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Wado: a viagem artística entre Brasil e África

O lançamento de “O Manifesto da Arte Periférica”, em 2001, instantaneamente colocou Wado em lugar de destaque na cena independente brasileira. O disco, elogiado por 11 entre 10 críticos relevantes de todo o país, foi seguido por “Cinema Auditivo”, de 2002 e a “A Farsa Do Samba Nublado”, de 2004, a fase paulista do rapaz. Pausa. Hiato de 4 anos. O retorno do catarinense-alagoano para Maceió gerou “Terceiro Mundo Festivo”, em 2008.

Na seara da cena nordestina que despontou no início do século XXI, ainda ancorada nas eternas referências da década de 90 como Nação Zumbi, Mundo Livre/SA e congêneres, Wado se destaca. Formou bandas  (“Realismo Fantástico”, “Fino Coletivo”), dispensou os comparsas (que seguem em carreira própria, como o Fino), sempre refletindo com seu olhar marginal e, claro, antenado. Brazilian Eletro/ Funk/ Disco/ Reggaeton/Afoxé, como o próprio se define, é uma partida enganosa.


“Atlântico Negro”, a nova obra de Wado (disponível para download gratuito no site oficial) tem pouco de eletro, funk ou disco. O que se encontra são os notáveis ritmos africanos macerados pela MPB, o pop e o retorno da presença de instrumentos como guitarra e violão, quase esquecidos no disco anterior. Trabalhando sobre as inter-relações entre Brasil-África, liricamente amparado nas ideias do estudioso Paul Gilroy e sonoramente fazendo uso inteligente dessa herança e influência.

Maceió faz bem para Wado. Perguntado sobre a diferença de percepção entre uma vida nas metrópoles e a convivência com o litoral – em sua infinita relevância não só na música como na alma brasileira – Wado reflete: “sinto bastante a influência do lugar nos discos. Estes dois últimos (Terceiro Mundo Festivo e Atlântico Negro) são bem litorâneos. Sendo que o TMF é mais a pegada eletrônica disso que rola bastante por aqui: a periferia tem muito interesse na tecnologia e consegue resultados “massa” bulindo nela. O AN é a pegada do afoxé da música negra mesmo, a coisa mais analógica, mais mão no instrumento. No “Farsa”, de 2004, tinha isso de ser nublado, da convivência com SP, a tensão da metrópole. Sem dúvida o ambiente reflete em tudo, na sonoridade, nos temas.


Indo de novas e suculentas cancões como “Herlício Luz” e “Pavão Macaco”, até a releitura de “Feto” e “Sotaque”, em medley, uma das melhores da bolacha ,“Atlântico Negro” vai no cerne da proposta: tem cheiro de mar, gosto de brisa na boca. É salgado e doce. Respira e conversa com você. Escolha acertada, diga-se. “Ando meio cansado do rock. A força africana está bem representada na nossa cultura e tenho escutado muito esse tipo de coisa. É nessa música que tenho gasto meus ouvidos, me divertido e focado a criatividade.

O ótimo clipe de “Pavão Macaco”:

httpv://www.youtube.com/watch?v=fyMNekcjl6s

O disco traz também participações de gente que vem representando uma certa redefinição da MPB, como Curumin, Romulo Fróes e Kassin. Misturando toda uma nova noção de música brasileira com tendências diversas sem soar premeditado ou artificial. Acho que a música pop brasileira sempre foi assim, híbrida. Essa cena de agora, ela tá no gueto, no sentido de que o Brasil não conhece seus compositores dos dias de hoje. Mas no gueto tá tudo bem, todo mundo continua trabalhando, lançando seus discos. Se não reverbera mais são por questões de mercado, não pela qualidade dos artistas. O nível tá ótimo. Júnio Barreto, Davi Moraes, Rômulo Fróes, Céu, Bonsucesso, Eddie, Lucas, Momo, Fábio Góes, muita gente boa criando canções lindas (só para citar alguns).”


Mas os diversos shows pelo Brasil, o circuito de festivais em pontos até então literalmente periféricos no circuito como Belém/PA, Goiânia, Uberlândia/MG, Acre, Cuiabá, Natal, Ceará, Porto Velho e a maior cobertura da mídia não fazem diferença? Wado analisa: “O público tem crescido, ainda não é muito maior, mas é maior sim e nos últimos 3 anos venho tocando mais pelo Brasil, o que também acho que reflete a melhora deste circuito. Mas ainda tenho de ter empregos pra almoçar todo dia. A coisa está melhor, mas ainda não está plena.”

Num cenário longe do ideal, Wado lembra que existe, sim, gente vivendo de música no Brasil. Especialmente de Pernambuco, afirma, que seria um bom exemplo a se seguir. Belo Horizonte, Brasília e Belém (além de SP) estão acima de outros pólos, segundo o músico, que reflete um desejo tão simples e justo quanto, para a maioria dos artistas, complicado: “consigo rodar bastante o Brasil pagando meus músicos e com infra legal na maioria dos lugares. É uma coisa deliciosa viajar pra tocar e expandir a música. Se pudesse fazia só isso e gravava discos(risos)”

O periférico, afinal, tão presente na música de Wado desde o incisivo primeiro disco, não seria uma boa coisa? O objetivo, talvez, não se trata de tentar virar “mainstream”, mas aproveitar ao máximo a condição que estar “a margem” proporciona. Artisticamente, soa muito mais interessante. Wado finaliza com a experiência de quem vive literalmente os dois lados: a raiz onde deve estar e o flerte com a viablidade comercial da música: Acho que as coisas estão se segmentando e amadurecendo, é legal isso de ficar distante um pouco pras linguagens ficarem mais ricas, mas é bom também a convergência. Acho que São Paulo é maior pólo emissor então é bom também de vez em quando manter laços com aquilo ali.”


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Site Oficial (Atlântico Negro na íntegra para download gratuito)

Fotos: Flickr do artista

Paul Gilroy: Black Atlantic (texto análise sobre a obra)

Jornalista investigativo, crítico e escritor. Publico sobre música e cultura desde 2003. Fundei a Movin' Up em 2008. Autor de 3 livros de contos, crônicas e poemas. Vencedor do Prêmio de Excelência Jornalística (2019) da Sociedade Interamericana de Imprensa na categoria “Opinião”. Finalista do V Prêmio Petrobras de Jornalismo (2018).

Published in Destaques Entrevistas