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Belém é a nova Seattle

Já faz alguns anos que a cena “tecnobrega” do Pará chegou a outros cantos do Brasil. Se não me engano, de 2007 para cá a imprensa “cult” começou a se render ao que era feito lá. Grande parte disso, claro, é mérito do fenômeno Calypso. Campeão de vendas há alguns anos, com vários lançamentos em sequencia e tido como exemplo de administração independente por 11 entre 10 pessoas do ramo. Faz sentido. Se no início soava apenas como outro nome de sucesso passageiro, a banda de Joelma e Chimbinha conseguiu o feito de enfileirar discos e produções com alta vendagem, produzindo hits que eclodem em todas as rádios populares do país dia após dia.

Um dos meus melhores amigos é paraense. O conheci em Belo Horizonte, 2004. Veio de Parauapebas: cidade notória por ficar ao lado Carajás, a maior mina a céu aberto do mundo, coração dos empreendimentos da Vale do Rio Doce. Um dos mais importantes centros econômicos do Brasil, portanto. E, ao que sólidas informações indicam, também um dos maiores celeiros de hackers da América Latina. O Pará é um estado fascinante.

O que pode soar “brega”, “exagerado”, “exótico” e outras terminologias diversas para as nossas mentes diminutas de moradores da parte baixa do país, na verdade, goste ou não, é uma das maiores revoluções da música independente brasileira de todos os tempos. Ironia? A Floresta Amazônica como berço de um movimento legítimo e que dita o modelo de negócio para o resto do país, incluindo a “megalópole centro de tudo”, São Paulo. Belém é a nova Seattle.

Como o grunge, para o bem e o mal, o tecnobrega e seus derivados representam o sopro de ar quente sob a mesmice e eternas pseudo novas reciclagens de sambas com tempero indie vendidos como a nova Tropicália. Como Seattle, Belém é o centro de algo único, popular e capaz de inverter a ordem do que vigorava até então.

Na verdade, é no mínimo estupidez falar em algo que “vigore como a regra geral da música” num país, momento, etc. Não há mais sentido em manter estas concepções. Todos os estilos convivem em seus nichos, de níveis diferentes de profissionalização, força e popularidade. Mas estão lá.

Num estado onde lei não é exatamente o forte, a cena tecnobrega padece do coronelismo das aparelhagens. Barões que centralizam a organização das principais festas e ficam com o grosso do lucro. Há que se encontrar um caminho alternativo para estas diferentes encarnações dos vilões tradicionais de épocas anteriores da música: gravadoras, etc.

De gente clássica como Adriano Santa Cruz ao “rei” do “brega” atual, Wanderley Andrade, passando pelo pai da coisa, Tonny Brasil e por trocentos DJ’s, grupos e bandas, Belém transpira música “peculiar”: e sua importância vai além de se simpatizar ou não com o estilo da maioria do que vem de lá.

httpv://www.youtube.com/watch?v=n1rGr8HLQiU

O site Brega Pop reúne boa parte deles. É o principal portal dedicado à música do Pará. Recentemente foi lançado o documentário Brega S/A, de Vladimir Cunha e Gustavo Godinho, que você pode conferir aqui.

Raramente o popular foi tão respeitado nas rodas ditas “cultas”, “cool”, “alternativas”, etc, quanto hoje. Coisa engraçada de se ver.

Jornalista investigativo, crítico e escritor. Publico sobre música e cultura desde 2003. Fundei a Movin' Up em 2008. Autor de 3 livros de contos, crônicas e poemas. Vencedor do Prêmio de Excelência Jornalística (2019) da Sociedade Interamericana de Imprensa na categoria “Opinião”. Finalista do V Prêmio Petrobras de Jornalismo (2018).

Published in Destaques Especiais