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MAG: Facção Central, carreira solo e críticas ao rap brasileiro

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Lentamente, o foi deixando os grotões das grandes cidades, saindo do sub-mundo e tornando-se cada vez mais palatável para a grande mídia, e “cult” para o público em geral. Hoje, a cena do /hip-hop, ao mesmo tempo em que passa por mudanças e maior profissionalização, ainda vive alguns dos mesmos dilemas que sempre o acompanharam.

MAG, um dos maiores rappers do Brasil, fundador do Facção Central e que mantém uma carreira solo e há alguns anos, conta detalhes da sua trajetória, seu novo álbum e critica o que tem propriedade pra criticar nesta exclusiva à Movin’ Up.

Movin’ Up – Você foi o fundador do Facção Central, um dos principais grupos de rap do Brasil até hoje. Porque logo depois você abandonou o projeto? O que aconteceu?

Mag: Naquela época eu era praticamente uma criança e os problemas que eu passava dentro de casa traziam cobranças implacáveis. O rap não dava dinheiro e eu precisa levar grana pra casa e quando não levava era um inferno.

Acredito também que o rap estava me deixando meio “pancada da cabeça”, pois assuntos tão radicais exigiam muita cobrança dos que viviam ao meu redor.

Eu estava precisando de paz. Adorava o rap mas fui percebendo com o tempo que gostava muito mais da minha vida, e largar o Facção Central foi a sensação de missão cumprida e depois respirar na estrada aquela brisa com cheiro de mato molhado.

Quando saí do grupo senti que fiz a coisa certa. Fundei o grupo mas não queria mais aquilo para minha vida e como tudo que faço até hoje, fui e não voltei mais, deixei o nome com o Eduardo e Dum-Dum e segui meu caminho. Fico feliz de nunca ter utilizado o nome do grupo para crescer como Mag.

Provei que dei certo duas vezes partindo do 0 isso não é fácil.

Fico feliz por saber que Deus tem abençoado a vida deles pois ninguém melhor do que eu saberia do talento de ambos. Aliás fui eu que descobriu os 2 e o público só veio a confirmar o que eu já havia visualizado anos mais tarde. Acho que levo jeito pra coisa! (risos)

Movin’ Up – Naquela época estávamos no início da década de 90. O que você pode dizer que mudou no cenário do rap brasileiro daqueles tempos até hoje? Em termos de mídia, abordagem, organização, cena, música, etc…

Mag: Eu acredito que nada mudou e isso é ruim. Facilitou os meios de gravação e divulgação via net, mas os rappers ainda insistem nesses papos de segregação e não buscam melhorar a qualidade das produções e dos assuntos mencionados nas letras.

É preocupante, pois a postura dos rappers ao olhos das pessoas que não vivem nesse meio radical da cultura hip-hop é assustador. E ainda reagem com desdém, pois a rapaziada confunde tudo e culpa todos, falando coisas desnecessárias para as pessoas erradas na hora errada. E assim fecham as portas dos meios de comunicação com muito radicalismo, falta de educação e imaturidade.

Nego se diz revolucionário mas quer vender CD? DVD? Estar no palco? Dar autógrafo? Acredito que enquanto os verdadeiros rappers não assumirem que estão nessa não só pelo ideal mas também pela grana, o gênero vai continuar sem capital de giro e meios de divulgação para o próprio estilo.

Enquanto os rappers não entenderem que é preciso dinheiro para fazer revolução vão continuar na mesma reclamando infinitamente. Aclamar a pobreza não vai mudar o quadro. Não estou falando pra geral rebolar a bunda na TV, só estou falando pra usarem a cabeça e se tornarem 15% da receita do país como os rappers americanos.

Fazer música comercial não é se vender, música é uma profissão, acredito eu que a partir do momento que um artista coloca seu CD pra vender na loja ou na barraca que seja, já é um tipo de comércio e isto é fato. Ser escroto é falar que não se vende pra mídia, bla bla bla e humilhar um moleque da própria favela que não tá com o uniforme do rap: tênis importado, camisa de basquete e boné gringo.

O rap é uma panela de segregação igual a todas que já existiram. Se você não for interessante pros caras que estão no topo, ninguém vai te apoiar em nada.

Fui muito humilhado por rappers quando não era nada e hoje escolhi meu caminho que é fazer minha música sem colar com ninguém. Adoro meus fãs e ensino pra eles que não precisam falar na gíria ou usar roupas caras de grifes de rappers para serem meu amigos. Sou muito bem resolvido, gosto das pessoas pelo o que elas são, mas percebo que a recíproca não é verdadeira.

Movin’ Up – Você também é conhecido por ser um músico completo, dominando diversos estilos como samba, jazz, rock, soul, podendo tocar duas guitarras ao mesmo tempo que canta…coisas que devem surpreender a quem tem uma visão ordinária do rap, ou mesmo preconceito. Como se deu sua formação musical e como você trabalha esse conhecimento dentro das composições?

Mag: Poxa, dom é dom, mas a busca também é fundamental. A história é longa. Estou escrevendo um livro, mas resumindo toquei em bares de MPB, jazz , etc. e voltava da escola as 24:00 pela rua tocando gaita blues, essas coisas. Já andei muito por esse mundão. Eu utilizo meu dom com muita humildade a Deus, pois Dom é dádiva e se alguém vacila lhe é tirado.

Movin’ Up – A maioria dos grupos de rap, como o Facção, são acusados de fazer apologia da violência, drogas, crimes, e serem censurados por “pegar muito pesado” nas letras. Que abordagem você faz das letras no rap nacional como um todo? A quem o rap se dirige?

Mag: O rap fala, fala, fala, porém não fala pra ninguém, porque todos que se dizem insatisfeitos não compreendem que os filhos das putas que estão na politíca não ouvem rap, e é ai que fode tudo mais ainda, porque eles levam o ódio a quem já tem ódio no coração. Porque você imagina o cara que já esta com fome, frio, preso etc. porém o que está com fome também não toma nenhuma atitude em relação ao governo. Ou seja, é muito louco: um aflora o ódio e a realidade que o cara que já está mal fica pior ainda, e o cara que já estava mal não se levanta pra fazer nada.

Pelo contrário, se levanta e vai pro show, aí fica pior ainda suas expectativas. Ele vai pro Maracanã assistir um clássico e depois assiste TV, pega uma mulher no bairro, faz uns 4 filhos com ela e depois fica com mais ódio e joga a culpa no governo de novo. Olha como o ciclo é louco, por isso que quase pirei.

Acho que o problema não é o governo, o problema é a família, pois se muitos não fossem acomodados, até a política seria diferente.

Mas o governo faz um jogo de xadrez interessante e no final ficam traficantes brigando entre si, rappers, policiais matando gente da sua própria classe.

Eles não fazem apologia a nada, acredito eu, minha opinião é que estamos todos perdidos como cegos em tiroteio e os rappers estão a flor da pele, porém em vão, também estamos nos fins dos tempos. No final tudo é vaidade.

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Movin’ Up – Em carreira solo, você adotou temas mais leves como carros, esportes, mulheres, etc. Como é o processo de composição? Qual a importância da rima no rap?

Mag: A rima é tudo, e não adianta nego falar que não porque fica uma merda um rap sem rima (risos)! Eu gosto de ação e faço das minhas músicas trilhas de uma cena que minha mente edita rapidamente, como se fossem cinema. Acredito que em cada mente, a música será projetada de acordo com a criatividade de cada um, a partir do que está armazenado no cérebro.

Movin’ Up – Seu último álbum “Super Heróis Urbanos”, é do ano passado. Como foi a recepção dele?

Mag: Acredito que foi excelente. Mas hoje devido a pirataria o CD acaba nem sendo o termômetro do artista, são nos shows que isto acontece.

Movin’ Up – O título me parece uma referência direta ao cotidiano dos motoboys, figura decisiva das grandes cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte. O trânsito, aliás, está cada vez mais caótico nestes centros. O que poderia ser feito para melhorar a situação?

Mag: Infelizmente nada! Só o controle de natalidade, mas você acha que vão implementar isso, no Brasil? (risos)

Movin’ Up – Falando sobre trânsito, a lei seca foi uma medida muito polêmica implantada recentemente, sem uma discussão pública ampla sobre o assunto, com o Brasil sendo um dos únicos países do mundo a ter tolerância zero em relação ao álcool. O que isto implica no direito de ir e vir das pessoas? Sendo alguém tão ligado ao universo dos carros, como você sente as mudanças que a lei impôs?

Mag: Sou a favor da lei seca. Não bebo, não fumo, o fato de gostar de carros não me caracteriza como imprudente mesmo porque não sou. E se as pessoas não tem consciência com a vida dos demais, que seja pela lei. É muita sacanagem o sujeito não estar em sã consciência e ir pra rua infernizar quem está de boa, né?

Movin’ Up – Lendo o seu projeto de filme, bem extenso, me parece uma grande produção, com vários nomes conhecidos no Brasil. Fale-nos um pouco mais sobre o projeto.

Mag: Esse é surpresa, mas quero abordar tudo o que eu vivo e vivi e olha que é bastante coisa, não é um filme sobre minha vida, mas fala sobre a vida de uma maneira ampla.

Movin’ Up – A internet sempre foi uma das principais plataformas de divulgação do seu trabalho. Hoje em dia, com todas as mudanças do mercado fonográfico e um cenário amplo de transformação das formas de se fazer e comercializar música, este é um fato concreto. Que uso você faz dos meios alternativos de divulgação e qual a importância a internet tem para um artista independente?

Mag: Esse é um segredo de Estado assim como a fórmula da Coca-Cola (risos)! Não conto pra ninguém. Porém a importância é que não dependemos desses imbecis que se auto-denominam “executivos artísticos” que se dizem experts em música e não tocam nem sequer um violão.

Movin’ Up – Quantos downloads até hoje suas músicas já tiveram? Onde o público pode baixá-las? E como é esse relacionamento do fã que chega direto até você?

Mag: A ultima conta foi de 57 milhões de downloads. Baixá-las? Diferente do que dizem por aí, eu autorizei a disponibilizá-las, mas não foi eu que o fiz.

Quanto aos fãs que realmente buscam trocar uma idéia, eles viram até meus amigos, de virem na minha casa e eu na deles, normal. Eu quero me casar com uma fã (risos)!

Movin’ Up – Atualmente você opta por fazer quase tudo sozinho: composição, produção, empresariamento, artes gráficas, etc. Porque esta escolha? Que problemas você enfrentou nestes pontos em seus anos de carreira?

Mag: Eu estudei pra isso, não cai de pára-quedas como muitos oportunistas que vão se enfiando no meio, como ratos. Amo o que faço. Não posso deixar minha vida na mão de incompetentes porque quando deixei foi catastrófico! Agora tenho uma equipe pequena, porém eficiente que trabalha sem stress.

Movin’ Up – Algo que pode surpreender a muitos é que você começou num grupo evangélico, o Ary Zendron. Em que você acredita e que importância a espiritualidade tem na sua vida?

Mag: Total. Deus pai e Jesus Cristo são minha razão de viver e se a molecada curte meu jeito com certeza deveriam ler a bíblia, pois me espelho em Jesus Cristo.

Movin’ Up – Fale-nos um pouco mais sobre o selo Mag.Entretenimento | Aro 16.

Mag: Não foi vaidade. Foi a necessidade de criar uma produtora para zelar pela qualidade das minhas produções e dos artistas que pretendo empresariar.

Movin’ Up – Uma de suas músicas mais famosas é “Quer Tomar Bomba?”, que fala sobre o problema real do uso de anabolizantes principalmente pelos jovens. Os esportes, e temas relacionados a eles, sempre foram marginalizados no Brasil, encarados com pouca seriedade. Você acha que se os esteróides fossem legalizados e tivessem um controle e uso orientados por profissionais especializados, como o é em outros países do mundo, a coisa poderia ser diferente? Que importância tem o esporte pra você?

Mag: Sempre achei o esporte de alto nível perigoso, pois é competitivo e isso não é legal para uma criança que não tem o dom do esporte. Porém, como prática espontânea além de saudável é essencial para todos.

Quanto ao uso dos anabolizantes teríamos que fazer uma matéria só com esse assunto pois cada um tem sua posição, pois para uns é vaidade pra outros é uma forma de abrir portas na sociedade ou se manter vivo nesse mundo de aparências, é um assunto que dá o que falar com certeza.

httpv://www.youtube.com/watch?v=VJFj4iP07LA

Movin’ Up – Além do filme, parece que está para sair um DVD e um livro contando sua história. Você mesmo que escreveu? Como foi a realização dessa biografia?

Mag: Fiquei mal, pois minha vida não foi muito legal. Existiram momentos que tive que parar de escrever, pois tem uns lances que chocam a nível de frieza do ser humano e muita humilhação que passei. Mas quero lançá-lo no dia que eu não precisar mais de grana e saber que estou colocando ao público um lance como realização pessoal não como meta de venda, pois seria até uma blasfêmia usar minha história, minhas mágoas e recordações desagradáveis para levar dinheiro para casa. Não seria uma grana abençoada.

Movin’ Up – O que está sendo produzido no momento? Qual o cronograma de lançamentos de suas próximas obras? Deixe uma mensagem final para o seu público.

Mag: Cara eu nem sei mais o que fazer, porque nesse país você faz muito e não recebe nada. No momento estou precisando de um pouco de paz pra criar, pois música é espírito.

Para meus fãs eu deixo a seguinte mensagem: estamos nos fins dos tempos, se apeguem aos seus familiares e busquem a Deus de coração limpo, não se apeguem a nada desse mundo, porem não esqueçam que o dinheiro é tudo aqui nessa terra, mas nunca coloque seu coração em coisas que a terra enferruja. Leiam a Bíblia Sagrada mesmo não entendendo nada, evitem fofoca, a língua mata. Sejam simples, deixem o poder pros vaidosos de coração. Não se metam em assuntos que não levam a nada. Use a cabeça pra fazer dinheiro limpo. Vista-se bem não pra mim mas para o mundo, porque ele é escroto.

Cuidem do seu corpo, fujam de confusão e não pensem demais, porque isso vai te deixar maluco. Ame de coração mas nunca entregue seu coração a ninguém, apenas alugue ele por alguns momentos!

Tenho muitas coisas a dizer mas a principal de todas: não seja músico no Brasil (risos)! Um abraço a todos!

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Sou jornalista e desde 2003 escrevo sobre música, cinema, literatura e outros assuntos em diversos veículos digitais e impressos. Fundei a Movin' Up em 2008. Publiquei os livros "Meu Mundo é Hoje" e "11 Rounds", de contos e "Latitude 19 & Outros Hematomas" (crônicas e poemas).

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