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O Iê Iê Iê de Arnaldo Antunes

Antunes sempre cultivou aquela imagem de “acabei de sair do hospício e virei músico”. Vem fazendo isso muito bem ao longo dos anos. E sempre numa carreira solo ascendente desde a saída dos Titãs. Observar o estágio em que cada um está agora e seus mais recentes lançamentos é apenas outra comprovação desnecessária de que AA fez a escolha certa. “Sacos Plásticos” que o diga.

Acabo de conferir uma apresentação decepcionante de AA em Brasília, ao lado de Edgard Scandurra. Apenas os dois, literalmente. Decepcionante não pelo show em si, mas pela organização caótica do festival (FIB). AA tocou 5 músicas, começando com a ótima “Música Para Ouvir” e saiu do palco sem maiores explicações. O formato, só com a guitarra diferenciada de Edgard, é bom. Mas ouvindo seu novo álbum, “Iê Iê Iê”, é nítido que uma banda completa faz falta.

Arnaldo apresentou o álbum muito bem no release:

“Um tanto por temperamento, mas também por herança tropicalista, sempre fiz discos marcados pela diversidade e pela mistura, livres da idéia de “gênero musical”. Talvez por isso mesmo (pelo desafio de fazer algo diferente), quis que essa minha volta a um som de banda com bateria, tivesse uma face mais coesa.

Cheguei assim ao desejo de fazer um disco de gênero, com possíveis variações rítmicas, mas mantendo um campo de referências no que podemos chamar de iê iê iê. Não por saudosismo, mas pelo anseio de revitalizar o estilo, numa linguagem mais contemporânea e com letras que tentam incorporar novas questões e pontos de vista a ele.

As referências são muitas: Surf Music, Jovem Guarda, a primeira fase dos Beatles, trilhas dos filmes de faroeste, o twist, Rita Pavone, programas de auditório e todo um repertório da cultura pop que se traduz em canções contagiantes e de apelo direto.”

Confere? Confere. AA não vai além do que realmente faz. E claro que uma banda que contou com Scandurra na guitarra, Curumin na bateria e Marcelo Jeneci no teclado, todos artistas com carreira solo estabelecida (salvo o último) e de qualidade inegável, ajuda. Assim como a produção do requisitado Fernando Catatau, do Cidadão Instigado, contribuindo efetivamente nos timbres, arranjos, vocais, etc. Reunião de mentes pulsantes e criativas que resultou num dos melhores álbuns do ano.

Longe do ranço que você possa ter com Antunes, perfeitamente compreensível (“intelectualóide pretensioso de música chata indulgente”), “Iê Iê Iê” tem boas chances de acabar com ele. As 12 faixas apresentam uma sonoridade gostosa, bem trabalhada, que cai macia e sedutora aos ouvidos. “A Casa É Sua”, “Longe”, “Sua Menina”, “Um Kilo” e “Luz Acesa” são algumas das que se destacam num primeiro momento. Mas todas tem seu charme, sua veia pop sem ser besta, seu gancho sutil, sua mensagem equilibrada.

Um dos melhores álbuns de Antunes e, sem dúvida, de 2009. Disponível para audição completa na Rádio UOL.

Jornalista investigativo, crítico e escritor. Publico sobre música e cultura desde 2003. Fundei a Movin' Up em 2008. Autor de 3 livros de contos, crônicas e poemas. Vencedor do Prêmio de Excelência Jornalística (2019) da Sociedade Interamericana de Imprensa na categoria “Opinião”. Finalista do V Prêmio Petrobras de Jornalismo (2018).

Published in Destaques Reviews de Cds