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Otto: estranhamente contido e no ápice

Quando vi Otto pouco menos de 3 meses atrás em Brasília (texto aqui, importante para o que vem a seguir), a performance do rapaz foi algo da porra louquice costumeira com uma dose bem extra de álcool, tesão e uma vontade fortemente expressa de encarnar o “guia das multidões”. Otto discursou longamente por diversos momentos, contou histórias, divagou, proferiu pensamentos desconexos, desejos, dúvidas. Na Concha Acústica, a céu aberto, com palco enorme e público pelo menos acima de 8 mil pessoas, clima bem diferente de uma casa pequena como o Lapa Multishow.

Fora o ambiente e descontado que cada dia e cada momento é naturalmente diverso, minha curiosidade era ver as diferenças entre dois shows tão próximos mas tão diferentes. No fim da pouco mais de 1 hora de show, a sensação é de que Otto se acanha, curiosamente, em espaços menores, para público reduzido. Curioso mas compreensível. Fora a atração natural que um cenário megalomaníaco e uma sensação maior de poder costuma causar nas pessoas, Brasília tem uma capacidade incrível de abarcar a tudo e a todos com seu clima. A capital do país mexe com as pessoas.

Talvez puro devaneio meu. Talvez apenas uma disparidade normal entre dois shows. Talvez efeito da febre que ele disse sentir durante o dia, que naturalmente deve sumir durante o show. Mas se perde em loucura, ganha em proximidade. O swing que emana do palco chega mais forte. A batida afro-pop-mpb-eletro-rock de Otto consegue sempre transformar qualquer lugar num terreiro. É essa característica tão inconfundível e irresistível do que é negro: ninguém fica inerte. É uma comunhão. Quase um rito. Delicioso, de ótima energia. É a brancura-black desse pernambucano que provavelmente vive o melhor momento da sua carreira.

Sobre a banda, nada a que objetar: Catatau é “o” guitarrista dessa geração, Boca, Bactéria e Pupillo sabem exatamente o que fazem e possuem completa sintonia com o mestre. Vendo-o ao vivo pela segunda vez na turnê do atual disco, qualquer dúvida se dissipa. A certeza é que “Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranquilos” será sempre repleto de ótimas canções, digno de figurar nos melhores da última década e que só ganha força no palco.

“Filha” (hino instantâneo e a invocação  do “aqui é festa amor, e há tristeza em minha vida”), “Janaína”, “Crua” (com o peso das letras e do que uma novela das 8 traz), “Saudade” – uma das minhas preferidas – a ótima releitura de “Naquela Mesa”, a causticante “Seis Minutos”, “Agora Sim”. Como o show de Otto era menor antes desse disco. Das pérolas de obras passadas vem “Lavanda”, a delicinha cover de “Para Ser Só Minha Mulher”, “Low”, “Cuba”, a provocativa “Condom Black (Stop Play)” – a preta qué um filin, e eu um filin com a preta, no condom black é assim, é pau, é cu, é buceta, vamo lá – “Ciranda de Maluco”, clássico da primeira fase e “O Celular de Naná”, pra terminar na vibe black, ritualística, original.

Quando entrevistei Otto, em janeiro, ele disse: “Sou um cara que cria sangrando. Realmente existe uma entrega à arte. Muita gente talvez ache isso que digo um insulto. Mas existe magia, equilíbrio e harmonia. Adoro dançar, cantar, responder, pensar, fazer a gira girar. Minha música tá só começando. Minha energia não acaba nunca.”

Esse é o espírito. Não tem como não respeitar. Otto é alguém que não conhece meio-termo, não tem pudor, não esconde seus sentimentos e sua loucura, mais lúcida, no fim, que a mediocridade reinante. Me identifico sobremaneira com gente assim. Isso tudo em forma de boa música. Com a capacidade inegável de curar. Nunca é demais.

Fotos: Divulgação

Jornalista investigativo, crítico e escritor. Publico sobre música e cultura desde 2003. Fundei a Movin' Up em 2008. Autor de 3 livros de contos, crônicas e poemas. Vencedor do Prêmio de Excelência Jornalística (2019) da Sociedade Interamericana de Imprensa na categoria “Opinião”. Finalista do V Prêmio Petrobras de Jornalismo (2018).

Published in Destaques Reviews de Shows