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Ms. Lauryn Hill: perdida, mas ainda relevante

Fotos: Gualter Naves / Chevrolet Hall

O que você faz quando chega no topo? Alguns conseguem se estabelecer criativamente no ápice por 5, 10 anos ou mais. A maioria menos. Poucos, no entanto, optam pela reclusão, desaparecendo da mesma maneira como surgiram. Ms. Lauryn Hill atingiu um feito e tanto: lançou dois clássicos instantâneos do hip-hop/R&B na década de 90. “The Score”, do Fugees e “The Miseducation Of Lauryn Hill”, que a deu 5 Grammys numa única edição (algo nunca alcançado por nenhuma outra mulher), tornaram-se ícones imediatos tanto do estilo quanto da música contemporânea, ultrapassando o gueto a que normalmente estavam confinados.

Isto numa década em que era preciso muito mais que batidas genéricas e clips recheados de gente semi-nua, carrões e todo o pacote que virou regra no hip-hop atualmente. A década de 90 viu o surgimento de dezenas de artistas únicos para o hip-hop, todos de criatividade ímpar, reunindo o melhor da herança da música negra. Funk, , R&B, jazz, rock, reggae e o próprio rap se entrelaçavam bem. E ali estava Hill, uma das poucas vozes femininas daquela geração.

Para quem ficou tanto tempo fora dos holofotes, deve ser recompensador observar a força que ainda carrega: o Chevrolet Hall recebeu ótimo público, além talvez das expectativas. Bom para a cidade, quase sempre de recepção imprevisível e que vem se solidificando como a terceira força de shows internacionais no país.

Hill, no entanto, ainda parece meio perdida com o que fazer e como chegar ao seu público. Quando as luzes se apagam e a banda entra no palco, o que aparece é o seu DJ (Rampage),  que ficou quase 1 hora mandando hits atuais ou antigos do hip-hop. E dá-lhe “let’s go, let’s go”, “put your hands in the air”. Seria um “esquenta” aceitável se durasse no máximo uns 15 minutos. Pelo abuso de tempo, deu pra perceber nitidamente a inevitável irritação de quem estava ali para vê-la.

Às 23:20 Lauryn finalmente entra no palco. Com um imenso cabelo cobrindo quase todo seu rosto, de túnica preta gigante, até os pés, e dezenas de jóias douradas pelos braços e pescoço, Lauryn parecia se vestir de uma divindade religiosa. Uma deusa superior. Pelas roupas e pela postura. Por mais estranho que fosse. Mas não demorou para as rimas rapidíssimas tomassem conta do ambiente com “Lost Ones”.

httpv://www.youtube.com/watch?v=7siVSslHPMQ

E apesar da presença e empolgação, a diva parece insegura. A começar pela banda enorme e dobrada: duas baterias (percussão), dois baixos, duas guitarras, teclado/samplers, DJ e três backing vocals. Coisa de quem não está lá muito confortável com a própria performance e acha melhor garantir uma massa sonora intensa por trás para mascarar alguns defeitos. Uma pena. O groove – no máximo que a pegada exagerada dava para transparecer de “groove” – pesadíssimo da apresentação foi o principal problema. A parede de peso retirou toda a sutileza, o swing, a beleza. O vocal sexy, sofisticado e repleto de charme, as construções melódicas envolventes da sua música. Tudo de mais caro à música negra, aquilo que a torna a delícia que é, ficou em segundo plano.

“When It Hurts So Bad” é o melhor exemplo. Foi realmente executada? Tornar-se um cover ruim de si mesmo é o pior a que um artista pode chegar. Assim como “Ex-Factor”, “To Zion” e “Zimbabwe”. Para Lauryn, não se trata de “renovação”, “reinvenção”. De dar “nova cara” à sua obra. O argumento mais fácil de qualquer fã acéfalo. Trata-se apenas de uma opção infeliz. De uma tentativa, como já dito, de disfarçar a força perdida. “Repercussions”, a música nova, também é somente um espectro pálido do que ela já fez.

httpv://www.youtube.com/watch?v=VSQq_mU7jUg

Mesmo com estas ressalvas, é na segunda metade do show que a coisa inevitavelmente engrena. Com os hits do Fugees e dela mesma entrando no jogo, a plateia está ganha, não importa sob qual formato. “How Many Mics”, “Fu-Gee-La”, “Ready Or Not” e “Killing Me Softly” (de Charles Fox e Norman Gimbel) são uma sequencia espetacular, que poucos artistas podem proporcionar com tamanha intensidade.

Pra fechar, outras duas pepitas: “Turn Your Lights Down Low” (de Bob Marley) e “Doo Wop (That Thing)”, deixando um gosto final muito melhor que o do início. Ainda que se enrole em suas próprias escolhas, Hill tem cacife suficiente pra saber como encerrar no ápice. Mesmo privilegiando o peso e a velocidade, cercada de mais gente do que o necessário e com a voz distante do que já foi, Hill consegue ser Hill. E aparentemente o público de BH teve mais sorte, já que o atraso aqui foi menor que em Florianópolis, Rio de Janeiro e São Paulo e o som do Chevrolet Hall se manteve bom a maior parte do tempo.

httpv://www.youtube.com/watch?v=dE6Qcc6VDo8

Mesmo com tantos deslizes, difícil disfarçar o prazer de vê-la no palco, de volta, lentamente recuperando a forma nos últimos anos. Talvez seja o impulso necessário para que ela decida entrar novamente em estúdio e, quem sabe, produzir outro disco acima da média. Precisamos urgentemente de vida inteligente no R&B, que não pode se dar ao luxo de ver um dos seus maiores talentos numa aposentadoria precoce.

Sou jornalista e desde 2003 escrevo sobre música, cinema, literatura e outros assuntos em diversos veículos digitais e impressos. Fundei a Movin' Up em 2008. Publiquei os livros "Meu Mundo é Hoje" e "11 Rounds", de contos e "Latitude 19 & Outros Hematomas" (crônicas e poemas).

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Published in Destaques Reviews de Shows