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Karina Buhr – Eu Menti Pra Você

Egressa do Comadre Fulozinha, a baiana Karina Buhr traz essa gostosa carga de quem cresceu no Recife, entre a força da música tradicional local e o boom independente dos anos 90, fragmentado e expandido nos anos 2000. É um disco que cresce na cabeça. Já pela terceira música, “Avião Aeroporto”, entre synths, riffs e pitadas psicodélicas, o sotaque da boa letra atinge o alvo: “o corpo humano tem, a resistência perfeita, se bate de leve dói, bate de cum força mata”.

Algo como se o progressivo dos anos 70 encontrasse o eletrônico, o rock independente e a MPB. Com uma pimenta autoral bem própria ali no meio. Expressa logo na sequencia, em “Nassíria e Najaf”. Na cena em que todo mundo toca com todo mundo, figuras conhecidas são responsáveis pelo caldo sonoro peculiar aqui: o trompete de Guizado, o piano de Marcelo Jeneci e as guitarras de Edgard Scandurra e Fernando Catatau. Além de Bruno Buarque (bateria), Mau (baixo), Dustan Gallas (teclados e piano), Otávio Ortega (teclados e bases eletrônicas) e Pedro Bandera (percussão).

Essa trupe transforma até algo tradicional como “O Pé” numa mezzo viagem espiritual. Música para se ouvir atentamente. De olhos fechados. Saboreando os detalhes. Ao vivo, completo, com o clima ideal, a música de Karina deve crescer assustadoramente. “Ciranda Do Incentivo” é um pseudo-rap que parece resumir ironicamente a situação do tal “mercado independente brasileiro”. E Karina ganha pontos por saber tocar tão bem na ferida.

“Tá tudo padronizado, nosso coração, nosso jeito de amar, pelo jeito, não é nosso não, tá tudo padronizado, me mira ira, me mira mas me erra, mas minha mira me era confusa, mudando meu amor de endereço”. A pretensão funciona. E, quando acerta, o resultado é belo e único. Depois de duas bolas foras – “Soldat” e “Esperança Cansa” – Karina entrega três pequenos presentes em “Solo de Água Fervente”, “Bem Vindas” e “Plástico Bolha”.

A ótima estreia solo da moça dá sinais de uma possível carreira brilhante, na sempre crescente lista de compositoras e cantoras brasileiras de destaque. “Eu Menti Pra Você” é um exemplo do que de mais interessante passou pelo caldeirão da música tupiniquim nos últimos 15 anos. Ouça.

Jornalista investigativo, crítico e escritor. Publico sobre música e cultura desde 2003. Fundei a Movin' Up em 2008. Autor de 3 livros de contos, crônicas e poemas. Vencedor do Prêmio de Excelência Jornalística (2019) da Sociedade Interamericana de Imprensa na categoria “Opinião”. Finalista do V Prêmio Petrobras de Jornalismo (2018).

Published in Destaques Reviews de Cds