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A primeira Virada

Nunca tinha tido a oportunidade de conferir uma edição da Virada Cultural. Já no seu oitavo ano, o evento paulista vem carregando ataques de vários lados, seja pela política cultural debilitada, pela falsa revitalização do centro de São Paulo – que se restringe apenas a um dia – as centenas de atrações de gosto duvidoso. De longe, parecia um monstrengo confuso, arriscado, com muito perrengue e pouca vantagem. Nem tanto.

Fora as críticas que a administração Kassab merecidamente recebe, há que se louvar pelo menos a capacidade de realizar um evento tão gigantesco – este ano com quase 900 artistas – e público estimado em 4 milhões de pessoas. É um trabalho de logística assombroso. E que, grosso modo, ainda teve shows pontuais. A “lei seca” de Aquassab foi sumariamente ignorada pelo público, ambulantes e a polícia.

No sábado infelizmente cheguei tarde no Skatalittes e não foi possível se aproximar do palco. Pena, porque amo ska, dub, etc e já é a segunda ou terceira turnê deles pelo Brasil que perco. Rodar pelo centro de SP, o que inclui a cracolândia e um sem número de ruas e vielas “pouco amistosas” em condições normais – é o que se pode chamar de “experiência sociológica” curiosa.

httpv://www.youtube.com/watch?v=vsg-zH32U5k

Não dá pra esperar muita paz quando se enfia no meio de milhões de pessoas num evento gratuito numa grande metrópole. Ainda assim, foi bem mais tranquilo do imaginava. Praticamente não vi nenhuma ocorrência grave. E tampouco brigas. Com o Skatalittes de longe, fomos para o palco Júlio Prestes pegar a apresentação de Slim Jim Panthom, lendário baterista do Stray Cats, uma das principais bandas rockabilly da história. Panthom fez bom show, deleite para fãs do estilo. Depois dele o espaço foi sendo lentamente ocupado por hordas loucas para conferir o ‘”horror punk” do Misfits.

httpv://www.youtube.com/watch?v=fYr1E6Sz1-8

Se a banda atualmente é um frankestein qualquer, tendo apenas Jerry Only dos tempos áureos, enquanto Glenn Danzig segue com o Danzig lançando álbuns quase ignorados pela crítica (o último, razoável, é do ano passado), ao vivo a coisa ainda funciona e a veia punk fala alto. Do que pude conferir, foi aquela onda saudosista como se ainda estivéssemos em 79. Parece que ninguém achou ruim.

httpv://www.youtube.com/watch?v=bGQc7GPW6kE

No sábado, juntei forças para encarar o Mad Professor + Marty Dread no Palco São João. A lenda do dub leva tudo na maciota, com alguns convidados e a classe de sempre. Vale pela história. Apesar da vontade de conferir o Soft Machine Legacy, resolvi ficar por ali mesmo e dar uma chance pro Steel Pulse, banda de reggae inglesa formada nos anos 70 que tem ótimos discos no currículo. E não me arrependi. David Hinds, o vocalista, membro da formação original, é um monstro ao vivo. O som estava espetacular, alto, nítido e equilibrado. A banda de apoio tocando muito, com vontade, garra, tesão, num reggae pesado, de swing contagiante.

Clássicos como “Steppin’ Out”, “In Your House”, “Babylon Makes The Rules” e “Roller Skates” não faltaram. 1 hora e 30 minutos de delírio puro, num show intenso de nível altíssimo.

httpv://www.youtube.com/watch?v=adQS-nH0Jps

Como disseram por aí, se Bob Marley é o “Beatles” do reggae, o Steel Pulse pode ser considerado o Led Zeppelin da coisa toda. Tudo pra ficar entre os melhores shows do ano. Ainda peguei o início do show do Paulinho da Viola com a orquestra de cordas de Curitiba no Palco República. Mas o som extremamente baixo – levando o público a reclamar por várias vezes – desanimou. Paulinho é um autêntico gênio do samba – já comentado aqui quando do show em Brasília.

httpv://www.youtube.com/watch?v=7AtgZZSLkBQ

Na volta pra casa, o metrô (que funcionou 24 horas) estava naturalmente abarrotado mas nada que não desse para administrar. Minha impressão da primeira Virada Cultural que confiro foi positivo, com todos os problemas, gargalos e falhas que a magnitude que um evento desse porte impõe. Transformar isso numa política cultural séria, ampla e permanente seria muito mais saudável.

Jornalista investigativo, crítico e escritor. Publico sobre música e cultura desde 2003. Fundei a Movin' Up em 2008. Autor de 3 livros de contos, crônicas e poemas. Vencedor do Prêmio de Excelência Jornalística (2019) da Sociedade Interamericana de Imprensa na categoria “Opinião”. Finalista do V Prêmio Petrobras de Jornalismo (2018).

Published in Destaques Reviews de Shows