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Galaxie 500: no covil dos indies

Como a sua influência maior, o Velvet Underground, o Galaxie 500 é uma dessas bandas que surgiram no tempo certo, lançaram bons discos, fizeram pouco barulho na época e rapidamente começaram a servir de influência direta ou indireta para dezenas de grupos que apareceram depois. Se, como o próprio imaginário pop brinca, “todas as 200 pessoas que compraram os discos do Velvet na época formaram uma banda depois”, dá pra dizer que todas as 20 que gostaram do Galaxie 500 também seguiram essa linha.

São escancarados os traços de Velvet & Reed e também Joy Division, colocados num plano mais minimalista, de vocal etéreo soterrado por efeitos e reverbs, momentos de calmaria e explosão, covers cuidadosamente escolhidos e toda uma identidade sonora essencial ao shoegaze, slowcore, low-fi, dream pop, etc. É esse legado que Dean Wareham trouxe para São Paulo, no seu projeto atual “Dean & Britta”, com músicas dos três discos do Galaxie 500, “Today” (88), “On Fire” (89) e “This Is Our Music” (90).

Um SESC Pompéia com ingressos esgotados, numa noite de forte calor e que, apesar de reunir a “velha” guarda do indie, uma galera mais tranquila e menos blasé – generosamente falando – ainda conservou péssimos e antigos hábitos do público paulistano, como as conversas incessantes durante o show. O que atrapalha consideravelmente a experiência com o som forçosamente baixo do SESC e numa música mais “low profile” como a do Galaxie 500.

Alheio a tudo isso, Dean Wareham, a esposa Britta Phillips e cia entraram no palco com “Flowers” e “Pictures”, justamente as duas primeiras faixas do disco de estreia do Galaxie. As coisas começaram a engrenar mesmo com “When Will You Come Home” onde fica evidente uma das estruturas preferidas do grupo: deixar a primeira parte da música construir uma camada harmônica lenta e progressiva até explodir numa semi-porrada contida, cheia de efeitos, certa aura de improviso, alguns solos tímidos e bases mais pesadas.

Fórmula conhecida e estabelecida – não menos adorável e sempre eficaz ao vivo – como é o caso de “Decomposing Trees”, “Summertime” e a cover de Jonathan Richman (que fez elogiado show nesse mesmo SESC em 2010), “Don’t Let Our Youth Go To Waste”.

httpv://www.youtube.com/watch?v=hJG_nqVGrZ0

Nesses momentos – e em tantos outros – o nível do baterista prejudica a experiência, ficando abaixo do punch e da alma de Damon Krukowski, o baterista original do Galaxie 500, que segue em carreira com o outro membro do trio de estreia, Naomi Yang, até hoje lançando discos. O mais recente é “False Beats And True Hearts”, deste ano.

Já canções especialmente mais calmas e viajantes como os singles “Blue Thunder” e “Tugboat” evidenciam a voz envolvente de Wareham, despejando as angústias indie’s. “Listen, The Snow Is Falling”, de Yoko Ono, é a vez de Britta Philipps assumir os holofotes, numa belíssima e extendida versão.

httpv://www.youtube.com/watch?v=pe40aOcz2Nw

O “hit” “Fourth Of July” veio antes do bis, para uma apresentação que já superava as expectativas da maioria ali, aparentemente daquelas ainda interessadas no show.

httpv://www.youtube.com/watch?v=TeEdeMnLpSo

O fim veio com “Moon Palace” e a excepcional “Ceremony”, do Joy Division. 1 hora e 20 minutos de uma nostalgia saudável, revisitando muito da essência da música alternativa feita no mundo nos últimos 20 anos.

httpv://www.youtube.com/watch?v=gN1DEAYUeW8

Britta Phillips & Dean Wareham Setlist SESC Pompéia, São Paulo, Brazil 2011

Sou jornalista e desde 2003 escrevo sobre música, cinema, literatura e outros assuntos em diversos veículos digitais e impressos. Fundei a Movin' Up em 2008. Publiquei os livros "Meu Mundo é Hoje" e "11 Rounds", de contos e "Latitude 19 & Outros Hematomas" (crônicas e poemas).

Published in Destaques Reviews de Shows