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A Guerra Do Volume

Não é preciso ser nenhum especialista em engenharia de som para perceber um dos principais problemas da produção contemporânea que absolutamente destrói a qualidade da maioria do que é feito na música atual: a guerra do volume. Dois artigos são centrais neste ponto: uma ótima reportagem da Rolling Stone, de 2008, que vai no cerne do problema, e o verbete da Wikipedia que exemplifica a questão.

Além deste vídeo, que usa uma música de Paul McCartney:

httpv://www.youtube.com/watch?v=3Gmex_4hreQ

Sintoma direto da simplificação e da pior faceta dos meios digitais (o mp3, etc), a alta taxa de compressão é responsável por eliminar todas as nuances, a clareza, a participação efetiva de todos os instrumentos, o diálogo da música, o aspecto envolvente e de construção sonora e harmônica que chega até os ouvidos. Em suma, toda a riqueza da música.

A comparação entre o som de um vinil da década de 70 e um álbum do ano passado talvez seja um exemplo extremo. Para além do som do vinil ser o melhor (técnica e em todos os sentidos) frente ao CD e outros suportes, o abismo entre a qualidade da produção de antes e a atual é enorme. Quanto menos qualidade a música chega até nós (mp3), quanto pior o equipamento usado para ouvir (caixinhas de PC, notebook’s, ipod’s), mais alta a música obrigatoriamente se torna.

O que deixa a experiência de se degustar um álbum frequentemente dolorosa e insuportável. É como se a alma da música fosse retirada, se tudo de mais belo e fundamental que a compõe, cada detalhe minimamente trabalhado na mente do artista e na gravação em estúdio fosse extirpado em função do volume.

Se algo pode ser realmente acusado de matar a música moderna, é isto. Uma praga que afeta praticamente todos os estilos e todos tipos de música produzidos: desde os menos contaminados (jazz) até o metal, dominado por produções acéfalas de volume máximo que prestam o desfavor de diminuir o trabalho de muitas bandas extremamente ricas em suas composições.

O pior de tudo é que nada indica que isto vá mudar, pelo contrário. Resta a quem faz questão de uma boa qualidade de áudio contar com o bom senso de alguns bons produtores e artistas, já que a média do público em geral não costuma fazer ideia do que consome.

Quando o prazer de ouvir música torna-se algo incômodo, é sinal inequívoco de que algo muito, muito errado paira no ar.

Jornalista investigativo, crítico e escritor. Publico sobre música e cultura desde 2003. Fundei a Movin' Up em 2008. Autor de 3 livros de contos, crônicas e poemas. Vencedor do Prêmio de Excelência Jornalística (2019) da Sociedade Interamericana de Imprensa na categoria “Opinião”. Finalista do V Prêmio Petrobras de Jornalismo (2018).

Published in Destaques Especiais