar ali. O tímido Mullan, quase se escondendo do público, sempre de perfil, faz seu papel brilhantemente. E Rother comanda tudo com extremo domínio atrás de sua mesa de efeitos e guitarra. O setlist, passeando pelo Neu!, o trabalho solo de Rother, faixas do Harmonia, outra banda seminal integrada por Michael nos anos 70 e até uma composição jamais lançada, “Two Oceans”, está muito longe de cheirar a saudosismo.

Trabalho de vanguarda que permanece sólido, a música é hipnótica, pulsante, trabalhando igualmente o noise e a melodia com inteligência e sensibilidade, equilibrando o punch e a calmaria como poucos. Dá pra ver nitidamente como o timbre, as estruturas e a caixa de efeitos de Rother influenciou toda uma linha de bandas.

Rother se limita a apenas apresentar os companheiros no meio do show, agradecer a oportunidade de estar ali e trocar breves palavras com o público. A sensação de estar presenciando algo original, sincero e relevante era legítima. Arrancando saudações tanto dos aficionados quanto dos desavisados ali presentes.

Longe da badalação de outros shows pelo país, o Hallogallo mostrava uma apresentação poderosa, inimitável e histórica. O melhor show que vi em 2010 e um dos melhores da minha vida. Sorte de poucos.

Sou jornalista e desde 2003 escrevo sobre música, cinema, literatura e outros assuntos em diversos veículos digitais e impressos. Fundei a Movin' Up em 2008. Publiquei os livros "Meu Mundo é Hoje" e "11 Rounds", de contos e "Latitude 19 & Outros Hematomas" (crônicas e poemas).

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Published in Destaques Reviews de Shows