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Donald Glover, América, espetáculo e lacração

A cultura da lacração é muito eficiente em defender os seus. O “lacre”, essa instituição típica da internet, formatada para o meme, para se tornar viral, funciona como um fim em si mesmo: “lacrar” é importante não só para atingir o público como, no melhor dos cenários, “criar consciência” – raise awareness – sobre um problema, uma chaga social, uma injustiça. Mas o que sobra embaixo dos escombros? O que resta depois da histeria? Se você espremer, sai alguma coisa?

São questões ainda mais relevantes para o caso de Donald Glover aka Childish Gambino e seu clip arrasa-quarteirão “This is America”, que já amealhou 50 milhões de visualizações em poucos dias com sua abordagem direta, cínica e provocativa sobre a violência e a posição dos negros nos Estados Unidos. Não se fala em outra coisa. Rapidamente a internet se dedicou a empilhar as referências do clip, como Jim Crow, o massacre na igreja de Charleston, Stephon Clark, a própria ostentação vazia dos artistas do hip-hop e por aí afora. Sites gringos estão abarrotados de análises detalhistas sobre cada elemento que aparece na tela e cada escolha feita por Glover, da dança até a corrida final. 

Tudo isso serve como prova do suposto brilhantismo do clip – que é, de fato, excelente. Mas como a internet se apressa em elevar um artista ao status de “gênio” e voz de uma geração e/ou a encarar referências empilhadas como prova de qualidade artística – quão fácil é abarrotar um clip, um filme, um roteiro… de referências, afinal? que mérito intrínseco existe nisso? – é ainda mais significativo porque Glover, comediante que começou catapultado via YouTube (stand-up, depois 30 Rock, Community até a sua própria série, Atlanta, sobre um rapper..err…em busca do sucesso) tem na internet boa parte do seu suporte. Não por acaso seu segundo disco chama-se, no estilo das piscadelas super irônicas que ele gosta de dar, “Because The Internet”. 

Engraçado é que, até ontem, Glover era encarado no máximo como um artista medíocre, quando não vergonhoso. Suas letras – e a letra de “This is America” não é exatamente nenhum tratado de excelência – eram ícones de vergonha alheia, de tom absolutamente patético, do tipo que gera séquitos de seguidores entre adolescentes. Glover era a expressão típica do artista “cringe-worthy”, como esse artigo da Consequence of Sound mostra muito bem. Basta olhar para “Heartbeat”: “you start calling, you start crying /I come over, I’m inside you / I can’t find you, the girl that I once had / But the sex that we have isn’t half bad”, ou para “The Worst Guys”: “you only come around / When you wanna play pool or my hot tub / Ice cream paint job in the garage / I had a ménage, and murdered the vag’ / But, afterwards, it was awkward as fuck / Cause I’m nervous as fuck and could not get it up / I-I-I-I, I need a minute, cold water to the face / I-I, I couldn’t finish, got the Uber from her place”.

Musicalmente, Glover/Gambino sempre foi uma piada. “Camp” e “Because The Internet”, seus dois primeiros discos (de 2011 e 2013), são duas das coisas mais vergonhosas que o rap produziu em tempos recentes. Só com “Awaken, my love!”, de 2016, lançado na esteira de Atlanta, que Glover partiu para emular o funk e o soul de eras passadas, com letras mais “sérias” e músicas mais “trabalhadas”. Sem dúvida melhor que os primeiros, mas ainda um fiasco tremendo, um show de emulação e de influências mal copiadas, mal processadas e mal executadas. Donald Glover é péssimo compositor, assim como a turma que ele recruta não ajuda muito. O que não necessariamente afeta a sua capacidade de ser influente.

A “cultura do lacre” ignora tudo em função da histeria, da vontade de fazer parte da discussão do momento e da instantaneidade do meme. Se “This is America” é a melhor coisa que Glover já fez – e é – é também de se questionar sua real capacidade de colocar em voga as questões que aborda, de contribuir para o debate além da página 2. 

Nada disso, ainda, é novidade. Seja na comédia, ofício primeiro de Glover, como o ótimo stand-up de Michael Che (também roteirista do Saturday Night Live), “Matters”, Trevor Noah, em séries como Dear White People, documentários como “A 13ª Emenda”, “Eu Não Sou Seu Negro”, enfim, para ficar apenas em poucos exemplos recentes. Questões que o movimento “Black Lives Matter”, de 2015, já colocava em perspectiva. 

Na música, Kendrick Lamar, Beyoncé e D’Angelo tem feito um trabalho infinitamente melhor, para qualquer aspecto que se olhe. Lamar em especial, como assinalei aqui em 2016 e também no texto de “To Pimp a Butterfly”. Só “The Blacker The Berry” seria suficiente para colocar Glover muito abaixo, para não dizer de forma humilhante. E a volta de D’Angelo com “Black Messiah” em 2014 é tudo aquilo que Glover queria ser em “Awaken, my love!” mas que não chega na sola do pé. 

Lírica e musicalmente, Glover/Gambino está a anos luz dos citados aqui. Mas, a despeito do fato de que qualquer obra que coloque em perspectiva o massacre negro na América (lá como cá), o racismo, o consumismo, etc, seja mais do que necessária, Glover não tem nada a oferecer para além do espetáculo, do show, do meme (e as próprias reações e “advertências” sobre essa questão específica ilustram bem isso).

Ele aperta todos os botões possíveis para o público, lota propositadamente de “signos” o seu clip-manifesto para que as pessoas se debrucem sobre eles, para que se impressionem com a “complexidade” e a “profundidade” das pistas deixadas. É um jogo já bastante conhecido entre autor-audiência que, jamais novo, encontra na internet sua representação maior, que reverbera, às vezes de maneira bastante contraditória, no que o emissor acredita criticar. 

O filósofo francês Jean Baudrillard disse, nos anos 70, na linha de diversas análises da época, a exemplo de Guy Debord e outros tantos:

O mesmo ocorre com a informação. Seja qual for seu conteúdo, político, pedagógico, cultural, seu propósito sempre é filtrar um sentido, manter as massas sob o sentido. Imperativo de produção de sentido que se traduz pelo imperativo incessantemente renovado de moralização da informação: melhor informar, melhor socializar, elevar o nível cultural das massas, etc. Bobagens: as massas resistem escandalosamente a esse imperativo da comunicação racional. O que se lhes dá é sentido e elas querem espetáculo. Nenhuma força pôde convertê-las à seriedade dos conteúdos, nem mesmo à seriedade do código. O que se lhes dá são mensagens, elas querem apenas signos, elas idolatram o jogo de signos e de estereótipos, idolatram todos os conteúdos desde que eles se transformem numa seqüência espetacular. O que elas rejeitam é a “dialética” do sentido. E de nada adianta alegar que elas são mistificadas. Hipótese sempre hipócrita que permite salvaguardar o conforto intelectual dos produtores de sentido: as massas aspirariam espontaneamente às luzes naturais da razão. Isso para conjurar o inverso, ou seja, que é em plena “liberdade” que as massas opõem ao ultimato do sentido a sua recusa e sua vontade de espetáculo. Temem essa transparência e essa vontade política como temem a morte.

A partir daí vai uma enormidade de reflexões mais necessárias e atuais do que nunca, para restringir bastante o foco desse texto. O que sobra para Donald Glover, por ora, é apenas isso, as migalhas do espetáculo e de uma carreira feita a partir de e para a internet, de uma mensagem que não sobrevive fora do laboratório do meme. 

Sou jornalista e desde 2003 escrevo sobre música, cinema, literatura e outros assuntos em diversos veículos digitais e impressos. Fundei a Movin' Up em 2008. Publiquei os livros "Meu Mundo é Hoje" e "11 Rounds", de contos e "Latitude 19 & Outros Hematomas" (crônicas e poemas).

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