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Tears For Fears: baile da saudade sem cheiro de mofo

Fotos: Gualter Naves / Chevrolet Hall

Uma das bandas que mais fortemente encarnam o espírito do pop oitentista, o Tears For Fears tinha tudo para soar datado no pior sentido do termo. Os clips de “Everybody Wants To Rule The World”, “Shout” e “Head Over Heels”, que os transformaram em uma das primeiras estrelas da MTV na década de 80 exalam isso.

Aquele pop meloso e açucarado, no entanto, também representava uma banda de sintonia fina, para usar um clichê. Pop mainstream sofisticado no máximo que um som para as rádios permite. Os vocais marcantes de Roland Orzabal, uma das melhores vozes da sua época e Curt Smith, trabalhando em função de melodias calcadas no piano, refrães grudentos e harmonias que os colocam como um dos exemplos do pop perfeito.

E se os anos 90 ficaram marcados pela separação litigiosa da dupla central do TFF e dois discos fracos (“Elemental” e “Raoul And The Kings Of Spain”, na verdade dois solos de Orzabal), os dois resolveram as diferenças (leia-se “podemos nos suportar trabalhando juntos novamente e faturando uma grana”) lançando o bom “Everybody Loves a Happy Ending”, em 2004. Disco, que, aliás, teve 4 músicas executadas nos shows: desde a faixa título, totalmente calcada em Beatles até “Secret World”. Último trabalho que escancara o lado Beatles-wannabe de Orzabal e naturalmente se afasta do synth-pop da década de 80, soando maduro e equilibrado.

O público formado por coroas endinheirados, saudosos e curiosos em geral recebeu ansiosamente o Tears For Fears num Chevrolet Hall lotado. O baile da saudade estava garantido e para não correr riscos a banda já começa com “Everybody Wants To Rule The World”, para delírio coletivo. Orzabal exibindo ótima forma vocal, como sempre o responsável pelo carisma e pela cara do TFF. Se esforçando acima da média das bandas gringas em arriscar um português, bem redondo, agradece, diz que é a primeira vez na cidade, que estão muito felizes de estar aqui e toda aquela papagaiada tradicional que o público adora.

Abusando do repertório de hits, emendam “Sowing The Seeds Of Love” e “Change”, numa versão mais pesada e com muito mais punch que o normal. Méritos também de um grupo de apoio sensacional: Charlton Pettus na guitarra, Jamie Wollam na bateria (num posto que já foi ocupado por Nick D’Virgilio, um dos melhores do mundo) e Doug Petty nos teclados. Nos backings – mas assumindo os vocais em muitos momentos, sem falar no bom show de abertura com material autoral – está Michael Wainwright, segurando a barra para descanso dos vocais principais e completando quando necessário, um ótimo suporte. Além do tesão que Orzabal e Smith aparentam no palco, deixando as rusgas de lado.

“Closest Thing To Heaven”, outra do último disco, abre caminho para a cover de Billie Jean, anunciada com reverência. E, ainda que seja fácil acusá-los de “oportunismo” – que não encontra respaldo na realidade, já que não precisam disso – sem dúvida foi uma das mais interessantes e diferentes covers de Michael que pipocaram após sua morte.

Ao introduzir “Mad World”, uma das melhores composições da banda, Curt Smith, que nitidamente sentiu muito mais a passagem do tempo que Orzabal, provoca: “essa música já foi feita por tanta gente que muitas vezes se esquecem de quem é a original”.

Com o jogo ganho, o final ainda reserva “Pale Shelter”, “Break It Down Again” e “Head Over Heels” antes do bis. Ovacionados, retornam para o espetáculo de Orzabal em “Woman In Chains” e, claro, “Shout”, completando um repertório praticamente impecável, de uma das bandas mais bacanas do synth-pop, que envelheceu melhor que o esperado. E num tempo em que 90% do pop mainstream sai da mesma fábrica, com a mesma (e insuportável) fórmula, é nostálgico mas saudável lembrar que os holofotes não precisam ficar em produtos de gosto duvidoso, pretensamente modernos, forjado pelos mesmos produtores.

Música para as massas, radiofônica e comercial pode ter uma qualidade acima da média, sem paradoxos. E o Tears For Fears tem grande mérito em nos lembrar disso.

Tears for Fears Setlist Chevrolet Hall, Belo Horizonte, Brazil 2011

Sou jornalista e desde 2003 escrevo sobre música, cinema, literatura e outros assuntos em diversos veículos digitais e impressos. Fundei a Movin' Up em 2008. Publiquei os livros "11 Rounds" (contos) e "Latitude 19 & Outros Hematomas" (crônicas e poemas).

Published in Destaques Reviews de Shows