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Roger Waters: The Wall, a potência e o clichê

Mais do que a imponência do espetáculo em si, “The Wall Live” representa a saciedade de Roger Waters em poder apresentar sua última obra realmente relevante. O disco e o conceito que implodiram de vez o Pink , em que sua megalomania venceu: mas que, no fim, lhe custou a perda de uma batalha judicial e o afastamento dos holofotes principais. Afinal, nos anos 80, “enquanto o enchia estádios com ‘as minhas músicas’, eu tinha que me contentar em fazer meu show para uma plateia muito menor”, segundo as palavras do próprio Waters.

Como álbum e como toda “ópera-rock”, The Wall é irregular. Com um pêndulo bem positivo, diga-se. Entre as músicas excelentes, encontramos as três partes de Another Brick In The Wall, Mother, Goodbye Blue Sky, Goodbye Cruel World, Hey You, Is There Anybody Out There?, In The Flesh e as três contribuições creditadas de Gilmour com Waters: a quase hard-rock Young Lust, Comfortably Numb (a melhor de todo o disco) e Run Like Hell.

O resto se perde em composições pouco inspiradas e músicas que servem mais como suporte para a história. O que se justifica se lembrarmos que The Wall nunca foi pensado para ser só música. O ótimo filme de Alan Parker, de 1983 (base das projeções atuais), serviu para materializar com sucesso uma turnê que acabou precocemente porque dava prejuízo.

Hoje, não. Hoje a experiência ao vivo de The Wall se configura não só como um dos maiores espetáculos da história do showbizz, como um dos mais lucrativos e impressionantes, ancorado no muro-tela de 137 metros de largura por 11 de altura. Waters finalmente consegue transpor com o apuro técnico, o impacto e o lucro que sempre quis. Nesse sentido, sim, o espetáculo The Wall, nitidamente, estava muito a frente da sua época. Precisou esperar mais de 30 anos para se realizar plenamente. E quando foi lançado, a outra banda que se caracterizou por lançar turnês de produções únicas, o U2, era só um bando de adolescentes entre 17 e 19 anos. Não por acaso, Mark Fisher, responsável por arquitetar tanto a primeira versão de The Wall, em 1980, que se tornou a maior influência para todas as grandes produções da música pop dali em diante, quanto a atual turnê, foi também contratado pelo U2 para bolar a sua 360 Tour.

Além de carregar o DNA da vida de Waters – o trauma do pai morto na segunda guerra, a mãe superprotetora – impregnados em boa parte da sua obra, The Wall materializa o afastamento e a alienação entre o que o Pink Floyd havia se tornado e o seu público. O muro, literal, imenso, é uma metáfora nada sutil dessa incômoda situação e, depois, do próprio muro que nós criamos para nos proteger das pessoas, do mundo, do que nos afetar. De como a sociedade contribui para a criação desse muro e as consequencias disso.

Conceito nada original. Um clichê, trabalhado antes de Waters por inúmeros autores em diversas áreas diferentes. O mérito de Roger é trazer isso para a música pop numa embalagem única, com a sua própria carga de vida e com o peso do que o Pink Floyd representava: uma das primeiras bandas a utilizar truques de iluminação, elementos cênicos e produções fora do comum. O grupo, afinal, que instaurou o conceito de super-produções, de espetáculos que podiam envolver a plateia de todas as formas possíveis.

“The Wall”, enfim, é a potência e o clichê trabalhados no último grau. A crítica e a reflexão em meio aos paradoxos e a alienação total. “Você não pode chamar as pessoas para ir ao circo e colocar moscas como destaque principal, você precisa ter elefantes e tigres”, conforme palavras do próprio Waters nessa matéria obrigatória sobre a volta da turnê, em 2010. 

Escolado, ele sabe chamar a atenção do público: seja na resposta “NEM FUDENDO – NO FUCKING WAY” que aparecem no muro após o verso de “Mother” que pergunta: “mother should i trust the government?”.

Seja na homenagem a Jean Charles, repetida em todos os shows da turnê no Brasil, quando declara num português esforçado: “Gostaria de dedicar este concerto a Jean Charles de Menezes, sua família e sua luta por verdade e justiça; e também a todas as vítimas do terrorismo de Estado em todo o mundo.”

Enquanto o muro vai sendo construído, as animações originais de Gerald Scafe’s ganham a companhia de projeções que evocam desde provocações bobas como o “capitalismo” escrito na mesma fonte da Coca-Cola até uma tensão maior, como nos últimos 20 minutos de show e o auge da opressão e do julgamento vividos pelo personagem. Com a esperada destruição do muro, a banda toda – que já está junta há bastante tempo, tendo como destaque o guitarrista Snowy White e o tecladista Jon Carin – se junta na frente do palco empunhando seus instrumentos para o encerramento com “Outside The Wall”, numa postura simples e quase de “trovadores” perante todo o aparato tecnológico que cercou as duas últimas horas.

Waters sabe como ninguém provocar a reflexão através do entretenimento. E, consciente de suas fraquezas, mesmo com o ego descomunal, expõe isso de forma direta e clara: The Wall nada mais é que a exumação pública dessas angústias, tormentos e ambições. Com 68 anos nas costas (completará 69 em setembro), Waters já declarou que esta é a sua última grande turnê. Que, se vier a embarcar numa turnê mundial novamente, será algo muito menor. Ele, enfim, cumpre o grande desejo da sua carreira dos últimos 30 anos. Agora, creio, após décadas de contendas, desentendimentos, disputas e problemas com sua própria criação e seus colegas, pode se sentir em paz consigo mesmo.

Mais:

Texto sobre a turnê anterior de Waters no Brasil: 2007, no Rio de Janeiro

Back To The Wall: Rolling Stone 2010 Profile of Roger Waters

Sou jornalista e desde 2003 escrevo sobre música, cinema, literatura e outros assuntos em diversos veículos digitais e impressos. Fundei a Movin' Up em 2008. Publiquei os livros "11 Rounds" (contos) e "Latitude 19 & Outros Hematomas" (crônicas e poemas).

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Published in Destaques Reviews de Shows